podemos ver hoje em dia muitos homens que fazem a obra de Deus, mas não se dedicam inteiramente ( incluisive eu). Alegando não dispor de tempo para obra, enquanto isso as ovelhas ficam ao léu, roenando-se presa fácil para os lobos devoradores.
CREIO QUE O PASTOR DEVE ESTAR EM CONTATO COM SUAS OVELHAS EM TEMPO INTENGRAL, QUASE TODOS OS DIAS, ALIMENTANDO-AS COM A PALAVRA.
SABEMOS QUE TEM OVELHAS QUE SÓ VAI A IGREJA UMA VEZ POR SEMANA E NÃO TEM NEM CONTATO COM O PASTOR E AS VEZES ESTÁ PASSANDO POR UMA CRISE EXISTENCIAL E NÃO TEM COMO DESABAFAR COM SEU PASTOR APÓS O CULTO E VOLTA PARA CASA DO MESMO JEITO, POIS ELA NA VERDADE QUERIA E PRECISA DE UMA PESSOA PARA LHE ORIENTAR, PARA LHE AJUDAR E ATÉ MESMO DE UM AMIGO.
O PASTOR DEVE SER ACIMA DE TUDO AMIGO.

Sumário
Criador do módulo
Capa
Introdução
Primeira parte: O que é discipulado?
1 Fazer discípulos, e não convertidos 14
2 O que é discipulado? 19
Segunda parte: Quem é discípulo?
3 Como saber se você é discípulo? 36
4 Obediência 41
5 Submissão 49
6 Amar uns aos outros 63
7 Oração 77
Terceira parte: Como fazer discípulos?
8 Criado para reproduzir 84
9 A escolha de um discípulo 91
10 O discipulado é relacional 105
11 A dinâmica do discipulado 123
12 O padrão do discípulo: excelência 142
13 O modelo do Mestre 155
A
Patrick Delaney; Susie Krehbiel, Fred Stoesz, Mary Thiessen e Thuan Vuong,
queridos discipuladores, cujo comprometimento em levar o amor de Deus aos
necessitados é uma constante fonte de encorajamento.
Quando Jesus cumpriu sua missão entre os homens, ele se fez
servo de todos, curando os doentes, cuidando dos abatidos e pregando o
evangelho às multidões. Em tudo isso, concentrou-se na tarefa de fazer
discípulos — pessoas que aprendessem dele e seguissem seus passos. Após sua
morte e ressurreição, antes de subir ao céu, disse a seus seguidores: "vão
e façam discípulos de todas as nações".
A formação de um discípulo o
levará ao padrão de compromisso estabelecido por Jesus para que você reproduza
esse mesmo padrão na vida de outros discípulos. Com uma abordagem prática e
progressiva, dr. Phillips descreve o discipulado como um relacionamento
duradouro e pessoal, assim planejado pelo Mestre.
O chamado para participar dessa tarefa não é um dom
especial, mas sim uma ordem a obedecer; é, na verdade, uma aventura ímpar que
todos os discípulos de Cristo devem experimentar!
KEITH PHILLIPS é presidente da World Impact, organização
dedicada a missões urbanas nas periferias dos Estados Unidos da América.
Bacharel em Artes pela University of Califórnia (UCLA); mestre em Divindade e
doutor em Ministério pelo Fuller Theological Seminary; doutor em Letras pela
John Brown University e também pelo Sterling College. Há quarenta e dois anos
Keith Phillips cuida de pessoas, cujas origens e situações de pobreza são das
mais diversas.
Introdução Jesus veio
salvar uma humanidade decaída e levantar um povo que o louvasse para sempre. Ao
desempenhar essa missão, ele ministrou entre nós como servo, cuidando dos
doentes, curando os abatidos pela dor e pregando o evangelho às multidões. Mas,
em tudo isso, ele concentrou a atenção em fazer discípulos — pessoas que
aprendessem dele e seguissem seus passos. Após sua morte e ressurreição, antes
de subir ao céu, ele disse a seus seguidores: “[...] vão e façam discípulos de
todas as nações [...]”. Eles puderam entender o que Jesus queria dizer porque
ele estava pedindo apenas que dessem continuidade àquilo que havia praticado
com eles. A Grande Comissão não é um chamado para um novo plano de ação, mas o
desenvolvimento do próprio método de missão de Jesus. Engenhosa em sua
simplicidade, essa era a essência do plano de Cristo para alcançar o mundo para
Deus. Ele sabia que esse plano não poderia falhar, pois os verdadeiros
discípulos não crescerão apenas à semelhança de seu Mestre; com o tempo, pelo
seu Espírito, reproduzirão a vida dele em outras pessoas. Está claro também que
esse método dá o impulso do ministério de Jesus à vocação de todo cristão. É
certo que não sao muitos os chamados a pastorear uma grande congregação ou
mesmo ensinar numa classe, mas todos são chamados a participar na tarefa de
fazer discípulos. Sua comissão não é um dom especial; é uma ordem. Todos os que
creem em Cristo não têm outra opção, a não ser a obediência. Contudo, quase não
se vê o cumprimento dessa ordem na Igreja de hoje. Não se trata de uma recusa
deliberada, senão do fato de que a maioria das pessoas não tem ideia de como
podem relacionar a tarefa com o dia a dia. É por isso que este livro se torna
necessário. Trata dos aspectos práticos do discipulado. Após ampla experiência
nesse ministério, o dr. Keith Phillips compartilha em seus escritos princípios
que aprendeu no árduo e doloroso processo de conduzir pessoas no caminho de
Cristo. Ele trabalha com a premissa de que o desenvolvimento do caráter é mais
importante do que o polimento das técnicas. “Você tem de ser a pessoa de Deus”
escreve ele, ‘antes de poder realizar a obra de Deus”. Básica para tal
procedimento é a necessidade bíblica de morrer para o egocentrismo a fim de que
Cristo reine absoluto no coração. Sustentando esse compromisso, está uma
atitude de submissão à autoridade divina, uma devoção refletida em forte
disciplina pessoal, um amor que se estende para fora de si mesmo e um senso de
comunidade. O autor passa a detalhar como tal crescimento é gerado, ressaltando
os ingredientes essenciais à vida de quem faz discípulos e de quem se torna
discípulo. Você perceberá que a tarefa não é fácil, e não existem métodos para
simplificá-la. Realizar tal obra exige determinação resoluta e compaixão
sacrificial. É aqui que finalmente todos nós temos de enfrentar a questão:
estamos dispostos a pagar o preço? Na certeza de que este livro nos ajudará a
compreender melhor a necessidade e nos inspirará a uma participação confiante e
significativa no trabalho de nosso Mestre, é um prazer recomendar-lhe sua
leitura.
Robert E. Coleman
Primeira parte
O
que é discipulado?
1 Fazer discípulos, e não convertidos
No primeiro mês em Watts, testemunhei um assassinato.
Ronnie era um garoto corajoso e cheio de energia. Ele freqüentava o grupo de estudo
bíblico para crianças que eu tinha começado algumas semanas antes em um
conjunto habitacional. Chamou— -me a atenção naquele dia porque estava andando
descalço sobre um campo coberto de vidro quebrado. Eu não podia imaginar como
ele conseguia correr assim sem que seus pés se cortassem. Mas ele não parecia
ter nenhuma sombra de preocupação no mundo.De repente, um menino mais velho
saltou na frente de Ronnie, apunhalou-lhe o peito, arrancou-lhe o rádio e
fugiu. Ronnie caiu no chão.Eu não acreditava no que estava vendo. Comecei a
suar frio. Minhas mãos ficaram pegajosas. Meu coração saltava enquanto corria
na direção dele. Tinha medo de que alguém me pedisse ajuda. Eu queria ajudar,
mas não sabia o que fazer. Fiquei perdido, parado em meio à multidão.
A reação das crianças e dos
jovens que se juntaram ao redor do corpo de Ronnie deixou-me atônito. Eu
esperava hostilidade
e violência, mas eles agiam como se estivessem num parque
de diversões. Vaiaram a polícia e deram vivas quando a ambulância chegou. Riram,
gritaram e tentaram contar cada um histórias mais escabrosas sobre outras
mortes já presenciadas. Ninguém parecia se importar com Ronnie. Nem mesmo seu
irmão demonstrou tristeza.
Fiquei ali durante um tempo que
me pareceu uma eternidade. Aquilo que tanto me horrorizava era, aparentemente,
um evento comum para os demais. Mas isso foi apenas o começo, o primeiro de uma
série de choques que me partiriam o coração nesse campo missionário para o qual
Deus me chamara.
Enquanto me afastava do campo em que Ronnie morreu, um
rapazinho chamado Jimmy disse-me com a maior naturalidade: “Isso não é grande
coisa, não. As pessoas aqui são mortas o tempo todo. Meu priminho de 1 ano foi
morto uns dois meses atrás. Ele começou a gritar às 2 horas da manhã porque
estava doente. A mãe dele ficou muito brava. Arrancou-o da cama e jogou-o pela
janela. A cabeça dele arrebentou”.
Quanto mais eu escutava, mais aprendia.Nenhuma das crianças
que encontrei conhecia o pai. Isso não parecia incomodá-las. Simplesmente era
assim.
A princípio, não acreditei que Darrell estivesse me dizendo
a verdade quando me contou que fazia três dias que não comia. Eu sabia que
ninguém passava fome nos Estados Unidos. Pensei que ele estivesse tentando me
enganar. Mas depois descobri que sua mãe, viciada, gastava o pouco que ganhava
no consumo de drogas.
Eu sabia que Teresa, com 12 anos, tinha um filho, mas
fiquei intrigado quando ela me disse que o bebê era seu irmão. Mais tarde,
fiquei sabendo que o pai dela a engravidara.
Rhonda, com 16 anos, era mãe
havia duas semanas e não suportava o choro do seu bebê. Drogada com
estimulantes, deu socos no filho, quebrando-lhe as costelas e perfurando-lhe os
pulmões.
Belinda, de 9 anos, vivia em terror contínuo de abuso
sexual sofrido por parte de um tio. Sua mãe não se incomodava. Seus irmãos
apenas riam e debochavam dela.
A horrível deterioração e o
desespero do gueto me pasmavam. Era como entrar num mundo diferente: a fome, os
abusos, as drogas, a morte, mães com 12 anos, filhos ilegítimos. Ninguém se
chocava. Ninguém se importava.
Eu sabia que Jesus teria de ser
a resposta para essas imensas necessidades físicas e espirituais, mas não tinha
ideia de como tornar o evangelho relevante para as pessoas do gueto.
O único método que me ocorreu foi a evangelização em massa.
Assim, iniciei grupos de estudo bíblico para crianças em Watts. Dezenas de
crianças vinham. Todas queriam “aceitar Jesus” e trazer seus amigos. As mães
apreciavam os filhos “tornando-se religiosos”, e os jovens demonstravam
interesse em saber quando surgiriam grupos de estudo para eles. Em poucos anos,
300 voluntários, jovens universitários cristãos, juntaram-se a mim para ensinar
centenas de crianças em estudos bíblicos semanais.
Organizamos reuniões evangelísticas. Muitas pessoas
assistiam — algumas simplesmente “para ver aqueles brancos”. Eu apresentava uma
mensagem simples de salvação, e quase sempre todos levantavam a mão indicando o
desejo de ter os pecados perdoados e ficar em paz com Deus. Preenchíamos
cuidadosamente os cartões de decisão e com fidelidade enviávamos material para
crescimento espiritual de cada convertido, sem nos dar conta de que muitos
deles eram analfabetos.
Eu orava com um viciado ou com
uma criança abandonada, dizendo: “Deus o abençoe”, e ia embora. Como para mim
era totalmente impossível pastorear todos esses novos cristãos, argumentava que
o Espírito Santo cuidaria deles.
Centenas de pessoas no gueto de
Los Angeles “aceitaram Cristo”. Meus amigos cumprimentavam-me e asseguravam-me
de que eu estava realizando um excelente trabalho. Eu queria acreditar neles.
E, por algum tempo, acreditei.
À medida, porém, que os meses
se tornaram anos, tive de confessar que havia um problema muito sério. Com
todas essas decisões por Cristo, deveria haver vidas transformadas — centenas
delas. Mas, por mais que procurasse, nao encontrava nenhuma. Algo havia saído
errado.
Em parte por orgulho, em parte por ignorância, eu
continuava esperando que de alguma forma as coisas se endireitassem. Mas nao
podia me livrar do sentimento perturbador de que tudo tinha sido em vão. Não
havia fruto permanente. A rotatividade nos meus grupos de estudo bíblico era
grande. Jovens diferentes vinham a cada semana. Adolescentes que aprenderam de
Cristo quando crianças ainda eram amigos, mas tinham-se tornado cafetões,
prostitutas ou traficantes. Ex-membros do grupo de estudo bíblico estavam
andando com guangues de rua. Parecia que o evangelho não tinha dado certo.
Fiquei desanimado. Quase desisti.
Em desespero, procurei a
Palavra de Deus. Pela primeira vez na vida, eu queria ver o que Deusdizia,
em vez de provar aquilo que já sabia.
Ao ler Mateus 28.19,20,
recebi uma revelação surpreendente. A comissão de Cristo para sua Igreja não
era “fazer convertidos”, mas sim “fazer discípulos”. Era isso! Embora eu não
entendesse todas as implicações, imediatamente percebi que o discipulado era o
elemento que faltava em meu ministério.
Eu tinha centenas de trunfos no
meu cinto de evangelista, mas não podia identificar um só cristão que estivesse
amadurecendo. Havia proclamado o evangelho, mas tinha falhado em fazer
discípulos.
Quanto mais eu estudava o Novo Testamento, mais firme se
tornava minha convicção de que o discipulado é a única maneira de evitar a má
nutrição espiritual e a fraqueza dos filhos espirituais pelos quais sou
responsável. É o único método que produzirá cristãos maduros e capazes de
reverter a deterioração física e espiritual do gueto.
Eu sabia que Deus se
entristecia com meu método inicial no ministério. Assumi o compromisso de que,
daquele momento em diante, concentraria todo recurso que o Senhor me desse na
tarefa de fazer discípulos.
2 O que é
discipulado?
Durante a
Idade de Ouro da Grécia, o jovem Platão podia ser visto caminhando pelas ruas
de Atenas em busca de seu mestre: o maltrapilho, descalço e brilhante Sócrates.
Aqui, provavelmente, estava o início de um discipulado. Sócrates não escreveu
livros. Seus alunos escutavam atentamente cada palavra que ele dizia e
observavam tudo o que ele fazia, preparando-se para ensinar a outros.
Aparentemente, o sistema funcionou. Mais tarde, Platão fundou a Academia, onde
Filosofia e Ciência continuaram a ser ensinadas por 900 anos. Jesus usou
relacionamento semelhante com os homens que ele treinou para difundir o Reino
de Deus. Seus discípulos estiveram com ele dia e noite por três anos. Escutavam
seus sermões e memorizavam seus ensinamentos. Viram-no viver a vida que ele
ensinava. Então, após sua ascensão, confiaram as palavras de Cristo a outros e
encorajaram-nos a adotar o seu estilo de vida e a obedecer ao seu ensino.
Discípulo é o aluno que aprende as palavras, os atos e o estilo de vida de seu
mestre com a finalidade de ensinar outros. O
discipulado cristão é um relacionamento de mestre e alunobaseado no modelo de
Cristo e seus discípulos, no qual o mestrereproduz tão
bem no aluno a plenitude da vida que tem em Cristoque o aluno é capaz de
treinar outros para que ensinem outros. Um
estudo cuidadoso do ensino e da vida de Cristo revela que o discipulado possui
dois componentes essenciais: a morte de si mesmo e a multiplicação. São essas
as ideias básicas de todo o ministério de Jesus. Ele morreu para que pudesse
reproduzir nova vida. E ele requer que cada um de seus discípulos siga o seu
exemplo.
MORRER
PARA SI MESMO- O chamado de Cristo para o discipulado é um chamado para a morte
de si mesmo, uma entrega absoluta a Deus. Jesus disse: “Se alguém quiser
acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diaria mente a sua cruz e siga-me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por
minha causa, este a salvará” (Lc 9.23,24). Da perspectiva do mundo, a
franqueza de Cristo em chamar as pessoas para segui-lo parece exagerada. Hoje,
se alguém qui sesse “vender” um estilo de vida tão exigente, um compromisso tão
radical, provavelmente contrataria a empresa mais sofisticada de publicidade
para descrever detalhadamente, num folheto ilustrado com lindas fotografias
coloridas, os benefícios de tal decisão. Ou contrataria uma atriz deslumbrante
e a cercaria de figuras famosas obviamente felizes pelo deleite e a satisfação
de sua nova vida em Cristo. Depois captaria a magia do momento em videoteipe,
com a esperança de colocar o filme no ar no intervalo do programa de maior
audiência. Jesus, porém, é honesto e direto: para compartilhar de sua glória, primeiro a pessoa tem de compartilhar
de sua morte. Jesus é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis. E o Senhor do
Universo ordena que toda pessoa o siga. Seu chamado a Pedro e André (Mt
4.18,19) e a Tiago e João (Mt 4.21) foi
uma ordem. “Siga-me” sempre tem sido uma ordem, nunca um convite (Jo
1.43). Jesus nunca implorou que alguém o seguisse. Ele era em-
baraçosamente direto. Ele confrontou a mulher no poço, com o seu adultério;
Nicodemos, com seu orgulho intelectual; os fariseus, com sua justiça própria.
Ninguém pode interpretar “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo” (Mt
4.17) como uma súplica. Jesus ordenou a cada pessoa que renunciasse a
seus interesses, abandonasse os pecados e obedecesse completamente a ele.
Quando o jovem rico se recusou a vender tudo o que possuía para segui-lo (Mt
19.21), Jesus não foi correndo atrás dele tentando conseguir um acordo.
Ele nunca minimizou seu padrão. Jesus declarava apenas: “Quem me serve precisa
seguir-me [...]” (Jo 12.26). Jesus esperava obediência imediata.
Ele não aceitava desculpas (Lc 9.62). Quando um homem quis
primeiro sepultar o pai antes de seguir Cristo, ele replicou: “[...] Siga-me, e
deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos” (Mt
8.22). Homem algum recebeu algum elogio por ter obedecido à ordem de
Cristo de segui-lo e tornar-se seu discípulo; era o que se esperava de todos.
Jesus disse: “Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes for
ordenado, devem dizer: 'Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever’ ”
(Lc 17.10). Assim, quando é que você se torna um cristão, um
discípulo de Cristo? Quando vai à frente em resposta a um apelo? Quando se
ajoelha diante do altar? Quando chora sinceramente? Nem sempre. Os primeiros
seguidores de Cristo tornaram-se discípulos quando lhe obedeceram, quando
‘eles, deixando imediatamente seu pai e o barco, o seguiram” (Mt
4.22) A obediência à ordem de Cristo
“Siga-me” resulta na morte de si mesmo. O cristianismo sem essa morte é apenas
uma filosofia abstrata. É um cristianismo sem Cristo. Talvez o erro fundamental cometido por muitos cristãos
sejafazer distinção entre receber a salvação e tornar-se discípulo. Colocam as
duas coisas em níveis diferentes de maturidade cristã, presumindo que é
aceitável ser salvo sem assumir compromisso com as exigências mais radicais de
Jesus, como “tomar a sua cruz” e segui-lo (Mt 10.38). Essa ideia baseia-se na crença errada de que a salvação é
principalmente para o benefício do homem a fim de torná-lo feliz e evitar a
condenação eterna. Embora a salvação venha ao encontro da mais profunda
necessidade do homem, essa ideia humanista de fazer uma coisa em favor do
bem-estar da pessoa ignora completamente a razão fundamental pela qual Cristo
morreu na cruz. Deus concede a salvação aos homens principalmente para trazer
glória a ele por meio de um povo que tem o caráter de seu Filho (Ef
1.12). A glória de Deus é mais importante do que o bem-estar do homem
(Is 43.7). Ninguém que compreenda o propósito da salvação ousaria
especular que uma pessoa pudesse ser salva sem aceitar o senhorio de Cristo. Cristo
não pode ser o Senhor da minha vida se eu for o senhor dela. Para que Cristo
esteja no controle, tenho de morrer. Não posso me tornar discípulo sem morrer
para mim mesmo e sem me identificar com Cristo, que morreu pelos meus pecados
(Mc 8.34). O discípulo segue o seu Mestre até mesmo à cruz.
NOTA1 Nossa salvação é
fundamentada na graça de Deus e dela decorrente. A graça de Deus é a fonte.
Nossa fé é o instrumento. Mas nossa obediência é a resposta ordenada ao homem,
como também a inegável evidência da salvação (Efésios 2.8-10). É a prova da nossa fé. Por isso, Tiago declara que “a fé
sem obras é morta” (Tiago 2.17). Por
muito tempo, lutei para entender as implicações práticas de “morrer para si
mesmo”. Como essa determinada autorrenúncia se manifestaria em minha vida? Ao
meditar em Gálatas 2.20, finalmente compreendi: “Fui
crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim [...]”.
Suponhamos que no dia 1 ° de janeiro eu estivesse sobrevoando o Kansas quando o
avião explodiu. Meu corpo caiu no chão, e morri com o impacto. Depois de algum
tempo, um fazendeiro encontrou meu corpo. Não havia pulsação, nenhuma batida do
coração nem fôlego. Meu corpo estava frio. Era óbvio que eu estava morto. O
fazendeiro fez uma cova. Mas, ao colocar meu corpo na terra, o dia já estava
escuro demais para cobri-lo. Decidindo que terminaria o trabalho na manhã
seguinte, ele voltou para casa. Então Cristo veio e me disse: “Keith, você está
morto. Sua vida sobre a Terra acabou, mas eu soprarei um fôlego de nova vida em
você se prometer fazer qualquer coisa que eu pedir e ir a qualquer lugar que eu
mandar”. Minha reação imediata foi: “De maneira nenhuma. Isso não é razoável. É
escravidão”. Mas, então, reconhecendo que não estava em posição de negociar,
sincera e rapidamente concordei. Instantaneamente, os pulmões, o coração e os
demais órgãosvitais voltaram a funcionar. Voltei à vida. Nasci de novo. Daquele
momento em diante, não importava o que Cristo pedisse de mim ou aonde me
mandasse, eu estava mais que disposto a obedecer-lhe. Nenhuma tarefa seria por
demais difícil, nenhum horário cansativo demais, nenhum lugar perigoso demais.
Nada era sem motivo. Por quê? Porque eu não tinha direito sobre minha vida;
estava vivendo com tempo emprestado, o tempo de Cristo. Keith morrera no dia 1°
de janeiro em um milharal do Kansas. Então eu podia dizer com Paulo: “Estou
crucificado [morri] com Cristo; já não sou eu [Keith] quem vive, mas Cristo
[quem] vive em mim”. É isso que significa morrer para si mesmo e nascer de
novo. A ordem de Cristo “Siga-me” é uma determinação para participar de sua
morte a fim de experimentar uma nova vida. Você se torna morto para si mesmo
totalmente consagrado a ele. Um grande paradoxo da vida está em que existe
imensa liberdade nessa morte. O morto já não se preocupa com seus direitos, com
sua independência ou com as opiniões dos outros a seu respeito. Ao unir-se
espiritualmente ao Cristo crucificado, riquezas, segurança e status— as
coisas que o mundo tanto almeja — perdem o valor. “Os que pertencem a Cristo
Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos” (GL
5.24). A pessoa que toma a cruz, que está crucificada com Cristo, não
fica ansiosa pelo amanhã porque o seu futuro está nas mãos de outro. Certo
líder da igreja no interior sonhava em realizar um ministério ousado nas ruas.
Mas quando os milagres pelos quais ansiava não aconteceram, ele recorreu a
fantasias, distorcendo encontros e criando eventos imaginários, esperando
conseguir o respeito das pessoas. Ele se tornara escravo de suas visões de
grandeza, cativo de suas próprias esperanças. Sua motivação subconsciente era
ganhar o respeito e a admiração do mundo cristão por meio de atos heroicos para
o Reino. Paixões, sonhos e visões nunca foram crucificados. Ele nunca foi
liberto da pressão de ser um sucesso e de produzir. Nunca experimentou a
liberdade que vem de não ter de provar nada, não ter nada a perder. Ele tinha
uma ideia distorcida do discipulado. Queria servir a Deus para que pudesse
obter glória. Por outro lado, o morto para si mesmo é liberto a fim de fazer
todas as coisas para a glória de Deus (Rm 8.10).
Ele coloca tudo o que tem e tudo o que é
à disposição permanente de Deus. Sua submissão ao senhorio de Cristo capacita-o
a agradar a Deus em cada decisão que toma, em cada palavra que diz e em cada
pensamento que tem. O discípulo vê toda a sua vida e todo o seu ministério como
adoração (ICo 10.31). Morrer para si mesmo liberta-o para
ter prazer em seu amor a Deus. A morte do eu é pré-requisito essencial para
tornar-se discípulo. Qualquer pessoa que nao tenha experimentado a morte de si
mesmo não pode se qualificar como elo legítimo no processo de discipulado
porque é incapaz de reproduzir. Jesus ensinou: “[...] se o grão de trigo não
cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto”
(Jo 12.24). Sem multiplicação, não existe discipulado. REPRODUÇÃO-Cristo
ordenou que seus discípulos reproduzissem em outros a plenitude de vida que
encontraram nele (Jo 15.8). Ele alertou: “Todo ramo que,
estando em mim, não dá fruto, ele [o Pai] corta; e todo que dá fruto ele [o
Pai] poda, para que dê mais fruto ainda” (Jo 15.2).Um
discípulo maduro tem de ensinar outros cristãos como viver uma vida que agrade
a Deus, equipando-os a treinar outros para que ensinem outros. Nenhuma pessoa é
um fim em si mesma. Todo discípulo faz parte de um processo, parte do método
escolhido por Deus para expandir seu Reino por meio da reprodução. Sabemos isso
porque Cristo fez discípulos e ordenou-lhes que fizessem discípulos (Mt
28.19).Deus poderia ter escolhido qualquer outro método para propagar o
evangelho e edificar seu Reino. Não foi por acaso que a língua comum do mundo
fosse o grego muito tempo depois de aquele império ter desaparecido. A língua
grega possui certas nuanças que a tornam ideal para a comunicação da verdade.
Também, as estradas do Império Romano, que uniam o mundo conhecido, podem ter
tido o propósito de levar as carruagens do império, mas o comércio mais valioso
que levaram foi o evangelho de Cristo. Da mesma forma que Deus usou a Grécia e
Roma como instrumentos involuntários para a propagação do evangelho, ele
poderia ter feito que a imprensa, o rádio ou até mesmo a televisão fossem
inventados antes do nascimento de Cristo. Jesus poderia ter sido um escritor de
renome, um mestre de ensino bíblico pelo rádio ou o primeiro evangelista de
televisão. As opções de Deus não eram limitadas. No entanto, em vez de adotar
qualquer um desses métodos sofisticados, Jesus optou pelo discipulado. Ele
treinou pessoalmente um pequeno grupo de homens e equipou-os para que treinassem
outros que pudessem ensinar outros. Ele ordenou que fizessem discípulos. Devo
confessar que, a princípio, duvidei da sabedoria de Cristo. À primeira vista,
esse investimento em indivíduos parecia ser muito lento. Levou três anos para
Jesus fazer doze homens discípulos e um deles foi um fracasso. Pensei que seria
feliz se em três anos eu pudesse treinar tão bem uma pessoa que ela pudesse
ajudar-me a treinar outros mas, nesse passo, eu jamais conseguiria deixar
alguma marca nos 2 milhões de pessoas do gueto de Los Angeles. No máximo, só
poderia esperar fazer 16 discípulos em toda a minha vida. De que adiantaria
isso? Meu pecado foi duvidar de Deus, de sua sabedoria e de sua soberania.
Quando, porém, estudei o que é discipulado, descobri que Deus escolheu um método
sólido e eficaz de edificar seu Reino.Começaria pequeno, como um grão de
mostarda, mas cresceria rapidamente, à medida que se propagasse de uma pessoa
para outra ao redor do mundo. Sua Igreja seria um movimento dinâmico, em vez de
uma estrutura estática. O discipulado é o único meio de produzir tanto a
quantidade como a qualidade que Deus deseja dos cristãos. Os princípios matemáticos
estão corretos- Você pode imaginar o que seria atingir mais de 4 bilhões de
pessoas com o evangelho? A tarefa de cumprir a Grande Comissão parece tão
estonteante que até os maiores sonhadores poderiam ser vencidos por sua
grandeza e acabar nada fazendo. Mas a Bíblia é tanto um livro de método como de
mensagem. E o método de Cristo é fazer discípulos.Quando cheguei ao gueto,
estava apaixonado pela evangelização. Imagine que no meu primeiro dia eu
conduzisse alguém a Cristo. Em seguida, levasse mais um indivíduo a Cristo
todos os dias até o restante do ano. No final do ano, eu teria conduzido 365
pessoas ao Senhor. Se eu continuasse a fazer assim pelos próximos 32 anos,
teria atingido 11.680 pessoas. Uma grande realização!Por outro lado, suponhamos
que eu alcançasse apenas uma pessoa para Cristo naquele primeiro ano. Mas,
dessa vez, fizesse um treinamento de discipulado com ela durante um ano para
que estivesse plenamente alicerçada na fé cristã e fosse capaz de alcançar e
fazer outro discípulo. No ano seguinte, nós dois alcançaríamos mais uma pessoa
cada um e as treinaríamos para se juntarem a nós no treinamento de outros. Se
continuássemos assim por 32 anos, haveria 4.294.967.296 discípulos — quase população
do mundo todo! (Veja a tabela 1.)

Nota: Pressupõe-se que o evangelista atinja uma pessoa por
dia e o discipulador treine uma pessoa por ano.
Mencionei minha hesitação inicial. Mas deixe-me
compartilhar meu entusiasmo agora. Se cada um dos membros atuais de nossa
equipe em Los Angeles fizesse um discípulo a cada dois anos tão bem que seus
discípulos pudessem se unir a nós para treinar outros, poderíamos atingir todo
o gueto de Los Angeles — 2 milhões de pessoas — em 32 anos. Isso significa que
eu só terei de investir em 16 pessoas em 32 anos. Essa é uma tarefa viável.
Apesar de o discipulado ter um começo lento, no final das
contas a multiplicação espiritual atinge muito mais pessoas no mesmo espaço de
tempo do que a adição, conforme a tabela 2.
A Grande Comissão é possível!

Nota: Pressupõe-se que o
evangelista atinja uma pessoa por dia e o discipulador treine uma pessoa por
ano.29
A reprodução de qualidade é garantida
Se eu estivesse envolvido apenas em evangelização e fosse
responsável por mais de 11 mil novos cristãos, levaria de setembro a dezembro
de cada ano simplesmente para endereçar um cartão de Natal a cada um deles.
Estaria tão ocupado conduzindo pessoas a Cristo que seria impossível cuidar
delas ou ajudá-las a crescer. Eu teria necessidade de um computador apenas para
lembrar seus nomes. Esse tipo de evangelização negligente produziria crianças
espirituais mal cuidadas, o que resultaria em cristãos fracos e superficiais.Eu
costumava gabar-me de minha capacidade de evangelista — como quando me
encontrei com um homem no avião, conversei com ele por 50 minutos, conduzi-o a
Cristo, mas nunca fiquei sabendo seu sobrenome. De alguma forma, achava que
tais feitos destacassem meu vigor espiritual — até perceber que eu tinha
abandonado a maioria das “vítimas” após nossos breves encontros. Eu tinha
experimentado a em- polgação da concepção e a alegria do nascimento sem assumir
a responsabilidade de ser pai.Deixe-me demonstrar a gravidade dessa falta.Em
junho de 1976, minha esposa, Katie, e eu fomos abençoados com o nascimento dos
gêmeos Joshua e Paul. Acredite, eles exigiam atenção 24 horas por dia. Nós os
alimentamos, ninamos, trocamos suas fraldas e fizemos tudo que bons pais
fazem.Suponhamos que, quando os meninos tivessem 3 meses de idade, Katie e eu
resolvêssemos que precisávamos de uma folga (o que era verdade) e, então,
colocássemos Joshua e Paul no sofá e conversássemos com eles.Eu lhes diria que
estávamos exaustos e iríamos sair de férias por duas semanas — sem eles.
Contudo, lhes asseguraria rapidamente que nada tinham a temer: “Vocês já
observaram tudo que temos feito e, assim, já devem saber como cuidar de si
mesmos agora. Mas, caso se esqueçam de alguma coisa, nós digitamos uma lista
detalhada de instruções para vocês seguirem: como preparar a mamadeira, como se
alimentar, como trocar fraldas, quais são os sintomas de algumas coisas.
Pregamos essas instruções na porta da geladeira e deixamos o nosso paradeiro,
caso vocês tenham necessidade de telefonar para fazer algumas perguntas. Não se
preocupem com nada”.
Se Katie e eu tivéssemos feito
tal loucura com nossas crianças de 3 meses, teríamos sido presos por abandono
de filhos. Bebês não podem cuidar de si mesmos nem se alimentar por si mesmos;
têm de ser vigiados dia e noite até que tenham idade para sobreviver sozinhos.
O discipulado não pode ser
separado da paternidade responsável. O pai espiritual, como o pai biológico, é responsável
perante Deus pelo cuidado e pela alimentação do seu filho. Paulo sabia que era
pai espiritual dos coríntios: “[...] pois em Cristo Jesus eu mesmo os gerei por
meio do evangelho” (ICo 4.15). Ele chamou aos gálatas “meus
filhos” (GL4.19) a Timóteo “verdadeiro filho na fé” (ITm
1.2). Ele rogou em favor de Onésimo, “meu filho, que gerei enquanto
estava preso” (Fm 10).
O discipulador sabe que a responsabilidade continua até que
seu discípulo chegue à maturidade espiritual, à capacidade de reproduzir. Ele
investe grande parte do tempo no seu discípulo, dando toda atenção às suas
necessidades. Discipulado é reprodução de qualidade que assegura que o processo
de multiplicação espiritual continuará de geração a geração.
O Espírito de Deus instituiu um
mecanismo de proteção pelo qual se pode controlar a qualidade dos filhos
espirituais.
Paulo deixa subentendido que a relação do discipulador com
o seu discípulo estende-se por quatro gerações.“E as palavras que me
ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que
sejam também capazes de ensinar outros” (2Tm 2.2).
Aqui, Paulo (primeira geração) instruiu seu filho espiritual, Timóteo (segunda
geração), a ensinar o que tinha aprendido a homens fiéis (terceira geração), os
quais, por sua vez, ensinariam outros (quarta geração).
A referência de Paulo a quatro
gerações não é mera coincidência. A pessoa que faz discípulos só fica sabendo
quão eficazmente ensinou seu aluno quando vê o aluno de seu aluno ensinando
outros.
Em 1972, Deus chamou Al Ewert
para dirigir nosso trabalho no gueto de Wichita. Fiz dele um discípulo. Gastei
horas e horas com Al durante muitos meses, dando-lhe tudo o que sabia sobre o
que significa ser um homem de Deus. Procuramos juntos os princípios bíblicos e
os aplicamos à nossa vida.
Não demorou muito, Al começou a
preparar Donald, que, desde entao, fez de Maurício um discípulo.
À luz da ordem do discipulado de treinar outros que ensinem
outros, eu (primeira geração) só posso avaliar minha eficácia com Al (segunda
geração) observando como Donald (terceira geração) está se saindo com Maurício
(quarta geração). Se Al entender plenamente o significado do discipulado (morte
de si mesmo e reprodução), então Donald será bem treinado para ensinar Maurício
a treinar outros que, por sua vez, ensinem outros. Maurício será a prova de um
discipulado prático.

A tendência humana é optar pela
produção em massa, em vez da obra de qualidade. Quantas vezes você já nao ouviu
o comentário: “As coisas não mais são feitas como antigamente”? E quantas vezes
a resposta: “É por causa da redução de custo”?
Somente um artesão de primeira linha exige a qualidade
acima de tudo. Sua reputação estará em jogo com cada objeto que produz porque
coloca seu nome naquilo. Jesus é o mestre dis- cipulador. Como todo cristão
leva o nome de Jesus, não existe lugar para a mediocridade no discipulado.
Há dois mil anos, Jesus dirigiu-se a uma grande multidão e
a seguidores com clareza e sem rodeios. Ele declarou: “E aquele que não carrega
sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo” (Lc
14.27). Jesus limitou as opções de cada ouvinte a apenas duas. Se a
resposta do homem for incredulidade, ele desobedece e morre. É inimigo de
Cristo (veja Mt 12.30). Se responder pela fé, ele obedece e
torna-se discípulo: morre para si mesmo e reproduz. Cristo é o Senhor de sua
vida. Para Jesus, não há alternativas.

Cristo sabia que essa seria a
decisão mais importante que uma pessoa poderia tomar e, assim, advertiu acerca
do custo (Lc 14.28). E, por mais incompreensível que
pareça, muitos se retiraram, “voltaram atrás e deixaram de segui-lo” (Jo
6.66).
A ordem transformadora de
Cristo, “Siga-me”, não só engloba hoje tudo como também englobava tudo quando
foi proferida às margens do mar da Galileia. Essa ordem não pode ser tratada
com leviandade. O destino eterno das pessoas depende de nossa resposta.
Ou você preserva seus direitos, suas possessões e sua vida
como está agora, ou entrega tudo que tem ao senhorio de Cristo em troca da vida
eterna e da paz com Deus. Nada agradaria maisa Cristo do que se você fizesse
como Levi: “[...] levantou-se, deixou tudo e o seguiu” (Lc
5.28).
O chamado de Cristo ainda ecoa
pelos séculos: “Venha morrer comigo!”.
Segunda parte
Quem é
discípulo?
3- Como saber se você é
discípulo?
Muitas pessoas dizem ter experimentado a morte de si mesmo e estar
vivendo totalmente consagradas a Cristo. Mas Jesus disse: “Nem todo aquele que
me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz
a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7.21;
grifo do autor).
A experiência de um amigo meu chamado Ed ilustra quão sério
é o erro de identidade. Quando o preço do ouro subiu vertiginosamente, dando
início a mais uma corrida do ouro na Califórnia, Ed, decidido a ficar rico,
comprou terras na região. Durante dois meses, ele trabalhou 18 horas por dia e
nada encontrou senão terra e pedras. Então descobriu um minério amarelo. Pensou
que tivesse encontrado uma fortuna. Levou correndo o minério a um avaliador e
começou a planejar a contratação de mais empregados e fazer uma viagem pela
Europa.
Entretanto, para a consternação
de Ed, o avaliador anunciou que o minério era pirita de ferro. Ed não podia
acreditar. Estava certo de que o avaliador tinha-se enganado. Mas não importava
quanto Ed protestasse, não podia contestar o cheiro de enxofre que saía da
fornalha. O próprio minério resolveu a questão.
O minerador tem de estar certo
de que aquilo que encontrou é ouro antes de usá-lo para adquirir bens e
serviços. Assim também acontece com Deus. Ele exige que sejamos
discípulos de Cristo antes de nos usar para realizar sua obra.
Como saber se você é um discípulo de Cristo? Como saber se
você já morreu para si mesmo e está apto a reproduzir? A evidência inegável ao
discernir se alguém é uma versão espiritual de imitação de ouro ou o artigo
genuíno é a presença de um caráter semelhante ao de Cristo. Se o caráter de
Cristo estiver faltando, você ainda não morreu para si mesmo e não está
preparado para reproduzir.
Talvez a maior dificuldade que você tenha de enfrentar seja
crer de fato que seu caráter é mais importante do que sua capacidade ou suas
habilidades. Tal ideia é tão incomum ao mundo que, mesmo depois de entregar-se
à morte de si mesmo, você a achará estranha.
Tive uma grande luta com isso. Durante anos, eu vi
pregadores empregarem toda espécie de tática emotiva para induzir as pessoas a
aceitarem Cristo. Alguns imploravam à congregação, sugerindo que estariam
fazendo um favor a Jesus se o seguissem. Outros faziam convites tão amplos que
nenhuma pessoa sincera poderia deixar de atender. Insistiam em que todos os que
tivessem algum mau pensamento ou dado vazão a alguma motivação impura ou
quebrado um só ensinamento bíblico viessem à frente. Pregavam como se Deus
fosse julgá-los pelo número de pessoas que respondessem ao apelo, e não por
compaixão, como teve Cristo dos homens.
Concluí que quanto mais pessoas eu conduzisse a Cristo,
mais valor teria. Eu procurava atrair as pessoas às reuniões cristãs com
truques que prostituíam o evangelho: concursos, lutas de balões d água e até
mesmo casas mal-assombradas. Esforçava-me por lustrar minha apresentação do plano
de salvação e refinar os apelos que fazia depois da pregação. Quando poucas
pessoas
respondiam ao apelo, eu ficava envergonhado. Eu tinha uma
mentalidade que valorizava feitos.
Sempre soube em minha mente que
só o Espírito de Deus movia as pessoas ao arrependimento e à confissão e que
fui chamado apenas para testemunhar, e não para convertê-las. Contudo, agia
como se a qualidade da minha vida cristã e a salvação dos outros dependessem da
minha capacidade e criatividade na evangelização.
Finalmente, a Bíblia alertou-me
para a verdade. Primeiramente, e acima de tudo, Deus queria que eu tivesse o
caráter de Cristo —fosse cristão. Só então ele operaria por meio de mim
para a sua glória.
Que revelação paralisante! Eu
havia confundido ativismo e a resposta do homem com retidão; havia substituído
a adoração por atividades. De repente, minha segurança nas boas obras foi
destruída.
A verdade era dolorosamente
clara. É necessário ser médico antes de tratar dos doentes. É necessário
seradvogado antes de advogar. Do mesmo modo, eu teria de ser como
Cristo antes de realizar sua obra.
O caráter cristão consiste na união de qualidades mentais e
éticas que o capacitem “para que vocês vivam de maneira digna de Deus, que os
chamou para o seu Reino e glória’ (ITs 2.12); exibe o fruto do Espírito:
amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão,
domínio próprio (GL 5.22,23).
Um exame cuidadoso do
ministério de Cristo revela que, entre as virtudes que caracterizavam sua vida,
quatro qualidades destacavam-no de todas as demais pessoas como o Filho unigê-
nito de Deus: obediência, submissão, amor e oração.
Quando descobri isso pela
primeira vez, fiquei aturdido. Será que o Deus encarnado escolheu edificar sua
Igreja sobre o fundamento dessas quatro qualidades? Pareciam características de
uma pessoa fraca — de alguém que depende totalmente de outra para ter direção,
motivação e confiança.
No entanto, era exatamente isso. Essas qualidades
descreviam perfeitamente a relação de Cristo com o Pai. A força de Cristo vinha
de sua dependência do Todo-poderoso. E, se eu quisesse ser usado por Deus,
minha relação com ele teria de ser moldadaconforme a do meu Senhor. O caráter
cristão é construído por meio de minha disposição (exercício de minha vontade)
em sujeitar cada aspecto de minha vida à imagem de Cristo.
Alguns cristãos têm procurado entrar no nosso ministério de
discipulado com a condição de que seus talentos sejam utilizados. Mas tal
perspectiva é uma negação da morte de si mesmo e demonstra que seus valores
estão distorcidos. A principal ocupação do discípulo deve ser que seu caráter
seja construído e multiplicado. Um doutor em Filosofia, um mestre em Divindade,
um assistente social não são necessariamente mais valiosos para uma organização
missionária como é a Impacto Mundial. Essas pessoas não são tratadas de um modo
diferente de como outras são tratadas. Todos nós procuramos fazer discípulos,
mas sabemos que isso é impossível sem que sejamos primeiramente discípulos.
Precisamos conhecer a Deus antes de torná-lo conhecido.
O discípulo emprega qualquer
dom ou talento que construa o Reino ou edifique o corpo. Ele confiantemente
deixa de exercer habilidades que possam nutrir seu orgulho ou impedir sua
maturidade cristã. O enfoque do homem morto para si mesmo é Deus. Ele procura
ser como Cristo.
Se algum homem tivesse motivo
para encontrar segurança em sua reputação, capacidades ou credenciais este
seria o apóstolo Paulo. Mas ele reconhecia que isso tudo era lixo em comparação
a ser como Cristo (Fp 3.8). A capacidade da pessoa nada vale
sem um caráter reto. É claro que mortal algum pode atingir tais qualidades por
seus próprios esforços. Mas Deus predestinou os discípulos, a serem “conformes
à imagem de seu Filho” (Rm 8.29).
Certo dia, eu velejava pela
costa da Califórnia com um amigo quando um nevoeiro denso e inesperado surgiu,
impedindo a visibilidade quase por completo. Tínhamos medo de que jamais
chegássemos ao cais. Navegamos por uns 45 minutos sem saber onde estávamos
quando, de repente, ouvimos o som fraco mas distinto da buzina de nevoeiro.
Dirigindo nosso barco orientados por aquele som providencial, cuidadosamente
chegamos afinal à baía e ao cais. Se não tivéssemos ouvido o sinal, teríamos
ficado à deriva no oceano.
Se você não tiver um alvo para sua vida, é provável que
fique à deriva. Se o seu alvo for o nada, provavelmente o atingirá. É por isso
que você tem de ter uma compreensão perfeita da pessoa que Cristo quer que você
seja.
Obediência, submissão, amor e
oração são os objetivos pelos quais você e cada discípulo que fizer deverão
lutar. Servem de instrumento para medir o seu crescimento e o progresso
daqueles a quem discipula. São tão importantes que os examinaremos
individualmente nos capítulos seguintes.
Lista
de verificação do discípulo — Como saber se você é discípulo? □ Meu caráter
semelhante ao de Cristo é evidência de que morri para mim mesmo (sou um
discípulo). □
Meu caráter é mais importante do que minhas capacidades e habilidades.

4-Obediência- A
obediência é o primeiro distintivo do discípulo. Obedecemos a Deus porque ele é
o Senhor soberano do Universo, e nossa obediência é a única resposta aceitável
para sua inefável bondade (Rm 2.4).Jesus disse: “Se vocês me
amam, obedecerão aos meus mandamentos” (Jo 14.15).
Somente os que obedecem à Palavra de Deus demonstram seu amor a ele. O seu amor
a Cristo fez que você obedecesse à ordem dele de arrepender-se e segui-lo. O
seu batismo, que ilustrou simbolicamente a morte de si mesmo e a entronização
de Cristo como Senhor da sua vida, foi mais um passo de obediência (Rm 6.3,4). E
a vida cristã é uma peregrinação contínua de obediência.Há alguns anos, visitei
uma base militar. Fiquei impressionado com a obediência que os soldados
demonstravam ao sargento. Quando ele ordenava que corressem, eles corriam.
Quando mandava limpar os banheiros, limpavam. Não havia debate nem hesitação —
apenas ação imediata.Os soldados obedeciam ao sargento porque ele obedecia ao
tenente, que, por sua vez, dentro da cadeia de comando, obedecia ao general. Se
os soldados se recusassem a obedecer ao sargento, estariam desafiando a
autoridade do general e sujeitos a graves penalidades. O seu bem-estar contínuo
dependia de sua obediência. Percebi que entre os militares a motivação para a
obediência muitas vezes é o medo, enquanto a motivação cristã para a obediência
é o amor. Contudo, o comportamento militar exemplifica um princípio importante
para os cristãos: nosso bem-estar é resultado direto de nossa obediência. Somos
capacitados para obedecer sistematicamente a Deus, mediante o conhecimento da
Escritura e de nossa vontade submissa.
VOCÊ PRECISA CONHECER A PALAVRA DE DEUS - “[...]
felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e lhe obedecem” (Lc
11.28). É audácia acreditar que seja possível obedecer a Deus sem
primeiro conhecer a vontade dele. E injusto castigar uma criança por não fazer
aquilo que se quer dela se você nunca lhe disser o que espera que ela faça.
Deus, porém, não é injusto. Ele revelou claramente sua vontade para conosco por
meio de sua Palavra. Portanto, precisamos estudar a Bíblia (2Tm
2.15), compreendendo que ela nos instrui em justiça e nos ensina a
viver de modo que agrade a Deus (2Tm 3.16). A Bíblia revela a vontade de
Deus. Mas, como a maioria de nós sabe, estudar a Bíblia é um trabalho árduo.
Para guardar a verdade que está nela é preciso um estudo cuidadoso, em vez de
uma leitura superficial nas horas de lazer. Muitos cristãos permanecem
“analfabetos” do ponto de vista bíblico e privam-se de sustento espiritual,
motivação e bênção simplesmente porque têm preguiça de estudar a Palavra de
Deus. Faz alguns anos, convenci-me do erro de ser obeso e estar fora de forma.
Assim comprometi-me perante Deus e minha família a correr todos os dias. Eu
sabia que correr melhoraria minha saúde. No começo, era uma lástima. Era raro o
dia em que eu quisesse correr. Eu sempre podia pensar em inúmeras razões pelas
quais poderia deixar de enfrentar a manhã fria ou úmida — por apenas um dia.
Mas, por vontade própria, forcei-me a cumprir esse compromisso. Então comecei a
perder peso e me sentir melhor. E o correr tornou-se mais fácil. Afinal, perdi
20 quilos! Tenho de admitir que ainda não gosto de correr; minhas emoções
tentam convencer-me de que eu poderia deixar para o dia seguinte. Mas sei que
não é assim e até hoje continuo a correr diariamente. Encontrei muitos
paralelos entre o estudo da Palavra de Deus e a corrida. A parte mais difícil
de toda atividade é o início. Mas, uma vez que começo, realmente tenho prazer
em ambas. E, quando termino, fico satisfeito por tê-las feito. O esforço
ajuda-me a melhorar. Nos dois casos, minhas emoções oferecem várias razões
pelas quais eu “legitimamente” poderia adiá-las por apenas um dia. No entanto,
se deixo de praticá-las por um dia, torna-se mais fácil justificar minha
procrastinação no dia seguinte. Quando as pratico com regularidade, minha força
aumenta, e elas se tornam menos difíceis. O discípulo tem vontade de estudar a
Palavra de Deus. Jesus disse: “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra,
verdadeiramente serão meus discípulos” (Jo 8.31).
Impregnar-se da Palavra de Deus deve ser prioridade na vida do discípulo “para
que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm
3.17). É necessário que estejamos sempre “preparados para responder a
qualquer pessoa que [nos] pedir a razão da esperança que há em [nós]”(IPe
3.15). As experiências das personagens bíblicas são documentadas como
exemplos para nossa instrução (ICo 10.11). Devemos descobrir
continuamente princípios bíblicos e aplicá-los à nossa vida (SL
119.7,8). Estou convicto de que existe um princípio orientador ou
uma ordem direta na Palavra de Deus para cada decisão que tenho de tomar. Se
não conheço a vontade de Deus em dada situação, é mais que provável que eu não
conheça a Palavra de Deus. Quando alguém me procura pedindo conselho quanto a
alguma decisão importante, minhas primeiras perguntas são: “Você já estudou a
Palavra? Já ouviu o que o próprio Deus diz a esse respeito?”. Fico surpreso ao
ver as pessoas buscarem o meu conselho antes de procurarem o de Deus.
Precisamos do conselho de pessoas íntegras que nos conheçam bem e à Bíblia, mas
isso deve vir depois do estudo da aplicação dos princípios bíblicos e da
oração. Quando confrontados com um dilema sério, uma tentação severa ou uma
decisão importante, só os ingênuos acreditam que possam fazer uma rápida oração
a Deus, abrir a Bíblia e, como num passe de mágica, descobrir a resposta.
Embora Deus nao seja limitado, o Espírito Santo geralmente escolhe trazer à
nossa memória as coisas que já estão lá. Jesus admoestou: “Vocês estão
enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt
22.29). O discípulo tem de ter um conhecimento operante da Palavra de
Deus. Uma professora acreditava que Deus a estava levando a rescindir o
contrato com uma escola para vir trabalhar conosco. Ela estava confiante de que
essa era a vontade de Deus porque tinha “paz” a esse respeito. Sempre fico
empolgado quando novos missionários se unem a nós para trabalhar no gueto.
Nossa equipe atual nao tem condições de alcançar todas as pessoas que estao
buscando conhecer a Deus por meio do nosso ministério. Mas eu sabia que não era
a vontade de Deus que essa professora quebrasse o seu contrato. Deus diz:
“Quando um homem fizer um voto ao Senhor ou um juramento que o obrigar a algum
compromisso, não poderá quebrar a sua palavra, mas terá que cumprir tudo o que
disse” (Nm 30.2). A Palavra de Deus, e não “um
sentimento de paz”, revela a vontade dele. Lembra-se de Jonas? Ele não tinha
“paz” quanto a ir a Nínive, embora essa fosse definitivamente a vontade de
Deus, conforme revelada pela “palavra do Senhor” (Jon
1.1). Creio que essa professora desejasse sinceramente obedecer a
Deus, e seus sentimentos levaram-na a crer que estivesse certa. Mas a vida
cristã baseia-se na obediência à Palavra de Deus, e não em seguir as emoções.
Paulo disse: “[...] sejam crianças; mas, quanto ao modo de pensar, sejam
adultos [...]” (ICo 14.20). “Fé como a de uma criança” não é
permissão para ignorância. Paulo disse repetidas vezes: “Não quero que sejam
ignorantes”. Sem conhecimento adequado da Palavra de Deus, o discípulo,
baseando-se em sentimentos, esperanças e opiniões, estará arriscando seu
futuro, em vez de garanti-lo na vontade de Deus e nos fatos de sua fé. O
discípulo experimenta a descoberta de Jeremias: “Quando as tuas palavras foram
encontradas, eu as comi; elas são a minha alegria e o meu júbilo, pois pertenço
a ti, Senhor Deus dos Exércitos” (Jr 15.16).
É PRECISO DECIDIR OBEDECER- É
necessário estar comprometido a obedecer à Palavra de Deus mesmo antes de saber
o que ela diz. Anos atrás, um conhecido equilibrista preparava-se para
atravessar as cataratas do Niágara num cabo de aço. Ele perguntou à multidão se
acreditava que ele pudesse fazê-lo. Ao afirmarem que sim, ele perguntou mais
uma vez: “Realmente acreditam que eu consiga?”. Quando os gritos dos
espectadores demonstraram fé absoluta, solicitou um voluntário para ser
carregado por ele nas costas. Compromisso é ligar-se a uma pessoa, a um ideal
ou a um alvo, não importam as conseqüências. Seu compromisso é um voto de estar
unido a Cristo, a tornar-se um com ele, a colocar o futuro e a própria vida nas
mãos dele. Paulo roga aos cristãos “que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e
agradável a Deus” (Rm 12.1). A maioria dos cristãos quer obedecer
à Palavra de Deus, mas querer não é suficiente. Querer é função das emoções e
oscila com os sentimentos. O discípulo decide obedecer à Palavra de Deus. Deus
não espera que você, à semelhança de Cristo, decida obedecer por seus próprios
esforços. Paulo ensina que “é Deus quem efetua em [você] tanto o querer quanto
o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (Fp 2.13).
Sua vontade, capacitada pelo Espírito Santo, pode vencer seus sentimentos e
levá-lo a agir conforme seu compromisso anterior com Cristo (Rm 8).
Lembro-me de certa vez ter-me hospedado num hotel que tinha uma piscina com
trampolim bem alto. Com bastante medo, resolvi aventurar-me a saltar daquele
trampolim. Com cuidado, subi a escada de metal até o topo e fiquei tremendo
sobre a prancha de fibra de vidro. Não tinha dúvida de que a gravidade podia
puxar-me para a piscina. Mas também sabia que seria improvável que isso
acontecesse enquanto eu não saltasse. Podemos comparar a força da gravidade com
a obra de Deus que nos capacita; sempre que escolhermos obedecer, ela estará à
nossa disposição. Hoje em dia, uma filosofia amplamente difundida é: “Se você
gosta, então faça-o”. Para muitos, tem-se tornado lei máxima evitar sentimentos
e experiências negativos. Os homens erroneamente acham que prazer e felicidade
são sinônimos. Satanás é mestre em fazer que o mal pareça bem. Ele pinta a
maldade com beleza sedutora e promete gratificação e deleite. Se os pecados não
fossem agradáveis, não seriam uma tentação. Um homem que tinha acabado de
abandonar a esposa para encontrar felicidade declarou confiantemente que tinha
a aprovação divina. Deus queria que ele fosse feliz, e isso era impossível na
sua situação atual — apesar do voto “na alegria e na tristeza... até que a
morte nos separe”. Ele poderá encontrar prazer momentâneo, mas não encontrará a
felicidade. A verdadeira felicidade só é encontrada por meio da obediência a
Deus. Quando há conflito entre a Palavra de Deus e os sentimentos, o discípulo
resolve fazer o que Deus ordena. É nisso que se resume o cristianismo. Uma das
grandes tragédias do cristianismo do século 20 é que muitos cristãos que
conhecem a Bíblia foram educados longe da obediência. Alguns cristãos utilizam
o método “mergulhe e pule” de obediência à Escritura. Eles mergulham nas
promessas e pulam as ordens. Ou, então, enfatizam certos versículos
“importantes” e ignoram outros, desvalorizando 2Timóteo 3.16, que
declara: “ Toda a Escritura é inspirada por Deus [...]” (grifo do
autor). Meus primeiros contatos com os jovens de Watts foram marcados por
argumentos e longas discussões sobre perguntas como: “Você pode me provar que
Deus existe?”, “Como uma virgem poderia ter um filho?” ou “Por que um Deus de
amor permite a pobreza ou o abuso de crianças?”. Eu sabia que a Palavra de Deus
dizia: “Evite, porém, controvérsias tolas, genealogias, discussões e contendas
a respeito da Lei, porque essas coisas são inúteis e sem valor” (Tt 3.9).
Mas eu achava que só assim poderia persuadir os rapazes da rua a crerem em
Cristo e deixei de lado o princípio bíblico. Eu estava sinceramente tentando
convertê-los, mas desobedecendo à Palavra de Deus. E nunca venci uma discussão.
Afinal, tentei usar o método de Deus. Não argumentei nem tentei defender a
Bíblia, mas simplesmente proclamá-la (2Tm 4.2).
Comecei a orar por aqueles jovens. Quando surgia a oportunidade, falava-lhes do
amor de Deus. Não demorou muito, o Espírito de Deus convenceu quatro deles a
seguirem Cristo. Mas os outros nunca o fizeram. O coração deles endurecera com
os nossos debates. Cristo tinha-se tornado uma piada, e o cristianismo, uma brincadeira.
Eu poderia não ter impedido a obra do Espírito Santo se tivesse simplesmente
obedecido a Deus, totalmente e sem questionamento. Não tinha o direito de
escolher o que obedeceria e o que deixaria de lado. Saber o que a Bíblia diz
sem obedecer é uma afronta detestável a Deus. Romanos 6.16
pergunta: “Não sabem que, quando vocês se oferecem a alguém para lhe obedecer
como escravos, tornam-se escravos daquele a quem obedecem: escravos do pecado
que leva à morte, ou da obediência que leva à justiça?”. Como o cristão tem um
compromisso de obedecer à vontade de Deus à medida que o Espírito Santo a
revela, ele estuda a Palavra de Deus com um compromisso de viver aquilo que
aprende. Essa resolução é uma evidência inquestionável de que se é um discípulo
de Cristo.
Lista de verificação do discípulo — Obediência
□ Estudo fielmente a
Palavra de Deus.
□ Decido obedecer à Palavra de Deus.
5-Submissão- Submissão com alegria é a segunda
característica de um discípulo. A submissão é muito mais do que obediência. É
uma atitude interior de confiança no Deus soberano, amoroso e onisciente.49sup Durante meu primeiro ano em Watts, eu descia a Rua 103 com
três amigos adolescentes. De repente, um dos rapazes gritou: “Atire-se ao
chão!” Outro me jogou ao chão na hora em que uma bala de revólver passava
raspando por cima da minha cabeça. Fiquei tremendo. Depois que me recompus,
perguntei aos rapazes como sabiam que um tiro seria dado, especialmente porque
vinha de trás de nós. Um deles sorriu e, debochado, perguntou: “Então você
estudou na Universidade da Califórnia e não reconhece o som de um revólver
sendo engatilhado?” Fiquei grato pela perícia que demonstraram; daquela hora em
diante, senti-me feliz por submeter-me à liderança deles quanto à sobrevivência
nas ruas. Eles nunca tiveram de me dizer uma coisa duas vezes. A palavra deles
era lei. Eu confiava neles.49inf- Cristo convida-nos a confiar nele:
“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei
descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e
humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu
jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30). “Tomem o meu jugo” significa submeter-se à autoridade de Cristo,
confiar nele. Submissão é a precondição para o resto que Cristo promete a seus
discípulos. Quando comecei a dirigir um carro, observava o limite de
velocidade, mesmo sem o querer. Minha motivação para a obediência à lei, porém,
não era confiança, e sim medo. Não queria ser multado e ter de pagar um seguro
mais alto. O Estado estava satisfeito com minha obediência à sua autoridade,
não obstante minha motivação. Cristo, porém, não se agrada de mera obediência.
Ele quer também que seus discípulos sejam submissos — que confiem nele. Existe
muita diferença entre submissão e obediência. Os fariseus oferecem um exemplo
clássico de obediência sem submissão.Eles obedeciam à letra da lei sem
compreender o espírito pelo qual Deus desejava que ela fosse interpretada. Eles
não confiavam no julgamento de Deus porque a sua lei mais alta, a lei do amor,
era-lhes totalmente estranha. 50inf,51A Bíblia também relata incidentes de submissão
sem obediência. Se as leis dos homens entram em conflito com as leis de
Deus, o discípulo pode ainda ter espírito submisso demonstrando abertamente sua
confiança em Deus. Pedro e João mantiveram espírito submisso a Deus mesmo
quando desobedeciam a uma lei injusta. Quando aqueles que
tinham autoridade sobre os apóstolos ordenaram-nos a parar de ensinar a
respeito de Jesus, eles se recusaram a obedecer (Ats 4.18-20). Continuaram a ensinar a respeito de Cristo e ainda oraram pedindo
ousadia para fazê-lo. A submissão à autoridade suprema de Deus exigiu que
desobedecessem às autoridades temporais. Note, por favor, que Pedro e João não
ocultaram sua desobediência, mas pregaram abertamente, confiando as
conseqüências ao Senhor. Eles estavam dispostos a sofrer mais punições se assim
as autoridades resolvessem, sabendo que sua obediência pública a Deus traria
glória a ele. Se os apóstolos viessem a se sentir “culpados” caso alguém os
“pegasse” fazendo aquilo que acreditavam ser justo, não teriam espírito
submisso. Um ato realizado com espírito submisso não causa culpa. Se o
discípulo desobedece abertamente às autoridades temporais em obediência direta
à vontade de Deus, como a oração ilegal de Daniel (Dn 6.10), e estiver disposto a sofrer as conseqüências,
ele é submisso. Nos anos 60, nos Estados Unidos, muitos cristãos participaram
de protestos não-violentos contra as leis injustas de discriminação racial.
Eles sabiam que todos os homens foram criados à imagem de Deus e que a
dignidade é nosso direito nato. Cristãos negros sentaram ilegalmente em lugares
reservados aos brancos nos ônibus e, ousadamente, fizeram seus pedidos em
restaurantes de brancos. Desafiaram abertamente as autoridades civis,
obedecendo a uma lei mais alta. Com essas demonstrações, esses cristãos
permaneceram submissos a Deus — livres de culpa e dispostos a sofrer as
conseqüências de seus atos. O discípulo luta por manter uma atitude de
confiança na autoridade de Deus, não importa o preço.Quatro verdades bíblicas orientam-no nesta busca.
A
AUTORIDADE DE CRISTO É SUPREMA- Jesus disse: “Se alguém vem a mim e ama o
seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua
própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. E aquele que não
carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo” (Lc
14.26-27). Esse texto refere-se à autoridade à qual uma pessoa se
submete, e não ao afeto natural. Sua submissão a Cristo, sua confiança nele,
tem de ser de tal forma grande que, em comparação, sua ligação com autoridades
conflitantes é como se fosse ódio. Tal submissão completa à autoridade de
Cristo é irracional para qualquer pessoa que não seja um homem morto para si
mesmo, isto é, alguém que fez de Cristo Senhor de sua vida. Os que vivem nos
guetos são muitas vezes confrontados com autoridades conflitantes. Hattie é mãe
de várias crianças do nosso clube bíblico. Vivem em extrema pobreza; muitas
vezes, passam sem ter o que comer ou com que se vestir. À medida que fomos ao
encontro das necessidades físicas dessa família, em nome de Cristo, Hattie veio
a amar Jesus e obedecer à sua ordem de segui-lo. Seu marido era traficante de
drogas, do México para o sul da Califórnia. Muitas vezes, ele forçava Hattie e
as crianças a ajudá-lo. Ele amarrava um pacote de heroína à perna de Hattie,
escondendo-o debaixo de seu vestido. Ou prendia-o sob as roupas das crianças.
Ameaçava surrar ou até mesmo matar a família se recusassem a obedecer.
Motivados pelo medo do sofrimento físico, do qual tinham sido vítimas
freqüentes, eles obedeciam. Quando Hattie aceitou Cristo, enfrentou uma crise
severa. Ela sabia que desobedecia a Deus ao transgredir a lei do país e
colocava seus filhos em perigo. Mas, se recusasse obedecer ao marido, as
conseqüências seriam terríveis. Que autoridade tem a precedência? A quem ela
devia submeter-se: a Cristo ou ao marido? Jesus não deixou dúvidas. A
autoridade de Cristo é suprema (Mt 23.10). Assim, arriscando a própria
vida e a de seus filhos, Hattie obedeceu a Cristo, tomou a sua “cruz” e o
seguiu. Enquanto eu lutava para entender o que significava confiar em Deus, Lucas
14.33 me atingiu em cheio: “Da mesma forma, qualquer de vocês que nao
renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (grifo do
autor). Ao fazer uma relação das minhas bênçãos, de todas as coisas que
considero preciosas — minha esposa, meus filhos, meu trabalho, minha saúde,
meus amigos, minha reputação, meu lar —, percebi que qualquer delas podia
tornar-se em um deus para mim. Tive de admitir que, se Deus quisesse levar uma
ou todas elas, eu realmente entraria em crise. Então Deus me lembrou de que eu
era um homem morto. E um homem morto não tem possessões. Renunciei a todos os
meus direitos a essas bênçãos quando Cristo se tornou Senhor da minha vida.
Agora ele simplesmente as emprestava. Se Deus escolher, em sua divina
sabedoria, remover uma ou todas essas coisas que tanto amo, creio que ele sabe
o que faz e me dará a graça de continuar a me deleitar nele. 53inf Alguns cristãos estabelecem condições para a
obediência, como: “Irei aonde o Senhor me mandar, exceto para Watts” ou “Farei
tudo que o Senhor ordenar — se ele me der a garantia de que nenhum mal
acontecerá à minha mulher”. O que isso realmente significa é: “Não vou a lugar
nenhum nem faço nada, a não ser que eu queira”. Quando estabelecemos condições
para obedecer a Deus, negamos completamente nossa confiança nele. Qualquer
reserva quanto à submissão a Deus demonstra que achamos que sabemos cuidar de
nós mesmos melhor do que Deus, e que Deus não sabe o que é melhor para nós. Que
tolice! Qualquer coisa menos que submissão com alegria é negação da autoridade
suprema de Deus, negaçao de sua sabedoria, de seu amor e da morte do nosso
próprio eu.
CRISTO
REINA HOJE POR MEIO DA AUTORIDADE DELEGADA- Jesus declarou: “Foi-me dada
toda a autoridade nos céus e na terra”. Baseado nisso, ele comissionou seus
discípulos: “Vão e façam discípulos de todas as nações”. Implícito nessa ordem
estava o investimento de sua autoridade nos discípulos para edificar e
regulamentar sua Igreja, pois ele mandou que o fizessem “em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo”(Mt 28.18-19).
Jesus disse a seus discípulos: “Quem recebe vocês, recebe a mim; e quem me
recebe, recebe aquele que me enviou” (Mt 10.40).
Aqui estava a cadeia de autoridade: Cristo representava o Pai, os apóstolos
representavam Cristo. Receber um apóstolo era como receber o Pai (Jo
13.20); rejeitar um apóstolo era rejeitar Cristo e o Pai. O apóstolo
Paulo fez referências freqüentes à autoridade que tinha, dada por Deus: “Pois
mesmo que eu tenha me orgulhado um pouco mais da autoridade que o Senhor nos
deu, não me envergonho disso, pois essa autoridade é para edificá-los, e não
para destruí-los” (2Co 10.8). Muitas vezes, Paulo exerceu esta
autoridade: “Irmãos, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo nós lhes ordenamos
[...]” (2Ts 3.6). Os primeiros discípulos delegaram a
autoridade recebida de Cristo àqueles que eles treinaram. Com a autoridade de
Cristo, designaram líderes para a Igreja (Ats 6.3-6; 14.23) e
comissionaram-nos a instruir outros, que, por sua vez, ensinariam ainda a
outros (2Tm 2.2). Paulo confiou sua autoridade a Tito
(Tt 1.5) e instruiu-o: “[...] repreenda-os severamente, para que
sejam sadios na fé [...]”(Tt 1.13) e “[...] repreendendo-os com
toda a autoridade. Ninguém o despreze” (Tt 2.15).
Paulo esperava que os cristãos se submetessem à autoridade de dois de seus
discípulos como se estivessem submetendo-se ao próprio Cristo: “[...] que se
submetam a pessoas como eles e a todos os que cooperam e trabalham conosco” (ICo
16.16). Na igreja do Novo Testamento, os discípulos da segunda e
terceira gerações exerciam livremente sua autoridade. Como toda a autoridade
vem de Deus (Rm 13.1-5) e ele dá autoridade a quem lhe
aprouver (Ef 4.11-12), nossa atitude para com aqueles aos
quais ele confia autoridade reflete a nossa verdadeira atitude para com Deus. 55m-Sempre que sua autoridade delegada toca a nossa
vida, Cristo requer que a reconheçamos e nos submetamos a ela com alegria,
assim como faríamos se fosse para com o próprio Cristo. Nossa submissão é uma
declaração de confiança em Deus.
VOCÊ RECEBE AUTORIDADE POR MEIO DA SUBMISSÃO- 55inf-A autoridade exercida por alguém é
determinada pela autoridade à qual essa pessoa se submete. O centurião romano
sabiaque, se Cristo dissesse uma palavra, seu servo seria curado. Ele explicou
sua confiança: “[...] pois eu também sou homem sujeito a autoridade, e com
soldados sob o meu comando” (Lc 7.8). Ele compreendia o poder conferido na
delegação de autoridade. Enquanto estivesse submisso a seus líderes, toda ordem
que ele proferia levava consigo a autoridade do imperador romano. Desobedecer a
ele seria aviltar o imperador. A autoridade do centurião era grande por causa
de quem ele representava. O centurião reconheceu o mesmo princípio em Cristo.
Como ele representava Deus, e era completamente submisso à vontade do Pai, cada
palavra proferida por Jesus era investida da autoridade de Deus (Ef 1.20-23). A confissão do centurião: “[...] eu também sou
homem sujeito a autoridade”, sintetiza a base bíblica para toda verdadeira
autoridade: a pessoa que não for submissa não tem direito de exercer
autoridade. Certo dia, vi um imenso engarrafamento de trânsito no centro de Los
Angeles. Um homem estava no meio de um cruzamento bastante movimentado, parando
o trânsito conforme queria, primeiro em uma direção, depois em outra.
Finalmente, ele parou o trânsito em todas as direções. Os motoristas estavam
furiosos. Espectadores gritavam. Eu não sabia o que pensar. O homem parecia
competente. Vestia-se bem, estava barbeado e aparentemente não se incomodava
com a confusão que estava causando. Mas eu não podia entender os seus motivos.
Não havia incêndio, nem acidente ou ferimento. Quando a polícia chegou e levou
o homem até a calçada, a multidão vaiou e gritou: “Levem-no para o hospício.
Ele precisa de psiquiatra!”. O homem foi julgado por aqueles que estavam
dispostos a interná-lo porque havia exercido uma autoridade que obviamente não
possuía. Ele não era policial nem membro do corpo de bombeiros. Era um cidadão
comum... procurando encontrar suas lentes de contato! A multidão concluiu que
qualquer pessoa que exercesse autoridade sem estar sob autoridade deveria ser
louca. O cristão não tem autoridade, a não ser que venha de Cristo. E, como
Cristo reina por meio da autoridade delegada, quando recusamos a nos submeter
aos que têm autoridade sobre nós, perdemos nossa autoridade. Vemos exemplo
disso quando João instruiu Gaio a que não obedecesse a Diótrefes, porque
Diótrefes não obedecia a João (3Jo 9-11). A indisposição de se submeter aos que têm autoridade sobre
nós é um grande pecado, com severas conseqüências. Paulo escreve: “Se alguém desobedecer ao que
dizemos nesta carta, marquem-no e não se associem a ele, para que se sinta
envergonhado; contudo, não o considerem como inimigo, mas chamem a atenção dele
como irmão” (2Ts 3.14-15). 57m-O cristão que se recusa a submeter-se
aos que têm autoridade sobre ele é como uma criança que fugiu de casa, que
tentará “se virar” sozinha, mas sua sobrevivência estará seriamente ameaçada
sem a supervisão de um adulto. Quem se priva da direção espiritual de um
orientador rejeita a provisão de Deus para seu alimento e enfrenta um futuro
incerto. A confiança é a força do discípulo (Is 30.15). Quando comecei a trabalhar em
Watts, eu não estava em submissão a pessoa alguma. Logo reconheci que, sem
estar sob a autoridade de homens espirituais, eu não teria autoridade. Isso era
ruim para mim, mas era pior ainda para aqueles a quem eu ministrava. Orei
prontamente por um grupo de homens aos quais eu pudesse me submeter, porque
“Sem diretrizes a nação cai; o que a salva é ter muitos conselheiros” (Pv
11.14). Eu sabia que Deus falara aos líderes da igreja primitiva como a
um grupo (Ats 15.28). A primeira epístola de João
4.1 ordena “provar os espíritos” antes de nos submetermos. É uma
ordem para que busquemos a liderança de pessoas piedosas. Reconheci que esses
homens teriam de cumprir certos requisitos bíblicos para receber a autoridade
de Deus. Tanto individualmente como em grupo, tinham de ser submissos à Palavra
de Deus como autoridade absoluta (ITm 6.3-5; 2Tm
3.16,17). Precisavam também ter provado sua consagração cristã (2Co
8.22) servindo aos outros (Mt 20.26,27) e
sendo fiéis em todas as coisas, como na mordomia de seu dinheiro (Lc
16.10-12). Em suma, tinham de viver sua fé, oferecendo um modelo
que eu pudesse imitar (3Jo 11). O Senhor providenciou
fielmente tais homens. Eles se tornaram a junta executiva da Impacto Mundial,
nossa missão. Uma vez verificada sua consagração a Deus, eu sabia que poderia
confiar na liderança de Deus por meio deles para me dirigir ativamente e me
admoestar. Quando esses homens exerceram autoridade sobre mim e sobre o nosso
ministério, confirmei verbalmente minha submissão a eles. Os cristãos devem
submeter-se a seus líderes voluntariamente. Não existe precedente bíblico para
que os líderes exerçam sua autoridade sobre alguém que não se submete. É por
isso que o Novo Testamento fala primeiramente àquele que tem a responsabilidade
de submeter-se e, então, à pessoa que exercerá autoridade: primeiro às
mulheres, depois aos maridos; primeiro aos filhos, depois aos pais; primeiro ao
servo, depois ao senhor. Consequentemente, meu relacionamento com a Missão
partia da minha submissão a ela. Minha submissão não fecha as portas à
responsabilidade pessoal de examinar as Escrituras e testar a liderança (Ats
17.11). Faço isso, porém, com espírito submisso, confiando que tal
estudo apenas complementará a instrução recebida. Se divergirmos numa questão,
confio em que esses líderes espirituais estarão abertos a uma conversa e
apreciarão qualquer correção ou esclarecimento. Meu espírito não é crítico,
rebelde nem desconfiado. E submisso. Eu os amo e os honro. E sei que esse amor
é recíproco. A submissão a homens espirituais tem-me aliviado de enorme
pressão. Baseado na direção e sabedoria deles, posso agora exercer autoridade
confiantemente sobre os que escolhem submeter-se a mim. Por sua vez, muitos de
nossa equipe, a quem foram confiados cargos de liderança, exercem autoridade
sobre outros membros da equipe e cristãos no gueto. A autoridade delegada por
Cristo de fato passou a nós. O exercício desse princípio tem dado direção à
nossa equipe em certas situações tensas. Frequentemente, pessoas pediam-nos
dinheiro para comprar comida. Sabíamos que o dinheiro que dávamos muitas vezes
acabava sendo utilizado na compra de bebida alcoólica ou drogas. Assim,
resolvemos oferecer uma boa refeição para os que diziam estar com fome. Isso
parecia bom na teoria, mas não dava muito certo nas ruas. Quando oferecíamos
comida a alguém, a pessoa respondia: “Prefiro dinheiro. Você não confia em
mim?”. Não importava a compaixão com que explicávamos, o resultado era
discussão e ressentimentos. Finalmente, orientei nossa equipe a dizer
simplesmente: “Meu patrão diz que não podemos dar dinheiro, mas podemos dar
comida”. Surpreendentemente, isso resolveu nosso dilema. Os que pediam dinheiro
respeitaram a autoridade à qual nossa equipe se submetia, mesmo que não
soubessem quem era essa autoridade. Podiam discutir com a pessoa, mas não com a
autoridade que ela representava. O discípulo submete-se alegremente a Cristo e
às autoridades por ele delegadas.
DISCÍPULOS EXERCEM SUA AUTORIDADE SERVINDO- 59inf- Em vez de usar a força bruta ou exigências
autoritárias, o discípulo exerce sua autoridade servindo. Jesus disse a seus
discípulos: Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações
as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim
entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá
ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem
mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida
em resgate por muitos (Mrc 10.42-45). A mensagem de Cristo era clara: o amor espiritual serve, e
não deseja ser servido. O serviço é a forma mais alta de liderança. O cristão
maduro escolhe servir, em vez de ser senhor em toda situação. Existem poucas
pessoas que dão uma primeira impressão tão marcante que me deixam abismado. Um
dia, percebi que tais pessoas especiais e singulares têm uma coisa em comum:
servem. Walter é uma dessas pessoas singulares. A primeira vez em que nos
encontramos, ele se ofereceu para alterar sua agenda a fim de me levar aos meus
compromissos. Ele estava sinceramente interessado no meu bem-estar. Eu nem
imaginava que ele era um dos maiores executivos do país. Walter nunca precisa
dizer, mas eu sei que ele fará qualquer coisa dentro de suas possibilidades
para me servir. Se eu me encontrasse numa situação de emergência, não hesitaria
em cha- má-lo. Sua vida é caracterizada pelo serviço. Jesus disse: “O meu
mandamento é este: Amem-se uns aos outros como eu os amei” (Jo 15.12). E o amor de Cristo
a seus discípulos foi serviço altruísta. Ele assumiu, por vontade própria, a
forma de escravo (Fp
2.7). Ele
lavou-lhes os pés e voluntariamente tomou o lugar que era deles na cruz. Jesus
nao estava reclamando ou esperneando quando o levaram para crucificá-lo. Ele
teve compaixão e perdoou; serviu sem reservas e depois anunciou: “Eu lhes dei o
exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13.15). Os apóstolos, cuja autoridade na Igreja estava acima de
dúvida, eram servos-líderes. Eles não impunham ordens sobre seus filhos espirituais
(2Co 1.24). Exerciam autoridade
de modo humilde e amoroso. Ao contrário dos não-cristãos que servem por temor,
orgulho, lealdade ou desejo de dinheiro, a motivação do discípulo é o amor. Ele
coloca o bem-estar de seu irmão acima do seu próprio. A privacidade é um luxo
raro. Não é incomum ser incomodado. Ele ministra sem ser notado e, no ânimo ou
na tristeza do momento, frequentemente sai sem receber agradecimento. Palavra
ou atos altivos estão fora de ordem. Lembro-me de haver ministrado um curso
numa sala desprovida de suporte para a lousa. Al Ewert, nosso diretor em
Wichita, estava comigo. Silenciosamente, quase sem ser notado, Al foi para trás
da lousa e ficou segurando-a com o corpo. Por três horas, dei aulas sobre
discipulado — morte de si mesmo, submissão, obediência, amor e serviço.
Terminada a aula, olhei para Al e fiquei profundamente emocionado. Eu havia
falado a respeito de um caráter semelhante ao de Cristo, enquanto Al tinha
vivido esse caráter. “[...] quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá
ser servo” (Mt
20.26). Os
discípulos exercem sua autoridade por meio do serviço. As relações de submissão
e autoridade que Deus ordenou servem de sistema nervoso central para a Igreja
de Cristo. Só podemos funcionar corretamente no corpo de Cristo se entendermos
e vivermos por essas quatro verdades bíblicas que formam o fundamento para a
submissão em alegria.
Lista de verificação do discípulo — Submissão
□
Tenho uma atitude interior de confiança no meu Deus soberano, amoroso e
onisciente.
□ A
autoridade de Cristo é suprema em minha vida.
□
Quando a autoridade delegada por Deus toca a minha vida, submeto-me a ela assim
como me submeteria a Cristo.
□
Posso exercer autoridade porque me submeto à autoridade.
□
Exerço minha autoridade servindo.
6-Amar uns aos
outros-
A terceira característica que distingue o discípulo é que
ele ama os demais cristãos. “Com isso todos saberão que vocês são meus
discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (Jo 13.35). O
amor de uns aos outros é a marca do discipulado. Há algum tempo, ouvi um
barulho ensurdecedor no saguão do hotel onde estava hospedado. Não imaginava o
que estivesse acontecendo até que vi um turbante vermelho, estilo árabe,
bastante incomum. Notei então que quase todos os que se encontravam no saguão
usavam turbantes na cabeça. Era uma reunião de shriners, organização
secreta que existe nos Estados Unidos. Ninguém precisava me dizer o que era. Os
turbantes tornavam-nos fáceis de reconhecer. Muitos grupos identificam-se por
insígnias ou roupas comuns ao grupo; os policiais usam uniformes, rotarianos
usam distintivos, jogadores de basquete usam camisetas e calções. Mas os
discípulos não precisam usar distintivos com lemas, colarinhos clericais ou
togas eclesiásticas. Podemos usar uma diversidade de roupas e ser facilmente
identificados como um gigante numa colônia de anões. Temos a identificação mais
marcante de todas. É desnecessário colocar letreiro na cara dos membros de
nossa equipe nos guetos, dizendo “Casa da Impacto Mundial” ou “Casa de Deus”.
Nosso amor mútuo tem de ser tão óbvio que os vizinhos não possam duvidar de
nossa dedicação a Cristo. Quando algumas mulheres de nossa equipe foram à
quitanda da esquina pela primeira vez, o proprietário disse: “Ah, vocês são
daquela casa cristã, não são? Eu sempre reconheço as moças de lá pelo grande
sorriso e pelo amor que mostram”. Um mês após abrirmos uma casa para a equipe
de Fresno, alguém que tinha um encontro comigo perdeu nosso endereço e o nome
da nossa organização. Ele parou na vizinhança e perguntou a uma mulher se sabia
onde morava um grupo de cristãos. Ela replicou: “É claro, todos nós sabemos
quem eles são. Moram no próximo quarteirão, na esquina”. O encontro desse homem
com nossa vizinha falou mais alto do que qualquer coisa que eu pudesse ter
dito. Como o mundo sabe que somos discípulos por amor uns aos outros, temos de
nos certificar de que nossa identidade seja clara. Para que tenhamos amor forte
e resistente aos demais cristãos, temos de entender e experimentar o perdão e a
comunhão.
PERDÃO- O discípulo não pode amar a Deus ou a
si mesmo, e muito menos aos outros, a não ser que aceite o completo perdão de
Deus e com base nisso perdoe a si mesmo, aos outros e aceite o perdão dos
outros.
Aceite
o perdão de Deus-Você precisa aceitar o completo perdão de Deus para o seu
passado, presente e futuro. Não existe pecado que não possa ser perdoado com a
confissão e com o genuíno arrependimento. Deus promete purificar-nos de toda
injustiça (I jo 1.9) e esquecer para sempre nossos
pecados (Is 43.25). O perdão de Deus é perfeito. Deus é
perfeito. Há sete anos, Pat Williams assistiu à sua primeira reunião do grupo
de estudo bíblico da Impacto Mundial em um terreno baldio em Watts. Quando ela
se entregou a Jesus, sua vida começou a mudar. Ela estudava a Bíblia com
fidelidade, orava e adorava a Deus. Depois de formar-se, entrou para nossa
equipe e começou a trabalhar na própria comunidade em que ela cresceu. Pat
parecia ser um exemplo de ouro do poder redentor de Deus. Entretanto, por baixo
do seu sorriso contagiante, Pat escondia uma infância marcada por opressão e
abuso físico. Seu pai havia abandonado a família quando sua mãe estava grávida
de três meses de Pat. Ela e seus cinco irmãos tinham três pais diferentes.
Viviam na pobreza, às vezes, sem ter o que comer. Contudo, o que mais feria a
memória de Pat era o abuso sexual que tinha sofrido. Seu próprio tio começou a
estuprá-la quando era ainda criança. Ela recorda: “Ele me dava doces e me
pegava sempre que queria. Como ele fazia parte da família, não havia nada que
eu pudesse fazer. Ele ameaçava me matar se eu contasse”. Pat cresceu com ódio
de todos os homens e odiando a si mesma por aquilo que seu tio fizera com ela.
Mesmo depois de ser missionária de nossa equipe, detestava ter de estar com
homens. Sua vida cristã estava enfraquecida pela culpa, pelo ódio e por um
espírito ferido. Como tantos cristãos, Pat havia aceitado o dom de Deus da
salvação, mas não tinha aceitado o seu completo perdão.
Perdoe
a si mesmo baseado no perdão que Deus lhe concedeu- Você demonstra que
aceitou o completo perdão de Deus quando perdoa a si mesmo. Ao entender que
Deus o ama, seu senso de dignidade espiritual é restaurado. Isso o libera para
se perdoar. Só então pode amar e aceitar quem você é. Paulo, que foi tanto o
“maior dos pecadores” como o grande apóstolo de Cristo, declara: “[...] sou o
que sou, e sua graça para comigo não foi inútil [...]” (ICo
15.10). A aprovação divina é o tecido do amor-próprio. Paulo demonstra
a qualidade do amor-próprio que Deus espera dos seus discípulos: “[...] ninguém
jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo
faz com a igreja” (Ef 5.29). Cristo deseja que você tenha uma
opinião saudável e positiva a respeito de si mesmo. A repetição do ensino
bíblico “amar o próximo como a si mesmo” ressalta a importância que Deus dá ao
amor-próprio. Se você não ama a si mesmo, invariavelmente isso refletirá em
falta de amor ao próximo. A falha em perdoar-se quando Deus lhe perdoou relega
o perdão de Deus a uma ideia abstrata. Significa que você não acredita que o
perdão divino dos seus pecados tenha sido perfeito. Você questiona a soberania
de Deus ao negar a eficácia da obra salvadora e restauradora de Cristo. Seu
orgulho diz que seus pecados são grandes demais para Deus perdoar e que você
está além da sua redenção. Isso faz que sua vida cristã seja um fracasso total.
Rouba-lhe a paz, a segurança e o amor que Deus pretende que todos os seus
filhos desfrutem. A ausência dessas experiências é destrutiva, e não redentora.
Nenhum discípulo morto para si mesmo e que tenha Cristo vivendo nele poderia
pensar em fazer menos do que perdoar a si mesmo, porque Deus lhe perdoou. Pat
Williams reconhecia que esse ódio de si mesma não era próprio do discípulo.
Embora ela tivesse sido vítima de abuso sexual, sentia culpa e imundícia. Como
Deus poderia lhe perdoar? Como poderia perdoar a si mesma? Quando Pat se mudou
para a casa da nossa equipe feminina, experimentou a segurança do amor
incondicional de Deus. Por meio da aceitação no corpo, ela reconheceu que Deus
a amava, não importava o que tivesse feito ou lhe tivesse acontecido. Por causa
do sacrifício de Cristo, Deus apagara seus pecados e pagara pelo abuso
cometido. Ele a tratou como se isso jamais tivesse existido. Baseada nisso, ela
pôde amar a si mesma. Pat explica melhor: “Descobri que quando Jesus morreu,
ele pagou por toda a dor, culpa e amargura da minha vida. Ele cuidou disso.
Quando eu me preocupava com o passado e não aceitava o perfeito perdão de Deus,
estava questionando seu poder de me limpar completamente e de tornar-me uma
nova criatura. Mas agora sei que ele me perdoou completamente e, assim, posso
me aceitar e perdoar a mim mesma”.
Perdoe aos outros- Uma vez
perdoado, você tem de perdoar aos outros. Jesus ensinou: “Pois se perdoarem as
ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não
perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas” (Mt
6.14,15). A oração de Cristo reflete esta união vital: “Perdoa-nos
os nossos pecados, pois também perdoamos a todos os que nos devem [...]” (Lc
11.4). Você perdoa como gratidão a Deus pelo perdão das suas
transgressões, e não para merecer o perdão. O
perdão aos outros demonstra que você já foi perdoado. Não se pode receber o perdão de Deus sem dá-lo aos
outros. Quando nossos filhos eram bebês, o médico nos disse que poderia
vaciná-los contra todas as doenças infantis, exceto catapora. Se eles entrassem
em contato com uma criança com catapora, certamente a contrairiam. O perdão é
como catapora: se você tiver, passará aos outros. Perdoar
aos outros é marca da fé cristã. Jesus nos perdoou, pelos nossos pecados
ele foi crucificado, enquanto pendia na cruz (Lc 23.34).
Estêvão perdoou aos que o apedrejavam enquanto as pedras lhe esmagavam o corpo
(Ats 7.60). Paulo resume a posição cristã: “Sejam bondosos e
compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os
perdoou em Cristo” (Ef 4.32). O seu perdão aos outros tem de ser
de todo o coração, moldado segundo o perdão com que Deus lhe perdoou. Perdoar
outra pessoa é milagre de Deus. É obra dele, e não sua. Mesmo com um coração
disposto, a dor por vezes é tão aguda que você simplesmente não acredita ser possível
perdoar e esquecer. Mas, pelo perdão que Deus lhe concedeu e pela graça que ele
provê, você pode perdoar. Se você foi magoado por alguém, mas reprime a dor, em
vez de desfazer-se dela mediante o perdão, a culpa, a amargura e a ansiedade
permanecem e agravam a discórdia. Isso ameaça seriamente sua saúde emocional,
abafa a paz de Deus e a alegria da vida cristã. As emoções negativas reprimidas
corroem o seu interior como um câncer. Qualquer falha em perdoar aos outros com
alegria demonstra ignorância da graciosa provisão divina para você. Você se
torna como o servo ingrato de Mateus 18.21-35,
desfrutando prontamente da liberdade comprada pela misericórdia divina, mas
cruelmente negando graça semelhante aos outros. Era compreensível que Pat
Williams nutrisse ódio por seu tio e ressentimentos por sua mãe. Como eles
podiam ter permitido que uma criança experimentasse tamanha crueldade? De algum
modo, o ensino de Cristo “Perdoem, e serão perdoados” (Lc
6.37) não parecia fazer sentido. Quando, porém, Pat aceitou plenamente
o perdão de Deus, ele substituiu o coração quebrado e a culpa traiçoeira do seu
passado por uma profunda segurança no seu amor. Isso produziu um amor-próprio
muito agradável. Depois de experimentar tal perdão perfeito, como Pat poderia
deixar de perdoar a seu tio e a sua mãe? Perdoar aos outros é seguir o exemplo
de Cristo.
Aceite o perdão dos outros- Colossenses 3.13
insiste conosco para que perdoemos porque Cristo nos perdoa. Perdoar uns aos
outros exige que aceitemos o perdão e também que o ofereçamos. Aceitar o perdão
geralmente segue o nosso pedido sincero de perdão. Às vezes, porém, as pessoas
propõem-se a nos perdoar por males que pensávamos tão extremos que nem ousamos
pedir seu perdão. Talvez achemos difícil acreditar que sinceramente queiram nos
perdoar.Quando, porém, alguém lhe perdoa, você tem de aceitá-lo rapidamente.
Falhar em fazer isso é pecado. Indica que você acredita que sua ofensa contra
essa pessoa foi tão grave que o poder de Deus não é suficiente para capacitá-la
ao perdão. Nega a expiação perfeita de Cristo na vida dessa pessoa. Quando não
aceitamos o perdão de uma pessoa, nós a ofendemos e prejudicamos nosso
relacionamento com ela. Isso prolonga a dor e a divisão entre nós. Além disso,
pode fazer que ela no futuro tropece, deixando de perdoar a outras pessoas,
pois nossa rejeição pode levá-la a crer que seu perdão não seria aceito de
qualquer modo. Algum dia pode ser que o tio de Pat aceite o perdão de Deus e
aprenda que Pat já lhe perdoou. É possível, porém, que ele fique tão abismado
pela terrível natureza de seus pecados contra Pat que se sinta incapaz de
aceitar o perdão dela. Mas, em obediência a Deus, ele terá de fazê-lo.
Certamente o tio de Pat sabe do ressentimento e da amargura que ela nutria
contra ele. Se ele aceitasse o perdão de Pat e depois perdoasse suas emoções
negativas, Deus iria querer que Pat aceitasse com alegria o perdão dele. Embora
a aceitação do perdão seja importante, sua cura não depende de outra pessoa dar
ou aceitar perdão. E resultado da perfeita provisão de Deus por meio da obra
expiatória de Cristo. Aceitar e conceder perdão quebram os muros que obstruem
os relacionamentos. Quando não há barreiras entre as pessoas, o amor de uns aos
outros é a alternativa que resta.
COMUNIDADE
Não
se pode experimentar o verdadeiro cristianismo em isolamento. O próprio Deus é
uma comunidade de três pessoas, constantemente interligadas de modo íntimo.
Como fomos criados à imagem de Deus, quanto mais intimamente nos conformarmos à
natureza divina, mais abundante será a nossa vida. Só poderemos realizar a
plenitude de nossa humanidade em relacionamentos saudáveis.Jesus reconheceu a
necessidade dos relacionamentos. O ato inicial de seu ministério foi chamar 12
homens a “estar com ele” (Mrc 3.14). Ele formou uma comunidade.
Foi neste contexto que ele ensinou seus discípulos a manter relacionamentos
duradouros e íntimos com Deus e com o homem: amar ao Senhor de todo o coração —
e ao próximo como a si mesmo.
A comunidade é o seu principal elo com
Deus
Cristo é cabeça do corpo (Ef 1.22,23), e
Deus é o cabeça de Cristo (1 Co 11.3). Se você não faz parte de um
corpo cristão, está fora do propósito corporal e criativo de Deus para o seu
povo e perde seu mais importante elo com Deus.O Espírito Santo usa
repetidamente o exemplo do funcionamento do corpo humano como auxílio visual
para explicar como os cristãos devem relacionar-se com Cristo e uns com os
outros. Nossa compreensão da comunidade cristã é ressaltada quando fazemos
paralelos entre o corpo de Cristo, ou seja, a igreja, e nosso corpo físico.
Nunca houve caso de um pé estar ligado diretamente à cabeça sem um corpo. E uma
impossibilidade física. Semelhantemente, nenhum cristão pode ter ligação
exclusiva com Deus. “O corpo não é feito de um só membro, mas de muitos” (ICo
12.14). O cristão relaciona-se com a cabeça por meio do corpo. Nunca me
esquecerei de quando vi um granjeiro cortar a cabeça de um frango. Quando a
cabeça caiu no chão, o resto do frango girou em círculos loucamente. A poeira
voava. Penas se espalharam. Então, de repente, o corpo entrou em colapso. O
cristão separado da cabeça pode parecer estar vivo por algum tempo. Mas logo
entrará em colapso, porque existe apenas um modo de obter alimento e direção da
cabeça — é como parte do corpo (v. Cl 2.19). O cristão sem a comunidade é
como um frango cuja cabeça foi cortada. A comunidade cristã é a linha vital que
o liga a Deus.
A comunidade é o seu elo com outros
cristãos
Como o discípulo pode obedecer à ordem de Cristo de “amar uns
aos outros” sem que outros possam receber seu amor? Nenhum cristão pode ter
saúde sem outros cristãos. E por isso que todo cristão imediatamente faz parte
do corpo quando se converte: “[...] vocês são o corpo de Cristo, e cada um de
vocês, individualmente, é membro desse corpo”[...] "Pois em um só corpo todos
nós fomos batizados em um único Espírito [...]” (ICo
12.27,13, grifo do autor).Nesse sentido, todo cristão é membro da
comunidade redimida de Cristo. A Bíblia nunca fala da possibilidade de posição
sem função. Tentar viver a vida cristã sem um relacionamento prático com o
corpo é, no máximo, uma especulação arriscada. Consequentemente, é prioridade
para todo discípulo pertencer a um corpo cristão saudável, que funciona.Um
corpo cristão saudável é caracterizado pela união. É composto de
discípulos que morreram para si mesmos e estão em completa submissão a Cristo.
Eles descansam no conhecimento de que “Deus dispôs cada um dos membros no
corpo, segundo a sua vontade” (ICo 12.18).O livro de Atos documenta a
unidade na Igreja cristã como ponto central. Os cristãos primitivos eram uma
família intimamente ligada. Quando Pedro pregou no dia de Pentecoste, os outros
apóstolos ficaram em pé com ele (Ats 2.14). Os discípulos do século I
aprendiam, comiam, comungavam e oravam juntos (Ats 2.42).
Eles “tinham todas as coisas em comum” (Ats 2.44).Nenhuma
parte de um corpo saudável pode agir independentemente. Minha corrida diária
seria grandemente impedidase as minhas pernas se recusassem a cooperar uma com
a outra. Se minha perna direita insistisse em ir para a frente enquanto a
esquerda fosse para trás, eu cairia de cara no chão. As palavras e os atos de
cada membro do corpo de Cristo devem promover a união entre os irmãos. A união
é desenvolvida pela comunhão: comunicação regular e honesta e o dar e receber
livremente o perdão. O discípulo entrega-se ao sacrifício de seu próprio bem em
favor do bem do corpo, porque sabe que essa união dará glória a Deus. A união é
o propósito e o fruto da comunidade. Na Impacto Mundial, nós nos preparamos em
grupos, damos aulas em equipe, trabalhamos, vivemos e descansamos juntos. Isso
fortalece nossa união e aumenta nosso crescimento e ministério cristão. Nossos
alunos e vizinhos aprendem muito mais a respeito de amor cristão enquanto
observam como nos relacionamos uns com os outros do que ouvindo o que nós
dizemos. O mundo entende o amor de Deus pela nossa união (Jo
17.21-23). A maior parte da desunião no corpo é baseada no orgulho.
Começamos a exigir nossos direitos e guardar nosso tempo,
esquecendo-nos de que trocamos isso pela paz com Deus quando nos encontramos
com Cristo na cruz. Procuramos receber o louvor dos homens, em vez de dar
glória a Deus por meio de tudo o que fazemos. Jesus condenou os fariseus porque
“preferiam a aprovação dos homens do que a aprovação de Deus” (Jo
12.43). O orgulho é a negação da morte de si mesmo e não tem lugar
entre o povo de Deus. Uma forma perigosa de orgulho é a inveja. A inveja
invalida o corpo, que deve contar com a cooperação entre todos os seus membros
para servir eficazmente a Deus. Tiago 3.16 diz:
“Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de
males.” Eu entendo como a inveja pode entrar em um corpo cristão. Até este
livro poderia causar divisão. Embora eu seja o autor, tenho recebido muitos
benefícios das sugestões de nossos diretores e de alguns outros líderes. Então,
cinco da nossa equipe de Los Angeles me ajudaram a redigi-lo. Mais quatro
pessoas trabalharam altruisticamente na digitação dos manuscritos. Qualquer
desses colaboradores poderia dizer: “Veja só como eu trabalhei naquilo, e
ninguém jamais saberá. É o Keith que fica com todas as honras”. Ciúmes.
Contudo, porque esses discípulos sabem que Deus, e não Keith, é quem recebe
toda a glória, o ciúme é afastado. Deus utiliza pessoas de espírito
quebrantado, coração humilde, desinteressado em promoção pessoal, que se
gloriam somente na cruz de Cristo. “Como é bom e agradável quando os irmãos
convivem em união!” (SL133.1). Um corpo cristão que funciona
procura estimular a maturidade de todos os seus membros. Como o corpo não é
mais forte do que sua parte mais fraca, sua saúde depende do bem— -estar de
cada membro. Romanos 12.5 diz: “assim também em Cristo nós, que
somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros”.
O relacionamento entre os membros do corpo é tão íntimo que aquilo que afeta a
um afeta a todos. Certa vez, eu estava velejando com um amigo num pequeno
barco. Quando voltamos, ele pediu que eu impedisse o barco de bater no cais
amarrando-o a uma cunha de metal que havia no desembarcadouro. Descalço e
querendo agradar, pulei do barco, com a corda na mão. Infelizmente, meu dedão
do pé tentou levantar a cunha sólida, mas ela nem se mexeu. Meu dedão latejava
de dor. Deixei cair a corda, e o barco chocou-se contra o cais. Imediatamente,
todo órgão, membro e toda faculdade do meu corpo concentraram atenção total à
situação do dedão. Meu estômago já não estava preocupado com o almoço. Minha
boca não repreendeu o dedão por ser tão desajeitado. Minha mão já não ansiava
por segurar a corda. Minha cabeça nao pensava nos danos causados ao barco.
Todas as partes do meu corpo não sentiam vergonha em ocupar-se com o bem-estar
do dedão. Quando o dedão doía, todo o corpo doía. Assim é com o corpo de
Cristo. Estamos em comunhão tão íntima que, quando um membro se machuca, todos
nós sofremos; quando uma parte se alegra, há regozijo em todas as partes (Rm
12.15). O cristão que sofre não pode esconder suas lutas da comunidade.
Seus fardos, suas dores e suas preocupações são imediatamente comunicados por
meio do corpo à cabeça, que coordena uma resposta apropriada. O corpo promove a
saúde canalizando toda fraqueza e dor à sua própria corrente sanguínea para
purificação por meio do perdão e da cura. Só a um corpo doentio falta essa
intimidade. Os membros de um corpo maduro
ultrapassaram a ideia incompleta de "ir à igreja” e entendem que eles são
a Igreja. Em Cristo, os discípulos estão “sendo edificados juntos,
para se tornarem morada de Deus por seu Espírito” (Ef
2.22). Não mais restrita a tijolos e argamassa, a igreja funciona com
força total no mundo dos negócios, na escola e na vizinhança. A adoração já não
se confina ao culto de domingo. Todo ato, toda palavra e todo pensamento é
oferecido em adoração a Deus. Os benefícios da comunidade para o discípulo são
tão grandes que é quase impossível sobreviver sem eles. Em que outro lugar um
discípulo pode estar submisso a homens espirituais que o conheçam bem? Em que
outro lugar pode ser nutrido e receber suporte para seu crescimento e sua
maturidade crista? Em que outro lugar pode se tornar semelhante a Cristo pela
observação da vida de outros? Pode experimentar comunhão doce e pura? Pode
estar tão seguro no amor do seu próximo de forma que é liberado para amar aos
outros como Deus o amar Pode pertencer a um coro que canta em uma só voz um
hino contínuo de louvor e adoração ao Criador? Em que outro lugar seu
testemunho para o mundo pode brilhar tanto assim? Em que outro lugar ele pode ser
um discípulo?
Lista de verificação do discípulo — Amar
uns aos outros
□Meu
amor a outros cristãos é visível. Aceitei operdão de Cristo por meu
passado, presente e futuro.
□Perdoei a mim mesmo baseado no perdão de Deus por
mim.
□Perdoo prontamente aos outros.
□Aceito o perdão dos outros.
□Participo de uma comunidade cristã saudável.
7-Oração-
A oração é a quarta característica do discípulo. Pela
oração, o cristão encontra-se com o Deus vivo. “[...] em Jesus, nosso Senhor
[...] por intermédio de quem temos livre acesso a Deus em confiança, pela fé
nele” (Ef 3.11,12). O caráter do cristão é formado pela sua comunicação com
Deus. A comunicação é o segredo de todo relacionamento saudável. Não demorou
muito para minha esposa e eu percebermos que nossa união melhoraria ou pioraria
dependendo da qualidade de nossa comunicação; quanto mais profundamente nos
comunicássemos um com o outro, mais rapidamente nos tornaríamos um. Isso não é
de surpreender, pois meu relacionamento com Katie está moldado segundo o
relacionamento de Cristo comigo (Ef 5.23-25). A
boa comunicação transforma conhecidos em amigos e superficialidade em
intimidade. A qualidade de minha comunicação com Katie é reforçada se observo
quatro diretrizes. Esses mesmos princípios aplicam-se à vida de oração do
cristão.
PRIMEIRO, O LOUVOR- Nada
facilita mais uma relação saudável do que um elogio sincero. Um comentário
positivo e edificante é um gesto de respeito e admiração.Quando chego a minha
casa, as primeiras palavras determinam o ambiente para a noite inteira. Uma vez
estabelecida a direção, é difícil mudar. Se, ao contrário, digo à minha mulher:
“Você nunca se lembra de trancar o portão? Não sabe como é perigoso com os
meninos no quintal?”, já se pode imaginar as conseqüências. Que diferença faz
quando digo: “Querida, você está maravilhosa!”.Katie sabe que minhas palavras
são uma extensão do meu coração. Não existe um elixir melhor para se manter o
entusiasmo do namoro num casamento do que o elogio. Quando tenho a sabedoria de
usar de uma palavra elogiosa em primeiro lugar, nossa comunicação é saudável e
edificante. Davi reconheceu isso ao aconselhar quanto ao modo de aproximar-nos
de Deus: “Entrem por suas portas com ações de graças, e em seus átrios, com
louvor; deem-lhe graças e bendigam o seu nome” (SL 100.4).A
oração é, antes de tudo, uma avenida pela qual o discípulo adora e honra ao seu
Deus. Aguarde com alegria a oportunidade de estar na presença do Rei dos reis.
Permita que a gratidão flua de seus lábios, e que todo o seu ser expresse
admiração e temor diante do Todo-poderoso. Você tem uma boa razão para declarar
o seu amor a Deus: “Pois oSenhor é bom e o seu amor leal é eterno; a sua
fidelidade permanece por todas as gerações” (SL 100.5).
SEJA UM OUVINTE ATIVO-Certa vez, no início de nosso
casamento, Katie contava-me notícias alarmantes vindas de Washington. No meio
da sua descrição, eu a interrompi e terminei de contar-lhe a história. Nada a
frustrou mais do que meu gesto. Embora ela nunca o dissesse diretamente,
percebi de imediato que ou o meu hábito ou o marido teria de sair. Deus usou
minha esposa paciente para me ensinar uma lição valiosa: comunicar é muito mais
do que conversar. É ouvir atentamente, dando atenção exclusiva. Deixar de
escutar é um insulto. Quando Katie me fala de conversas com amigas, lugares
aonde foi e coisas que ela aprendeu, eu a amo o bastante para tomar parte em
sua vida concentrando-me naquilo que ela diz. Eu me sentiria lesado se, depois
de derramar o coração diante de Deus, não houvesse resposta. Mas o Senhor
promete responder (SL 91.15). Deus deseja a perfeita comunicação
com os seus filhos. Ele fala comigo por meio da sua Palavra, trazendo-me à
memória versículos, enchendo-me a mente da sua beleza, coragem e vontade.
Preciso apenas atender ao seu conselho: “Parem de lutar! Saibam que eu sou
Deus” (SL 46.10). Descobri que com Deus, assim como com Katie, nossa
comunicação mais significativa ocorre quando estamos a sós. Ouço melhor quando
não há distrações — rádio, telefone, outras pessoas. Estou certo de que era
isso que Jesus tinha em mente quando disse a seus discípulos: “[...] Venham
comigo para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mrc
6.31).
SEJA CONSTANTE- É fácil demais eu chegar a
minha casa depois de um longo dia de trabalho, dizer algumas palavras
frequentemente repetidas, jogar-me numa poltrona e ler a correspondência —
quase ignorando minha querida esposa. Exige-se uma disciplina verdadeira ir
além dos lugares-comuns e falar abertamente de novas ideias, planos empolgantes
ou eventos incomuns. Mais difícil ainda é ser honesto quanto a mágoas,
preocupações e problemas com os quais estou lutando. Às vezes, sinto que, após
ter sido bombardeado por pessoas, problemas e necessidades o dia todo, é pura
agonia reviver esses incidentes ao compartilhá-los. Tolice! Katie é o meu maior
apoio. Ela quer ajudar-me a carregar os fardos e compartir as alegrias. A
comunicação constante capacita-nos a pensar igual, agir igual e ter confiança
um no outro. Partilhar com Katie e buscar seu conselho afirmam que eu valorizo
quem ela é. Se deixo de me comunicar, eu a excluo daquilo que sou, e nosso
pacto de casamento fica reduzido a um pedaço de papel. É por demais freqüente
que a tentação à preguiça entre furtivamente em minha vida de oração. Posso
racionalizar: “Deus sabe de tudo. Estou cansado demais; não tenho tempo. Amanhã
falarei com ele”. Como acontece em relação a Katie, é fácil deixar para depois.
Ninguém fica sabendo. Ninguém me culpa. Mas é um erro pensar que a comunicação
constante com Deus seja uma opção. Se minha comunicação for esporádica, nosso
relacionamento deteriora. Primeiro, minha mulher e eu ficamos sabendo. Depois,
outras pessoas. Finalmente, todo mundo. A constância na vida de oração do
discípulo é como a resistência na vida de um corredor fundista. Não há atalhos
que encurtem o caminho. É atingida mediante um período extenso de prática
diária. Mas, se não usar essa resistência, você a perde. Quando você para por
algum tempo, não pode recomeçar no ponto em que parou. A intimidade com Deus
exige comunicação regular. Se você não tem conversado com ele há muito tempo e
surge uma crise, sente-se desajeitado e inseguro na sua presença. Sem
comunicação constante, o cristão enfrenta a vida em terreno muito incerto. A
comunicação constante com Deus faz que o coração, a motivação, os pensamentos e
até mesmo os instintos do cristão coincidam com os de Deus. É por isso que ITess
5.17 nos instrui: “Orai continuamente”. Sua fidelidade faz que você
seja bem-vindo à presença de Deus: “Assim, aproximemo-nos do trono da graça com
toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos
ajude no momento da necessidade” (Hb 4.16).
SEJA TOTALMENTE SINCERO-No início de nosso relacionamento,
Katie e eu assumimos um compromisso de sermos totalmente sinceros um com o
outro. Sabíamos que nosso casamento se fortaleceria se as únicas surpresas nele
fossem agradáveis. Um relacionamento baseado em meias-verdades ou distorções
enganadoras é como uma casa de cartas: desmorona com a mínima pressão.
Discutimos juntos as nossas finanças, fazendo orçamento daquilo que podemos
gastar, concordando naquilo que não podemos comprar. Concordamos quanto aos
nossos compromissos sociais e atividades de ministério antes de assumirmos
compromissos.Nunca há ocasião em que Katie não saiba onde eu me encontro. Deixo
um itinerário detalhado quando viajo: número de voo, hora de chegada, hotéis,
pessoas a contatar, compromissos de palestras e horas marcadas. Ela sempre pode
se comunicar comigo. Telefono-lhe todos os dias quando estou fora.Nosso
compromisso de sinceridade constante não apenas nos capacita a compartilhar
nossas necessidades, mágoas e dúvidas antes que se tornem em frustrações, como
também evita asuspeita e a desconfiança.Muitos cristãos têm a audácia de achar
que podem enganar ao Deus que tudo sabe. Racionalizam os seus motivos, recusam
confessar alguns de seus pecados ou não querem entregar certas áreas da vida.
Davi foi assim. Ele tentou esconder seus pecados de assassinato e adultério até
que finalmente Deus o confrontou por meio de Natã (2Sm 12).
Mas Davi aprendeu a lição. Tornou-se completamente transparente com Deus: “Pois
eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue” (SL
51.3). Deus não ouvirá suas orações se você tentar esconder seus
pecados (SL 66.18). Isaías 59.2 diz:
“[...] as suas maldades separaram vocês do seu Deus; os seus pecados esconderam
de vocês o rosto dele, e por isso ele não os ouvirá”. Sem ouvir, não existe
comunicação; sem comunicação, não existe relacionamento; sem relacionamento,
não existe discipulado. A sinceridade absoluta com Deus é essencial para o
discípulo. A oração é o canal de comunicação mais íntimo que o discípulo pode
ter com o seu Deus. A qualidade de sua comunicação determina a força de seu
relacionamento. A oração é a prova e a prioridade inquestionável da pessoa que
busca a Deus (Lc 18.1).
Lista
de verificação do discípulo — Oração
Minha vida de oração é caracterizada por:
□
Louvor a Deus em primeiro lugar.
□ Ouvir ativamente.
□ Constância.
□ Sinceridade total.
Terceira parte
Como fazer
discípulos?
8 -Criado para
reproduzir
Quando você morre para si mesmo, torna-se um discípulo. E
os discípulos foram criados para reproduzir. Jesus não deixou dúvidas: “[...]
Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto[...]” (Jo
15.5; grifos do autor). Não há chamado mais alto, comissão mais clara
no Novo Testamento do que a ordem de reproduzir em outros o caráter que o
Espírito de Deus criou em você. Cristo espera que cada cristão produza fruto
espiritual.
Paulo revela o significado de ter filhos espirituais
saudáveis: “Pois quem é a nossa esperança, alegria ou coroa em que nos
gloriamos perante o Senhor Jesus na sua vinda? Não são vocês? De fato,
vocês são a nossa glória e a nossa alegria” (ITs 2.19,20;
grifos do autor).
Paulo sabia que simplesmente conduzir uma pessoa a Cristo
não bastava. Ele considerava vão o seu trabalho se seus filhos espirituais não
se tornassem discípulos maduros. E discípulos maduros reproduzem sua vida em
outros — produzindo frutos duradouros. Note que Paulo escrevia a cristãos que
ele havia conduzido ao Senhor quando disse que eles se tornassem
irrepreensíveis, “retendo firmemente a palavra da vida. Assim, no dia de Cristo
eu me orgulharei de não ter corrido nem me esforçado inutilmente” (Fp
2.16). Ele repetiu esse pensamento em ITs 3.5:
“[...] não suportando mais, enviei Timóteo para saber a respeito da fé que
vocês têm, a fim de que o tentador não os seduzisse, tornando inútil o nosso
esforço”. Aos cristãos da Galácia, escreveu: “Temo que os meus esforços por
vocês tenham sido inúteis” (GL 4.11).
Como Paulo ousava sugerir que suas famosas viagens
missionárias poderiam ser desperdiçadas quando o resultado foi um número tão
grande de novos cristãos? Por que o apóstolo se preocupava com a possibilidade
de seu rebanho tornar-se carnal ou mundano? A razão é clara. Paulo sabia que
Jesus era radical: ou a pessoa morre para si mesma e reproduz, ou não é
seguidora de Cristo. Jesus não deixou outra opção. Cristo mesmo disse aos
discípulos: “[...] eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que
permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome” (Jo
15.16; grifos do autor).
Somente os mal informados ou imaturos estão de tal modo
preocupados com boas obras que não têm tempo para nutrir seus filhos espirituais
para a reprodução. Nenhum cristão maduro se contenta com esterilidade
espiritual.
Pare um momento para examinar sua vida. Existe alguma
pessoa andando hoje com Deus e investindo em outros a plenitude de vida que tem
em Cristo como resultado do ministério em que você tem servido? Um homem? Uma
mulher? Se a resposta for não, você não tem dado fruto.
Talvez você frequente fielmente uma igreja, cante no coro,
seja diácono, apoie um grupo jovem, sirva como presbítero ou seja até mesmo
pastor. Talvez você testemunhe todos os dias ou ensine em grupos de estudo
bíblico. São atividades recomendáveis, mas não chegam a cumprir o seu alto
chamado de fazer discípulos. A atividade não substitui a obediência; o viver
ocupado não pode tomar o lugar da reprodução. Um discípulo que funciona é mais
valioso para a edificação da igreja do que uma multidão de cristãos carnais.
Resista à tentação de se envolver tanto no “trabalho cristão” que chegue a
negligenciar as coisas do Reino. Reordene suas prioridades à luz da comissão de
Cristo de fazer discípulos.
O seu compromisso de fazer discípulos é gerado pelo amor a
Deus em resposta ao sacrifício altruísta de Cristo. A gratidão leva-o a dar
glória a Deus produzindo muito fruto. A reprodução espiritual é o desejo e a
responsabilidade de cada discípulo (Jo 15.8).
Infelizmente, muitos cristãos hesitam em fazer essa entrega
fundamental, em assumir esse compromisso da reprodução espiritual. Satanás
diz-nos que não somos suficientemente bons para fazer discípulos. Mas não se
engane. Não é a sua bondade, mas a perfeição de Cristo em você que o qualifica
a fazer discípulos. Não é aquilo que você sabe, mas aquele a quem você conhece.
Se você morreu para si mesmo, então Cristo reproduzirá o caráter dele por seu
intermédio.
Permita-me uma palavra de cautela. O discipulado requer um
compromisso constante com a morte de si mesmo. Paulo diz: “Pois nós, que
estamos vivos, somos sempre entregues à morte por amor a Jesus, para que a sua
vida também se manifeste em nosso corpo mortal” (2Co 4.11). João
declara ainda: “devemos dar a nossa vida por nossos irmãos” (I jo
3.16).
O discipulado é um trabalho árduo. Paulo afadigava-se(Cl
1.28,29) para apresentar todo homem perfeito em Cristo. O
discipulador tem o compromisso de investir a vida no seu aluno: “[...]
decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria
vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós” (ITs
2.8). Gerar filhos espirituais exige muitas horas semanais, por
muitos anos. Exige o desgaste de energia emocional. Paulo pergunta: “Quem está
fraco, que eu não me sinta fraco? Quem não se escandaliza, que eu não me queime
por dentro?” (2Co 11.29). O derramar da vida em favor de
outra pessoa é um investimento que nos esgota. Não assuma um compromisso com
Deus para uma relação de discipulado até que você conheça o preço disso.
Quando nosso ministério começou, a necessidade no gueto era
tão esmagadora que praticamente qualquer pessoa que quisesse juntar-se a nós
era aceita em nossa equipe. Muitos foram embora após alguns meses, “sentindo”
que Deus os chamava para outro lugar. Mas como ministramos principalmente aos
que estão fora das igrejas e os membros de nossa equipe trabalham no limite de
sua capacidade, era raro que tivéssemos alguém para cuidar dos filhos
espirituais dos ministros que se iam. Era muito freqüente eu tentar explicar
aos novos cristãos que assim que viesse mais um missionário, voltaríamos a dar
a atenção pessoal que seu professor lhes dava. Não importava, porém, o que eu
dissesse, esses bebês em Cristo pareciam ouvir: “Vocês já não se importam. Deus
não me ama mais”.
Fracos demais para enfrentar um relacionamento quebrado,
esses novos cristãos caíam pelo caminho. Alguns ameaçavam suicidar-se. Outros voltavam
ao roubo, às drogas ou à prostituição. Alguns morreram. Cada um tinha visto seu
mestre como um reflexo de Deus e, quando abandonado, concluía que o próprio
Deus tinha sido infiel. Numa cultura instável como a do gueto, nada poderia ser
pior do que a deserção, o abandono.
Deus convenceu-nos do pecado desse abandono de filhos
espirituais. Um Deus de excelência nunca pretende que sua obra seja deixada
inacabada. Reconhecemos que precisávamos cuidar desses novos cristãos até que
alcançassem maturidade suficiente para se alimentar espiritualmente sozinhos e
estivessem integrados a um corpo saudável e funcional. Esse era o padrão
divino. A obra de Cristo não estaria terminada até que seus homens fossem
treinados. Reconhecendo a gravidade da situação, nossa responsabilidade e
conhecendo o coração de Deus, resolvemos que cada membro da equipe que viesse
deveria ter um compromisso com Deus de ministrar conosco até, pelo menos, fazer
um discípulo que pudesse levar avante o ministério por ele começado. Não existe
um período determinado. Pode levar cinco, dez anos ou até mesmo uma vida toda.
Um compromisso aberto como esse parece sem razão, a não ser que você seja um
homem morto para si mesmo — vivendo com tempo emprestado.
Como o preço de entrar no nosso ministério é alto, cada
membro em potencial de nossa equipe tem de considerar cuidadosamente as
implicações. Eclesiastes 5.4,5 adverte: “Quando você fizer um
voto, cumpra-o sem demora, pois os tolos desagradam a Deus; cumpra o seu voto.
É melhor não fazer voto do que fazer e não cumprir”. Se o candidato tiver
qualquer dúvida, sugerimos que ele espere até que Deus confirme seu compromisso
de permanecer conosco por todo o processo de fazer discípulos.
Recentemente, uma mulher assumiu esse compromisso com Deus
na minha presença e começou a trabalhar conosco. Infelizmente, um ano mais
tarde, ela mudou de ideia. Explicou que Deus a levava a quebrar o compromisso
para que pudesse casar. Eu entendia seu desejo de casar, mas sabia que Deus não
é autor de confusão (ICo 14.33). Ele “não mente nem se arrepende” (ISm
15.29). Um homem morto para si mesmo sabe que o compromisso com Deus
tem precedência sobre qualquer oportunidade subsequente. Deus não chamaria
alguém para conduzir pessoas a Cristo e logo em seguida o dirigiria a abandonar
esses bebês espirituais.
Intrinsecamente relacionado ao compromisso de ser pai
espiritual está o de conduzir novos cristãos à maturidade. Meu coração se
entristece quando grupos cristãos vêm ao gueto, chamam multidões por meio da
música, teatro ou caridade simbólica e estimulam conversões em massa — para
depois irem embora, tendo a audácia de esperar que, de alguma forma, esses
convertidos abandonados sobrevivam. Dói quando outros invadem os bairros para
praticar sua perícia evangelística apenas para ganhar experiência. Eles atacam
comunidades inteiras com as palavras do evangelho, anotam numerosas decisões e
retiram-se para a segurança do seu campo de treinamento a fim de comentar suas
experiências. Em um desses casos, os frutos abandonados foram visitados em
seguida pelas Testemunhas de Jeová. Essa “evangelização tiro-e- queda”
demonstra desprezo pela nutrição espiritual, que é a preocupação primordial das
epístolas do Novo Testamento. Despertar alguém a tornar-se cristão sem
equipá-lo para viver a vida cristã é irresponsabilidade cruel.
Deus o fará responsável pela alimentação dos novos cristãos
sobre os quais vocêfoi posto como supervisor (Ats
20.28). Você tem de empregar suas energias em conduzir seus discípulos
à reprodução.
Assuma agora mesmo um compromisso, pela fé, de obedecer à
ordem de Cristo de fazer discípulos que reproduzam. Então, comece com uma
pessoa. A Igreja de Cristo será edificada por meio do discipulado. O seu
investimento pessoal resultará em cristãos totalmente consagrados ao serviço de
Deus. E a natureza explosiva da multiplicação espiritual torna possível o
cumprimento da Grande Comissão. Você foi criado para reproduzir!
Lista de verificação do discipulador — Criado
para reproduzir
□ A multiplicação espiritual é meu desejo sincero.
□ Tenho um compromisso constante com a morte do meu eu.
□ Estou comprometido em conduzir novos cristãos à
maturidade.
□ Creio que Deus me responsabilizará pelos novos cristãos
sobre os quais ele me colocou como supervisor.
9-A escolha de um
discípulo
No meu tempo de garoto, era moda jogar beisebol em terreno
baldio. Todos os sábados à tarde, dividíamo-nos em times e jogávamos até que
ficasse escuro demais para enxergar. O sucesso do meu fim de semana era
frequentemente determinado pela qualidade dos meus colegas de time. A escolha
dos jogadores certos quase sempre levava à vitória.
A escolha da pessoa a ser discipulada é de suma
importância. Os seguintes princípios foram extraídos da experiência pessoal e
creio que sejam indispensáveis para a escolha do discípulo.
TENHA UM ALTO PADRÃO Jesus fez pescadores de homens somente aqueles
que estavam dispostos a segui-lo (Mt 4.19). Ele exigiu que seus discípulos abandonassem tudo o que
tinham, até mesmo a própria vida, se necessário fosse, para segui-lo. Eles
teriam de atingir o seu padrão.
Cinco características ajudarão a
identificar o discípulo em potencial:
1. Ele deseja conhecer intimamente a Deus- Seu espírito dócil indica fome de Deus e sede de justiça.
Ele busca “conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em
seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte” (Fp
3.10). Sua constância em obedecer a Deus demonstra morte de si próprio
(Tg 1.22-25). Deus disse:
“Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua
força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie- se nisto: em
compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor e ajo com lealdade, com
justiça e com retidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado” (Jr
9.23,24).
2. Ele está disponível-
Sempre que houver oportunidade, ele está disposto e ansioso por estar com você.
Sua disponibilidade demonstra a importância que ele dá ao seu relacionamento.
Nós sempre reservamos tempo para as coisas que julgamos importantes. Os
discípulos de Cristo deixaram emprego e ocupações para estar com ele. A
disponibilidade deles provou o compromisso que tinham.
3. Ele é submisso -Ele
reconhece que Deus não aceita menos que um espírito quebrantado e contrito (SL
51.17). Sua vulnerabilidade e comunicação transparente demonstram
confiança em Deus e em você. A qualidade de servo e o amor a você refletem
submissão e respeito pela maturidade que você tem. Se ele ministrar a você, provavelmente
é a pessoa certa. Paulo tinha a Onesíforo em alta conta porque ele muitas vezes
o animou e nunca se envergonhou de servir Paulo, mesmo que este estivesse na
cadeia (2Tm 2.16-18).
4. Ele é fiel -Ele é
coerente na consagração cristã, nas responsabilidades de rotina e no amor a
Deus. “O que se requer destes encarregados é que sejam fiéis” (ICo
4.2). O Espírito de Deus valoriza tanto a fidelidade que inspirou
Paulo a fazer da fidelidade
o ingrediente-chave para determinar quais homens deveriam
ser treinados (2Tm 2.2).
5. Ele deseja fazer discípulos- Ele
entende que o cristão maduro está comprometido em fazer discípulos. Deseja
crescer no Senhor a fim de glorificar a Deus reproduzindo nos outros a vida em
Cristo. Esses cinco critérios podem parecer muito elevados. Mas a qualidade
obtida é determinada pelo padrão estabelecido. Se você aceitar a mediocridade,
será isso que obterá. Cada ano, nossos diretores recapitulam as diretrizes para
a aceitação de novos membros de equipe. Invariavelmente, quando elevamos as
exigências, a qualidade dos candidatos melhora proporcionalmente. Não tenha receio
de exigir um alto padrão.
ORE COM PERSISTÊNCIA- Jesus escolheu seus discípulos somente depois de passar “a
noite orando a Deus” (Lc 6.12). O Pai deu a Jesus o conhecimento
interior para ver o potencial de Pedro, o impetuoso, que seria chamado Cefas, a
rocha (Jo 1.42). Por trás do ceticismo de Natanael, ele viu o caráter de
um homem “em quem não há dolo” (Jo 1.47). A direção de Deus na escolha
do discípulo é uma ordem. “[...] Não considere sua aparência nem sua altura,
pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o
Senhor vê o coração” (ISm 16.7).
Não existe maneira pela qual possamos induzir uma pessoa a
morrer para si mesma e iniciar em um relacionamento de discipulado. Jesus
ensinou: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o
ressuscitarei no último dia (Jo 6.44). Só Deus pode preparar uma
pessoa para tornar-se discípulo que reproduza um caráter semelhante ao de
Cristo em outras pessoas. Deus disse: “[...] Separem-me Barnabé e Saulo para a
obra a que os tenho chamado'’ (Ats 13.2). Até os próprios discípulos
de Cristo foram dados a ele por Deus Pai (Jo 17.6).
A escolha de um discípulo exige oração persistente. Junto
com seus líderes espirituais, peça a Deus para levá-lo à pessoa que ele quer
que você discipule.
ESCOLHA COM CUIDADO- Jesus demonstrou seu compromisso com uma escolha de
qualidade ao chamar apenas alguns homens dentre as multidões (Lc
6.13). Alguns que quiseram estar com ele receberam a resposta de que
não poderiam (Lc 8.38,39). Os que eram muito
confiantes, ou tinham prioridades erradas, ou estavam presos a motivações
antigas foram excluídos (Lc 9.57-62). Ao
concentrar-se em poucos indivíduos, Jesus resistia à tentação de se
sobrecarregar a ponto de não poder ministrar efetivamente. Quando você achar
que encontrou um discípulo em potencial, desenvolva um relacionamento de
pré-discipulado com ele antes de convidá-lo para o discipulado. O
pré-discipulado é o treinamento de um discípulo em potencial “acerca de como
viver a fim de agradar a Deus” (lTs 4.1). Essa relação tem duas
vantagens. Capacita-o a crescer da infância à juventude espiritual e permite
que você avalie a profundidade de seu comprometimento.
Treinamento em pré-discipulado - Os
primeiros convertidos em Jerusalém foram alimentados ao se dedicarem “ao ensino
dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações”(Ats
2.42).Primeiro, o seu discípulo em
potencial tem de fazer parte de um corpo saudável e funcional em que ele
aprenda, pela observação, como ser semelhante a Cristo e onde possa
experimentar a comunhão, o amor e a responsabilidade de que necessita. Além
disso, ele precisa ser encorajado a solidificar a vida cristã. Ele precisa
estar arraigado em Cristo e obter dele o alimento (Cl 2.7).
Isso significa que ele deve estar equipado para se alimentar espiritualmente
por meio do estudo regular da Palavra de Deus, da memorização de textos
bíblicos, da meditação, da oração e da adoração. É necessário que você trabalhe
com ele em cada uma dessas disciplinas para assegurar que elas se tornem parte
de sua vida. Diga-lhe por que ele deve estudar, memorizar, meditar, orar
e adorar. Ensine, pela Bíblia, que essas coisas são importantes e demonstre o
seu valor falando da experiência que você tem nessas áreas. Ressalte que a prática
dessas disciplinas não é legalismo, mas fidelidade. Mostre-lhe como,
ensinando-lhe um ou dois métodos que você usa. Ajude-o a começar,
praticando-as com ele. Ajude-o a perseverar. O seu exemplo o encorajará
a ser fiel. Compartilhe com regularidade princípios que você tenha aprendido e
como você os tem aplicado. Esteja disponível para responder às perguntas dele.
Dê a ele a responsabilidade de executar tarefas e aplicações práticas
diariamente. Quando o seu aluno estiver fielmente praticando cada um desses
pontos fundamentais da vida cristã sem que você tenha de “empurrá-lo”, seu
relacionamento de pré-discipulado terá tido êxito.
Observe de perto - O
pré-discipulado permite que você se familiarize com um discípulo em potencial.
Desse modo você verificará sua motivação, capacidade de aprendizagem, seu
compromisso com Deus e decidir se poderá discipulá-lo ou não, levando em conta
sua vida, e não apenas suas palavras. É essencial que ele assimile os pontos
básicos do cristianismo e que você o conheça bem antes de iniciar um
relacionamento de discipulado. A primeira epístola a I
Timóteo 5.22 adverte: “Não se precipite em impor as mãos sobre ninguém
[...]”.
Tome a iniciativa- Se o
Espírito de Deus confirmar a você e aos que exercem autoridade sobre você que deve
discipular alguém, então tome a iniciativa. Na compaixão de Deus pela
humanidade não regenerada, ele se fez carne e habitou entre nós (Jo
1.14). Deus tomou a iniciativa. Quando Cristo começou o ministério de
fazer discípulos, ele chamou cada discípulo pessoalmente (Jo
6.70).
Faça o convite -Explique a seu discípulo em potencial que, após muita
oração e aconselhado por seus líderes espirituais, Deus o levou a convidá-lo
para assumir um compromisso de discipulado. Ressalte que o interesse que ele
demonstra em conhecer a Deus, sua disponibilidade, seu espírito submisso, sua
fidelidade e visão de fazer discípulos indicam que Deus o preparou a fim de que
seja equipado para ensinar outros. Enfatize que esse relacionamento exigirá
bastante tempo. Vocês se encontrarão em um ambiente apropriado pelo menos três
horas por semana. Ele terá de realizar tarefas escritas, memorizar versículos e
fazer um estudo bíblico regularmente. É preciso que ele concorde com esse
compromisso mínimo de tempo antes de começar. À medida que ele amadurecer, a
participação dele no ministério aumentará gradativamente. Ele deverá encarar o
crescimento espiritual como prioridade máxima.
Diga-lhe que o relacionamento pessoal com um cristão maduro
oferecerá treinamento de qualidade e suprirá suas necessidades individuais. Uma
vez que o ritmo do discipulado tem relação direta com o amadurecimento
espiritual do discípulo, este adquirirá uma compreensão profunda do estilo
cristão de vida.
Explique o relacionamento - O
propósito do relacionamento de discipulado é equipar alguém que morreu para si
mesmo a reproduzir em outras pessoas um caráter semelhante ao de Cristo.
Explique a seu discípulo em potencial que, sem compromisso e submissão, não
haverá um relacionamento de discipulado.
Compromisso.
Diga-lhe por que devem ter um compromisso mútuo. Explique que sem isso é
fácil desistir com o primeiro sinal de luta ou desanimar quando houver
indicação de fraqueza. Consequentemente, vocês se comprometem na presença de
Deus a crescer mutuamente na plenitude de seu Filho, não importa o preço que
terão de pagar. Compromisso significa que não existem desistências, limites,
reservas. Em 1975, eu voava de St. Louis para Los Angeles quando o piloto
anunciou que havia “séria ameaça” de existir uma bomba no avião. Fizemos um
pouso de emergência e recebemos ordem para abandonar imediatamente o avião. Ao
abrirmos a porta, uma superfície móvel e estreita saiu automaticamente do avião
e começou a inflar. Saiu reta, paralela ao chão. Hesitei por um momento, com
medo de pular, mas com mais medo de não pular. Antes mesmo que o aparato
tocasse o chão, joguei-me sobre essa tênue saída. As palavras não descrevem o
terror que senti. Mas desde o momento em que saltei, eu estava preso à minha decisão.
Uma vez que Deus exige fidelidade inabalável, o compromisso
de discipulado é tão sério quanto aquele salto do avião. Afirme ao seu
discípulo em potencial que, assumido esse compromisso, vocês dois estão ligados
por ele. Assegure-lhe que, mesmo que ele tropece, você permanecerá fiel.
Explique que ele deve comprometer-se a observar, escutar, seguir a sua direção
e obedecer a ela para chegar à maturidade em Cristo. Esse compromisso mútuo,
sem reservas, é a base de seu relacionamento. Submissão. Diga a seu discípulo
em potencial por que ele deverá submeter-se a você como aquele em quem Deus
investiu autoridade para treiná-lo para a reprodução. Sua submissão é
imprescindível porque sem ela você não poderá exercer autoridade. Cristo chamou
seus discípulos, mas, antes de começar a treiná-los, eles tiveram de segui-lo.
Certifique-se de que seu relacionamento esteja claramente definido e de que seu
discípulo em potencial entenda o papel de cada um. Ele precisa saber que a
liderança que você tem é provada por seu compromisso e caráter, e não por
cursos e habilidades. Seus líderes devem explicar a ele que sua submissão ativa
a eles qualifica você para a liderança. Isso lançará seu relacionamento na
direção certa e ajudará a estabelecer sua autoridade. Seu discípulo em
potencial deverá comprometer-se a uma submissão com alegria. Hebreus
13.17 diz:
Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles.
Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o
trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso
para vocês.
Como pode um líder experimentar a alegria se seu discípulo
não se submete com alegria a ele? Mostre a seu discípulo em potencial que é bom
saber que você é responsável perante Deus para guiá-lo na caminhada cristã e em
velar pelo seu bem-estar.
Mais que tudo, essa submissão significa confiança.
Recentemente, um jovem que experimentou uma conversão dramática das drogas e do
crime, por meio de nosso ministério, foi convidado a dar seu testemunho na rede
nacional de televisão. Aconselhei-o a não dar a entrevista naquela época. As
circunstâncias não me permitiam explicar as razões do meu conselho. Pedi
simplesmente que ele confiasse em mim. Foi uma alegria ver que ele concordou
imediatamente por causa de seu compromisso de submissão. Mais tarde pude lhe
mostrar o perigo do orgulho e a importância de viver essa nova vida antes de
uma exposição pública e prematura.
Explique a seu discípulo em potencial que a submissão dele
oferece segurança em encontrar a vontade de Deus porque ele tem a oportunidade
de se aconselhar com você. Assegure-lhe que, se você não souber a resposta,
procurará obtê-la de seus líderes e receberá uma resposta de autoridade, e não
mera opinião. “Quem sai à guerra precisa de orientação, e com muitos
conselheiros se obtém a vitória” (Pv 24.6).
Seu discípulo em potencial deve submeter-se ativamente a
você. Essa submissão ativa é o contrário da obediência passiva; é tomar a
iniciativa nas áreas que afetam o crescimento. O discípulo deve procurar com
empenho a direção de seu líder para que chegue à maturidade. Ele deve escolher
ser transparente e vulnerável em áreas que de outra maneira poderiam permanecer
ocultas. Efésios 4.15 diz que devemos sempre dizer a
verdade em amor para que cresçamos em Cristo.
O discípulo não hesita em compartilhar tristezas e
fraquezas. Tiago 5.16 ensina: “... confessem os seus
pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de
um justo é poderosa e eficaz”. Ele não tenta proteger-se escondendo quem é.
Você não pode levar os fardos de seu discípulo, a não ser que ele os
compartilhe (GL 6.2). Deixar de falar das lutas indica
que ou ele não deseja sinceramente conhecer o padrão de Deus ou não quer viver
segundo esse padrão.
Um amigo travava uma luta com a lascívia. A promiscuidade
berrante do gueto tinha feito que ele perdesse totalmente essa batalha. Ele
tinha quebrado tantas promessas feitas a Deus de manter o coração puro e a
mente limpa que se sentia um constante mentiroso.
Satanás procurou enfatizar que a confissão o faria perder
responsabilidades de liderança e o deixaria severamente restrito em suas
atividades. Mas ele sabia que continuar sem confessar, sem obter a purificação
e a vitória significaria destruir sua utilidade e reproduzir carnalidade em
outras pessoas. Finalmente, reconheceu que não poderia ganhar a batalha
sozinho.
Ele decidiu que desejava ser semelhante a Cristo e nada
menos o satisfaria, não importava o custo. Suas responsabilidades foram
restringidas, sua liberdade foi limitada e seu orgulho sofreu um tremendo
baque. Mas, por meio da prestação de contas, de encorajamento regular e de
muita oração, Deus deu a ele vitória. Hoje, ele é puro e tem um ministério
bem-sucedido.
Ao revelar áreas de dificuldade, o discípulo em potencial
perpetuará seu próprio crescimento e demonstrará que confia em você. Quanto
mais ativamente ele se submeter, melhor será a qualidade do treinamento que
receberá. A submissão ativa é vital para a saúde espiritual. A única resposta
apropriada que um homem morto pode dar a seu Deus e a seu discipulador é a
submissão alegre e ativa.100
Prometa a seu discípulo em potencial que, baseado na
submissão dele, você o tornará responsável em todas as áreas da vida. Paulo fez
isso com Arquipo: “[...] Cuide em cumprir o ministério que você recebeu no
Senhor” (Cl 4.17). Todo discípulo experimenta maior
crescimento se for responsável por outro. Este pode ser elogiado, encorajado,
desafiado ou admoestado em particular, sem estimular o orgulho e sem causar
embaraços.
A vida cristã baseia-se na disciplina, que será
desenvolvida no seu discípulo somente à medida que você torná-lo responsável
por isso. Paulo animava os de Tessalônica a seguir seu exemplo de vida
disciplinada (2Ts 3.7). Embora muitos de nossa equipe
fossem cristãos por anos, não haviam feito do estudo bíblico, da memorização
das Escrituras, da meditação, da oração e da adoração parte integrante da vida
cotidiana. Mas, quando se comprometeram a ter um relacionamento pessoal, no
qual deveriam prestar contas uns aos outros, o resultado foi uma maior
consagração a Deus e uma comunidade cristã mais saudável.
Comunique a visão- Certifique-se de que seu discípulo entenda que ele faz
parte de um processo. Primeiro, a obediência à ordem de Jesus de segui-lo
exigiu a morte de si mesmo. Depois, o relacionamento de pré-discipulado
equipou-o a viver a vida cristã. Agora ele está sendo convidado a ser um
discípulo funcional — a participar da evangelização e do pré-discipulado de
outra pessoa. À medida que ele amadurecer em Cristo, irá se tornar um
discipulador, alguém que investe a vida ativamente em outro discípulo.
Finalmente, quando este discípulo começar a fazer discípulos, irá tornar-se
líder de discipuladores.
O seu relacionamento não deve apenas dar saúde espiritual à
vida pessoal do discípulo. Nenhum discípulo é um fim em si mesmo, mas sim um
elo no grande plano de Deus para expandir sua Igreja por meio da reprodução.
Ele investirá em outras pessoas pelo resto da vida.

Deixe que ele decida- Depois de explicar detalhadamente as implicações do
discipulado, dê a seu discípulo em potencial uma ou duas semanas para orar a
fim de decidir sobre assumir tal compromisso. Não tente forçar uma resposta
positiva. É muito importante dar a ele a liberdade de escolha. Só o Espírito
Santo pode chamar as pessoas para uma relação de discipulado. Se ele não
estiver pronto para tal compromisso, é melhor que você saiba antes de investir
horas nele.
Não posso exagerar a importância de seguir cada um desses
passos na escolha do discípulo. Você pode estar ansioso por começar a fazer
discípulos. Isso é recomendável, mas seu anseio deve ser temperado com a
paciência — espere o tempo de Deus e a pessoa de Deus.
Infelizmente, tenho de admitir que em diversas ocasiões
negligenciei cada um desses passos, e isso causou curto- -circuito no meu
ministério. Uma pessoa demonstrou todas as características do discípulo, exceto
a fidelidade. Convencido de que eu poderia ajudá-la nesse ponto, eu pus em
risco o padrão de Deus. Nosso relacionamento continuou por 18 meses até que sua
infidelidade se tornou intolerável.
Em outra ocasião, eu estava tão certo de que o coração de
um homem era correto que deixei de buscar a confirmação de Deus em oração. Esse
“discípulo ideal” foi embora em dois meses.
Várias pessoas que desejaram ser discipuladas vieram com
credenciais impecáveis — diplomas e certificados impressionantes, recomendações
de alto nível. Eu costumava ficar embaraçado demais para insistir em observar
primeiramente sua vida e consagração cristã. Mas inevitavelmente nosso
relacionamento não passava de um pré-discipulado, alimentando cristãos imaturos
nas disciplinas básicas do cristianismo. O perigo aí é que o aluno presume
estar-se transformando em discípulo e, portanto, acha que está em condições de
fazer discípulos. Sua demora em morrer para si mesmo reforça a ideia enganosa
de que seu valor está nas habilidades, e não no caráter. Se você estiver em um
relacionamento de pré-discipulado, chame-o por este nome, mesmo que esteja
caminhando para o discipulado.
Certa vez, iniciei um relacionamento de discipulado sem
definir o que esperava. O indivíduo assegurou-me de que sabia o que estava
envolvido nele, mas nunca foi submisso. Ele não queria ser discipulado; queria
comunhão sem responsabilidade.
Oro para que você aprenda com meus erros. Se você seguir
esses passos na escolha de um discípulo, a probabilidade de que haja reprodução
de qualidade é alta e a sua alegria será imensurável.
Lista de verificação do discipulador —
A escolha de um discípulo
□Estabeleci um alto padrão para meu discípulo.
□ Ele deseja conhecer intimamente a Deus.
□ Ele está disponível.
□ Ele é submisso.
□ Ele é fiel.
□ Ele deseja fazer discípulos.
□Tenho orado com persistência.
□Escolhi com cuidado.
□Tomei a iniciativa.
□ Fiz o convite.
□ Expliquei o relacionamento.
□ Comuniquei a visão.
□ Deixei que ele decidisse.
10-O discipulado é relacional
O discipulado é um encontro de uma vida com outra. Não é
apenas uma série de reuniões sobre determinado plano de estudo. É
essencialmente relacional — um investimento de tudo que você é em outra pessoa.
O sucesso em reproduzir a plenitude da vida que você tem em Cristo no seu
discípulo aumentará ou diminuirá conforme a força do relacionamento.
Permita que eu sugira oito qualidades que o auxiliarão a
desenvolver um relacionamento saudável com seu discípulo.
CALOR HUMANO- O calor humano é uma atitude
de amor e bondade demonstrada por meio de um conjunto de comunicações verbais e
não-verbais. O amor pelo outro é o indicador mais significativo
do amor a Cristo. A primeira epístola de IPedro 1.22
encoraja os cristãos, dizendo: “[...] amem sinceramente uns aos outros e de
todo o coração”. Altruísmo, serviço e compromisso compõem o amor e distinguem
um relacionamento de submissão e autoridade das associações existentes no
mundo.
O amor busca o melhor para o irmão. Ele se evidencia em
interesse genuíno. Paulo disse a Barnabé: “[...] Voltemos para visitar os
irmãos em todas as cidades onde pregamos a palavra do Senhor, para ver como
estão indo” (Ats 15.36). O discípulo é um amigo, e não um
projeto espiritual. Escute suas mágoas e conforte-o nas tristezas. Considere
seus interesses, alegrias e preocupações como se fossem seus. Tenha interesse
sincero pelas pessoas e pelos eventos que as afetam.
Se você servir a seu discípulo com alegria, ele saberá que
você o ama e respeitará e buscará sua liderança. Paulo disse: “Assim, de boa
vontade, por amor de vocês, gastarei tudo o que tenho e também me desgastarei
pessoalmente. Visto que os amo tanto [...]” (2Co 12.15). O
amor sacrificial impulsionará seu discípulo para o alvo de “que vocês sejam
maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma” (Tg 1.4).
O amor por seu discípulo baseia-se no seu compromisso com
ele. Transcende sentimentos emocionais. Muitos dos discípulos de Cristo o
abandonaram enquanto ele morria por todos. Mas o compromisso de Cristo com eles
foi inabalável: “[...] amou-os até o fim” (Jo 13.1). O
amor de Paulo fez que ele se dispusesse a ser amaldiçoado se isso pudesse
salvar seu povo (Rm 9.3). O amor motiva-nos a andar a segunda
milha com o discípulo, a estender-nos para animá-lo e edificá-lo. Transforma o
espírito julgador, abrupto ou exigente em perdão, paciência e compreensão.
Ouça as expressões de amor dos apóstolos a seus filhos
espirituais: “[...] muito amados [...]” (ITs 2.8);
“Anseio vê-los [...]” (Rm 1.11); “[...] uma vez que os tenho
em meu coração [...] como tenho saudade de todos vocês [...]” (Fp 1.7,8);
“Não tenho alegria maior do que ouvir que meus filhos estão andando na verdade”
(3Jo 4).
Nunca se envergonhe de dizer a seu discípulo que você o
ama. Recentemente telefonei para Norm Boswell, que vive a 4.828 km de onde eu moro, simplesmente para
dizer-lhe: “Eu o amo”. Norm ficou surpreso e maravilhado em saber que essa era
a única razão do meu telefonema. Susie surpreendeu sua discípula com um buquê de
flores. Mary buscou sua discípula, de uma reunião, com seu carro, simplesmente
para ela não precisar voltar para casa a pé na chuva. Afirme seu amor pelo
discípulo.
Explique, porém, que o amor exige que o relacionamento não
seja exclusivista. A morte para si mesmo inclui colocar limites em amizades
preciosas por amor do Reino de Deus. Ambos precisam relacionar-se com outros e
dar-se livremente a eles. A relação tem de centrar-se em Cristo, e não no eu.
Ternura é algo que intensifica a liderança. Paulo era terno
como “ama que acaricia os próprios filhos” (ITs 2.7).
Sua sensibilidade aos sentimentos do discípulo irá estimulá-lo ao crescimento.
Ele tem de ter segurança de que seu amor por ele não mudará diante das falhas
que ele tem ou por ele ser humano: Paulo exorta: “Aceitem o que é fraco na fé
[...]” (Rm 14.1).
Certa noite, eu estava com um discípulo que parecia muito
nervoso. Depois de alguns minutos, em lágrimas, ele confessou que tinha mentido
para mim. Um mês antes, ele tinha-me dito que um homem com quem eu queria
marcar um encontro não poderia atender. Agora, confessava que tinha-se
esquecido de telefonar e ficou com medo de me dizer a verdade. Ele esperava que
eu fosse ficar furioso. Pensei por um instante e então pedi desculpa por ter
transmitido um espírito tão exigente que ele tivesse medo de admitir sua falta.
Assegurei- -lhe de que nosso relacionamento era mais importante do que qualquer
compromisso e que meu amor por ele não mudava em razão do que ele fazia ou
deixava de fazer. Mais tarde, ele disse que o fato de tê-lo aceitado naquela
noite foi o fator mais significativo para ele crer que Deus poderia usá-lo para
fazer discípulos.
Se você fala do amor incondicional de Cristo e mostra
desprezo quando seu discípulo admite algum pecado, seus atos negam suas
palavras. Sua vida deve comunicar: “Eu amo você. Estou do seu lado”.
Ternura exige tato, uma percepção aguçada da coisa certa
para se dizer ou fazer sem ofender o outro. Isso permite que você continue fiel
a seus princípios sem fazer disparar os mecanismos de defesa do discípulo. Provérbios
15.23 observa: “[...] como é bom um conselho na hora certa”.
O tato exige sabedoria divina. Tiago
3.17 ensina: “Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura;
depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos,
imparcial e sincera”.
Há alguns anos, uma das pessoas de nossa equipe foi
transferida para outra cidade. Depois que ela chegou, apontou imediatamente
muitas das falhas do ministério naquela cidade e sugeriu como poderia ser mais
efetivo e eficaz. A equipe na nova cidade agiu com defesas, rejeitando tudo o
que ela disse.
Mesmo que essa jovem tivesse conhecimento prático e
experiência que pudessem beneficiar grandemente o seu ministério, faltava-lhe o
tato. Ela deveria ter deixado para outra ocasião tratar sobre questões pessoais
e o trabalho até que soubessem que ela os amava. Uma torrente de perguntas é
frequentemente interpretada como interrogatório. As pessoas tornam-se
defensivas quando os outros atiram sobre tudo o que fazem ou sugerem imensas
mudanças rápido demais.
“O Senhor é compassivo e misericordioso, mui paciente e
cheio de amor” (SL 103.8). O seu calor, como o de Cristo,
resguarda a validez do evangelho. Encoraja o respeito e a receptividade do
discípulo.
LEALDADE- A lealdade é um compromisso coerente
com outra pessoa. Significa ficar a seu lado nos problemas, como também nas
alegrias. Poucas coisas solidificam mais um relacionamento do que aguentar
juntos uma crise. “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (ICo
13.7).O discípulo nunca deve questionar sua lealdade. Se ele falhar,
nunca expresse falta de fé nele ou deixe subentendido que você deseja abandonar
o relacionamento. Fale de seu desapontamento somente com os líderes que poderão
ajudá-lo a edificar seu discípulo. Efésios 4.29
instrui: “Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for
útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça
aos que a ouvem”. Houve épocas em que sinceramente acreditei em pessoas e as
defendi até o fim. Mais tarde, porém, descobri que eu estava errado. Mas nunca
me arrependi de ter sido leal. Um homem morto não se sente usado ou abusado.
Ele nada tem a perder por ser leal a seus discípulos.
IMPARCIALIDADE- A imparcialidade exige que
sejamos imparciais. “Pois em Deus não há parcialidade” (Rm
2.11) e não deve haver acepção de pessoas entre o povo de Deus (Tg 2.1). O
seu discípulo deve saber que você é imparcial.
Tenho o privilégio de investir em nove pessoas que dirigem
nosso ministério em cidades pelos Estados Unidos. Elas são de diversas origens,
capacidades intelectuais variadas, personalidades singulares e potenciais
diferentes.
Procuro cuidadosamente aceitar cada diretor do jeito que
ele é e desenvolver seus talentos especiais e suas habilidades. Pedi a Deus que
me ajudasse a vencer quaisquer preferências de personalidade que pudessem
impedir meu aproveitamento e proteger-me de motivar um discípulo comparando o
seu crescimento com o de outro. O único padrão uniformizado para o qual todos
prosseguimos é o de um caráter semelhante ao de Cristo.
É injusto exigir ou mesmo esperar igualdade no entendimento
bíblico, na retenção das Escrituras ou no desempenho do ministério. Cada pessoa
é criação inimitável de Deus e deve ser tratada como única.
Se você tenta dirigir o seu discípulo com um plano
inflexível, predeterminado, será um desastre. Se tentar fazê-lo encaixar-se num
molde desejado, ficará desapontado. A imparcialidade exige que você respeite a
singularidade do seu discípulo e tenha prazer na variedade que existe no corpo
de Cristo.
Se o seu discípulo acusa de erro outro membro do corpo,
demonstre que você é leal e imparcial com cada pessoa. Não concorde nem
discorde até que tenha conversado com ambos os lados, preferivelmente juntos.
“Quem guarda a sua boca guarda a sua vida, mas quem fala demais acaba se
arruinando” (Pv 13.3). Ouça cada ponto de vista. Ore.
Depois, procure a resposta na Palavra de Deus e por meio de seus líderes. Ajude
seu discípulo a focalizar novamente seu propósito e alvos. Ensine-lhe a pedir
perdão e a perdoar. Juntos, reafirmem o compromisso de unidade para a glória de
Deus. Se seu discípulo souber que esta é a sua maneira de tratar, ele obedecerá
a Zacarias 8.16: “[...] Falem somente a verdade uns
com os outros, e julguem retamente em seus tribunais”.
MATURIDADE- A maturidade é o andar firme e fiel
com Deus. Jesus disse: “[...] sempre faço o que lhe agrada”. (Jo
8.29). Paulo disse: “Tanto vocês como Deus são testemunhas de como nos
portamos de maneira santa, justa e irrepreensível entre vocês, os que creem” (lTs
2.10).Como você procura produzir integridade em cada área da vida do
seu discípulo, você tem de ser constantemente maduro. Ele aprenderá a servir, a
ser sensível e a ter a atitude correta quanto à responsabilidade pelo seu
exemplo. Ele imitará sua conduta e respeitará sua maturidade. A recíproca
também é verdadeira. Seu discípulo verificará se você vive aquilo que ensina.
Ele o observará mesmo quando você não estiver percebendo. Um comentário
sarcástico, uma piada duvidosa, uma falta de confiança nos seus líderes ou uma
atitude ciumenta serão observados e imitados. A maturidade nunca impede a
formação de um relacionamento de discipulado. Quando Marge era novata em nossa
equipe, ela estava tão ansiosa por desenvolver intimidade e amizade com algumas
jovens que fazia quase tudo que elas faziam. Seu zelo era recomendável, e ela
tornou-se querida pelas moças. Mas, com o passar dos meses, notamos que, quando
alguma moça tinha um problema sério ou queria orientação em uma decisão
importante, procurava a diretora feminina, e não Marge. Marge tinha-se tornado
“apenas uma das moças” e não ganhara o respeito delas. A imaturidade é um preço
alto demais a pagar pela aceitação.
DISPONIBILIDADE- Seu discípulo é prioridade
máxima no corpo, a não ser que você seja casado. Se você for casado, o
discípulo vem logo após sua família. Mesmo que Paulo tenha encontrado uma porta
aberta para pregar o evangelho em Trôade, ele saiu para encontrar-se com Tito (2Co
2.12,13). Tito era mais importante para Paulo do que toda a cidade
de Trôade. Você precisa tomar uma resolução segura de manter seu discípulo como
prioridade. Você e seu discípulo precisam ter acesso máximo um ao outro para
ter um relacionamento de qualidade. Talvez vocês precisem de mais de três horas
de um encontro formal por semana se estiverem tendo dificuldade em conhecer um
ao outro, ou se o seu discípulo estiver inseguro. Embora um encontro deva ser
reservado para treinamento, estudo bíblico e apoio, podem ser designados outros
momentos para comunhão, troca de experiências e atividades em conjunto. Esteja
disposto a investir em seu discípulo e desafiá-lo mesmo que suas muitas dúvidas
e seu forte desejo de aprender exija grande período de tempo. Não lhe sufoque o
fervor. Seja especialmente sensível em tempos de ajuste ou crise. Se ele
estiver lutando com vícios, tais como pensamentos impuros ou “fazer” em vez de
“ser”, ajude-o dia e noite. Quando você obedeceu à ordem de Cristo de segui-lo,
confiou a ele o direito de determinar sua própria agenda. “[...] vocês não são
de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço...” (ICo
6.19,20). Todo o seu tempo tornou-se tempo de Deus, para ser usado
conforme for melhor para a honra dele. Se você estiver muito ocupado para o seu
discípulo quando ele precisar de sua ajuda, você está ocupado além da conta. Um
discípulo a quem amo profundamente telefonou-me às 2 horas da manhã e, com voz
soluçante, perguntou simplesmente se poderíamos nos encontrar naquele exato
momento.
Sem hesitação, corri ao lugar determinado e gastei várias
horas em oração e aconselhamento. Foi o investimento mais sábio que fiz em
termos de fortalecimento de nosso amor e compromisso. Ele sabia que eu o
considerava de máxima importância e que, quando o seu mundo estava
desmoronando, eu estaria ali para ajudá-lo a juntar novamente os pedaços.
Momentos como esse marcam com tinta indelével na vida do seu discípulo os
princípios que governam um relacionamento saudável.
Em uma viagem recente que fiz a Wichita, meu horário estava
todo tomado com treinamento de equipe, palestras e reuniões particulares.
Enquanto nosso diretor Al Ewert e eu nos dirigíamos de uma reunião para outra,
conversamos a respeito de sua longa lista de perguntas sobre o ministério.
Minha última reunião demorou mais do que eu esperava, e
acabei perdendo o avião. Como o avião seguinte só sairia dali depois de quatro
horas, cansado, sugeri que fôssemos tomar um café.
Uma vez sentados, falei-lhe de algumas das pressões, prazos
e emergências com que estava lutando. O encorajamento que Al me ofereceu foi
como uma brisa fresca em um dia escaldante de verão. Não demorou muito, eu
estava pensando nos sonhos e alvos — tinha certeza de que Deus realizaria
coisas mais poderosas do que podíamos imaginar. Al confirmou minha visão e
ofereceu ainda vários pensamentos inspiradores que Deus estava dando.
O tempo passou depressa. Quando tomei o avião, mal
acreditava em como me estava sentindo reanimado. Alguns dias depois, Al
telefonou-me para dizer que para ele aquele tempo tomando café tinha sido o
ápice de minha visita a Wichita
— como certamente foi o auge para mim.
Não desperdice o tempo fazendo longas viagens de carro
sozinho ou ficando sozinho no aeroporto. Convide seu discípulo para estar
com você. Essas são oportunidades preciosas de ensinar, ter comunhão e ser
uma influência constante. Jesus não queria que alguém soubesse que estavam
passando pela Galileia, para poder gastar mais tempo com seus discípulos,
ensinando-os (Mrc 9.30,31). Ele nunca estava ocupado
demais ou cansado demais para suprir-lhes as necessidades.
PACIÊNCIA- Paciência significa ser tardio para
irar-se. É fé em ação, e não passividade. A paciência compele-nos a estender a
graça a nosso discípulo sem comprometer o padrão de Deus. É a prevenção contra
a amargura. A paciência é a marca registrada do discipulador. Jesus começou com
homens não qualificados que precisavam ser instigados e animados a cada passo.
Levou tempo para os seus discípulos desenvolverem o caráter espiritual, mas o
Senhor continuou trabalhando com aqueles homens até que se tornassem como ele.
Ele nunca desistiu; suportou a ousadia de Tiago e João, a instabilidade de
Pedro e a dúvida de Tomé. Isso é paciência.
Deus promete a seus filhos essa mesma espécie de paciência,
como a de Cristo (Rm 15.5). Os que fazem discípulos devem
esperar pelo tempo e pela direção de Deus. Talvez seu discípulo tenha medo de
gente. Pode ser que ele resista às mudanças ou esteja lutando contra as
prioridades. Esses obstáculos, porém, podem ser vencidos enquanto ele o observa
e o Espírito Santo age em sua vida. Mas você tem de ter paciência.
Leva tempo para fazer discípulos. No gueto, talvez gastemos
seis meses para fazer uma amizade com uma pessoa e depois mais seis meses antes
que ela assuma um compromisso com Cristo. Podemos passar um ano alimentando
esse novo cristão e depois mais três anos preparando-o até que ele possa dar
frutos. Contudo, cinco anos de investimento em uma pessoa valem a pena, se ela
se tornar um discípulo que ganhe outros.
A primeira vez em que encontramos Virgílio foi logo após
ele ter quebrado nossas janelas e arrombado a casa de nossa equipe feminina em
Los Angeles. Isso foi há sete anos. Hoje ele está sendo treinado para fazer
discípulos. Ninguém de nossa equipe se arrepende do tempo investido nele.
No gueto, a maioria de nós orou e investiu em pessoas que
mais tarde rejeitaram Cristo. Mas não nos desanimamos. Continuamos em frente.
Portanto, visto que temos este ministério pela misericórdia
que nos foi dada, não desanimamos [...]. De todos os lados somos pressionados,
mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos
perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos (2Co
4.1,8,9).
Nem o ceticismo nem a oposição devem impedir seu
compromisso de investir no discípulo. Quando sua paciência for testada, afirme
a fé na soberania de Deus, conforme Filipenses 1.6:
“Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la
até o dia de Cristo Jesus”.
SINCERIDADE- A base para todo
relacionamento saudável é a comunicação sincera. Esta é construída sobre o
compromisso recíproco e sobre o conhecimento de que a transparência é para seu
próprio bem. Efésios 4.25 instrui-nos a deixar de lado toda a
hipocrisia e falar a verdade. O seu relacionamento não se desenvolverá, a não
ser que tanto você como seu discípulo se comuniquem abertamente. Vocês têm de
estar atentos às necessidades e aos sentimentos um do outro. Não espere que ele
seja perfeito; apenas que seja honesto e sincero.
Não sei de outra coisa que gere mais sinceridade do que a
intimidade de um relacionamento de discipulado. Muitos cristãos têm vergonha de
falar de suas lutas e ansiedades, temendo que seus fardos mais íntimos se
transformem em mexericos. Mas o discípulo sabe que você protegerá sua
reputação. Ele pode conversar, em confiança, com você a respeito de qualquer
assunto porque está seguro do amor que você lhe dedica. “No amor não há medo
[...]” (Ijo 4.18), para que possamos “andar na luz” (Ijo
1.7). Seu discípulo deve comunicar qualquer coisa que o afete, que
afete o corpo ou seu ministério mesmo que não tenha vontade de fazê-lo.
Estimule a sinceridade no seu discípulo, falando de si
mesmo, escutando e estando aberto a críticas.
Fale de si mesmo. Se você compartilha
sinceramente suas próprias lutas, dores e desapontamentos, como também
vitórias, sonhos e realizações, logo seu discípulo estará fazendo o mesmo. Se
você errou, admita-o, mas sempre o faça focado na edificação do Reino e no
fortalecimento do caráter do seu discípulo. Sua abertura demonstrará que você é
dócil e confia nele. Inspirará comunicação sincera.
Faz alguns anos, Joana tinha uma amizade especial com um
homem excelente. As pessoas julgavam que eles iriam se casar, mas Deus
mostrou-lhes que não deveriam continuar o namoro. As alunas de Bíblia de Joana,
adolescentes, estavam ansiosas para saber por que ela terminara o
relacionamento e como se sentia. Mesmo que doloroso, Joana relatou os
princípios que Deus havia ensinado e contou-lhes sua luta — a dor, a solidão e
até mesmo o medo de permanecer solteira. As alunas maravilharam-se da
sinceridade dela. Joana confiou nelas para que ministrassem à sua própria vida.
A transparência de Joana durante aquela crise demonstrou de
forma poderosa seu amor às alunas. Isso fez que elas estivessem também livres
para compartilhar suas lutas. Ao observarem como Deus agia na vida de Joana,
tiveram certeza do poder dele para suprir as suas necessidades. Hoje, quatro delas
são discípulas atuantes.
Não perca, porém, o respeito de seu discípulo ao
compartilhar de modo destrutivo. Alguns cristãos imaturos tropeçam ou
justificam seus erros em razão das falhas de seus líderes. Outros se tornam
inseguros ou perdem a confiança no líder, se este se apresenta fraco. Se você
tiver dúvida quanto a contar alguma coisa, consulte primeiramente aqueles que
são seus líderes.
É injusto esperar que seu discípulo carregue uma quantidade
exagerada de preocupações que pertencem a você. O exagero na comunicação, mesmo
quando verdadeira e pura, pode fazer que seu discípulo se torne orgulhoso ou
desanimado. Jesus falou a seus discípulos: “Tenho ainda muito que lhes dizer,
mas vocês não o podem suportar agora” (Jo 16.12).
Seja sensível à direção de Deus com relação a que e quanto compartilhar.
Escute. Quando o seu discípulo falar com você, preste
atenção ao que ele tem a dizer. Sua atenção exclusiva prova que você se importa
com ele. Se estiver preocupado com a forma de responder, em vez de escutá-lo de
maneira atenciosa, você comunicará falta de interesse. Demonstre por meio de
linguagem verbal e não-verbal que você o compreende. Faça perguntas que o
sondem e o animem a se abrir. Mas não o interrompa. “Um homem sábio guarda a
sua língua [...]” (Pv 10.14, A Bíblia Viva).
Esteja aberto à crítica construtiva. Demonstre que confia
no seu discípulo permitindo que ele lhe faça críticas construtivas.
Escute atentamente quando o discípulo fizer críticas.
Pondere sobre as ideias dele. Ele está numa posição singular para refletir suas
virtudes e fraquezas, bem como esclarecer-lhe sobre como sua personalidade
projeta coisas que você não deseja. Peça desculpas por seus erros e afirme o
compromisso de procurar corrigi-los. Consulte periodicamente seu discípulo para
verificar se a fraqueza para a qual lhe chamou a atenção está sendo corrigida.
Agradeça-lhe o interesse. “É um distintivo de honra saber aceitar críticas
justas” (Pv 25.12, A Bíblia Viva).
Mary Thiessen, nossa diretora para mulheres em Los Angeles,
é uma professora muito bem dotada. Ela se esforça bastante por transmitir suas
habilidades às discípulas, analisando o que elas ensinam. Mas recentemente uma
de suas discípulas apresentou-lhe um problema: “Fico tão nervosa quando você me
corrige que não consigo dar uma boa aula quando está por perto”. Mary aceitou
bem essa crítica construtiva e agora tempera suas sugestões para melhorias com
elogio sincero por aquilo que seus discípulos realizam. A abertura de Mary
fortaleceu o relacionamento.
A única qualificação quanto a fazer ou receber críticas é
que ela deve ser responsável e sincera, e nunca destrutiva. Não façam
brincadeiras duvidosas um com o outro. Não façam piadas nem tentem se livrar de
alguma frustração à custa de outras pessoas. Jesus alertou: “[...] os homens
haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado” (Mt
12.36).
Se a crítica estiver carregada de emoção, separe um tempo
para se encontrarem a fim de que ambos possam pensar a respeito da situação.
Tiago ensina: “[...] Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e
tardios para irar-se [...]” (Tg1.19).
Se resultarem conflitos no seu relacionamento por causa de
opiniões ou preferências pessoais, ouça e discuta o problema. Seja gentil e
flexível. A Bíblia diz: “Sobretudo,
amem-se sinceramente uns aos outros, porque o amor perdoa
muitíssimos pecados” (IPe 4.8). Vocês podem permanecer unidos mesmo
quando estiverem resolvendo diferenças entre si, se ambos estiverem buscando a
vontade de Deus. Nunca desista por causa de “conflito de personalidade”, como
se tal problema fosse intransponível. As dificuldades no relacionamento nos
purificam e afiam (Pv 27.17).
Quando seu discípulo souber que tem liberdade de
corrigi-lo, ele escutará e atenderá à sua correção. O texto bíblico assevera:
“Quem recusa a disciplina faz pouco caso de si mesmo, mas quem ouve a
repreensão obtém entendimento” (Pv 15.32).
MOTIVAÇÃO- A motivação é o desejo que nos
impele a ir ao encontro de nosso propósito. A motivação estimula seu discípulo
a ser uma pessoa de Deus e a ministrar efetivamente e com alegria.
Recentemente, ao ser convidado a dirigir uma aula sobre discipulado num retiro
de equipe, hesitei, com medo de entediar meus colegas. Eu vivo, respiro e como
discipulado e achei que toda a nossa equipe estivesse igualmente motivada.
Quando, porém, os desafiei, fiquei surpreso com a reação deles. Muitas foram as
pessoas que me disseram que precisavam daquela motivação. Algumas estiveram tão
ocupadas em dar aulas bíblicas, atender às emergências e conduzir uma infinidade
de outras atividades do ministério que tinham perdido a perspectiva de seu
alvo. Precisavam de ajuda para ver como suas responsabilidades aparentemente
materiais eram também vitais para o discipulado. Mesmo missionários de tempo
integral podem ter sua visão ofuscada pela tirania da rotina. Todos nós
precisamos de motivação constante que nos faça prosseguir para o alvo.
Sugiro quatro maneiras de motivar seu discípulo:
1. Direção. É necessário que haja direção em sua
própria vida para que você possa conduzir seu discípulo. Paulo declarou:
“Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim
mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o
Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus” (Ats
20.24). Os discípulos de Jesus viram que ele “partiu resolutamente em
direção a Jerusalém (Lc 9.51). Se você estiver crescendo no
conhecimento da Palavra e aplicando regularmente essa Palavra nas suas decisões
diárias, seu discípulo será motivado a fazer o mesmo.
2. Visão. Anime regularmente a visão que seu
discípulo tem do discipulado. Cristo fazia discípulos. E as pessoas eram o seu
alvo. Seu discípulo precisa estar convencido de que “aquele que afirma que
permanece nele, deve andar como ele andou” (I jo 2.6).
Mostre a seu discípulo que o treinamento que Paulo deu aos tessalonicenses
resultou num ministério efetivo não só na Macedônia e Acaia, mas em todo lugar
por onde iam (lTs 1.7,8). Relembre ao discípulo que
seu investimento de tempo precioso e energia nas outras pessoas produzirá
também fruto abundante e permanente.
Nenhum homem sábio ignora o potencial explosivo de uma
pessoa. Por meio de Adão, todos nós nascemos no pecado, mas mediante Cristo
temos o potencial para uma nova vida (ICo15.22).
Ajude seu discípulo a manter em vista o alvo de fazer discípulos. “Onde não há
revelação divina, o povo se desvia; mas como é feliz quem obedece à lei!” (Pv
29.18).
3. Confiança. Uma pessoa confiante é
estável, inabalável sob pressão, porque descansa em um Deus imutável e
coerente. Ajude seu discípulo a encontrar confiança em Cristo. Quando os
apóstolos foram incapazes de curar o rapaz epilético, sua confiança na carne
foi despedaçada, e eles se voltaram para Cristo (Mrc 9).
Não proteja seu discípulo de circunstâncias em que ele poderá ver sua
insuficiência. Dê-lhe responsabilidades que o forçarão a confiar em Deus. A
confiança dele crescerá à medida que ele observa que Deus honra sua fé. Se seu
discípulo estiver ciente da presença e da obra do Cristo vivo na vida dele, a
maturidade e o ministério cristãos serão resultados inevitáveis.
O mesmo Jesus que curou os enfermos, andou sobre as águas,
ressuscitou os mortos e conquistou a morte prometeu que aqueles que nele creem
farão obras ainda maiores (Jo 14.12). Ninguém pode ter maior
confiança do que aquele que anda com Jesus.
4. Urgência. O
ministério de reconciliação ganha urgência quando o discípulo reconhece que a
rejeição do dom de Deus resulta em maldição eterna. Jesus exorta: “Enquanto é
dia, precisamos realizar a obra daquele que me enviou. A noite se á próxima,
quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9.4). A compaixão pelos outros e o
conhecimento da volta iminente de Cristo exigem que tenhamos pressa. Contudo,
se esse senso de urgência for grande demais, seu discípulo poderá desanimar,
achando que há tanto a ser feito tão rapidamente que sua contribuição se torna
insignificante. As pessoas não conseguem desempenhar bem sob pressão constante
e premente.
Jesus preservou um equilíbrio delicado, pedindo que seus
discípulos agissem como se ele pudesse voltar a qualquer momento.
— enquanto os dirigia para a edificação de sua Igreja
durante gerações. A urgência produzida por sua volta evitava a preguiça e a
procrastinação entre os seus seguidores, que passaram então a edificar a
Igreja, fazendo discípulos. Você também tem de transmitir um senso bem
equilibrado de urgência que motive seu discípulo a agir sem deixá-lo paralisado
diante da frustração.
Um relacionamento forte é inseparável do discipulado
bem-sucedido. Supre a compreensão necessária da saúde espiritual do seu
discípulo e proporciona uma base a partir da qual ele pode ser conduzido à
reprodução. Dá-lhe a segurança para aceitar e a motivação para agir sobre
aquilo que você lhe transmitiu. Além disso, é treinamento prático para sua
futura experiência de conduzir outras pessoas. O discipulado cristão é
relacional.
Lista de verificação do discipulador — O
discipulado é relacional
Meu relacionamento com meu discípulo é
caracterizado por:
□ Calor humano — atitude amorosa e bondosa.
□ Lealdade — compromisso coerente.
□ Imparcialidade — atitude não-tendenciosa.
□ Maturidade — andar constante e fiel com Deus.
□ Disponibilidade — o máximo de acesso.
□ Paciência — fé em ação.
□ Sinceridade — comunicação aberta.
□ Motivação — desejo que nos impele na direção do nosso
propósito.
11 A dinâmica do
discipulado
O interesse de seu discípulo em conhecer a Deus, sua
disposição, submissão, fidelidade e visão indicam a prontidão para fazer-se
discípulo. O caráter dele, semelhante ao de Cristo, e a relação que você tem
com ele qualificam-no para torná-lo discípulo. Entretanto, sem outros elementos
ele jamais se tornará produtivo. Será como um motor sem combustível ou um
cata-vento sem brisa — grande potencial mas estático e dormente.

Para que a disposição de seu discípulo em frutificar se
transforme na capacidade de reproduzir, seu ambiente espiritual tem de incluir
diversos elementos. Se mesmo um estiver faltando, o treinamento do seu
discípulo será deficiente. Esses elementos são a dinâmica do discipulado, os
ingredientes que infundem energia. Uma vez que se tornem parte natural do
discípulo, produzirão um caráter espiritual. Quando ele os entender tão bem que
puder transmiti-los a outros, estará pronto para reproduzir. Você é responsável
por transmitir-lhe essa dinâmica.
Embora o discipulado seja um encontro de vida com vida,
vocês precisam combinar um tempo regular para se encontrarem semanalmente.
Deixe que a personalidade de ambos determine a estrutura dos encontros e que as
necessidades de seu discípulo ditem o conteúdo deles. Não espere, contudo, que
somente esses encontros estimulem o crescimento. É de suma importância que haja
experiências da vida real e interação
ADORAÇÃO- O principal propósito do seu
relacionamento é honrar e glorificar a Deus. Adoração é a atitude que expressa
o amor, o temor e o respeito que você tem pelo Deus todo-poderoso. Seu exemplo
ajudará o discípulo a apresentar toda a vida em adoração a Deus. Deus não
determinou uma forma rígida de culto que tivéssemos de seguir. Jesus ensinou:
“E ninguém põe vinho novo em vasilha de couro velha; se o fizer, o vinho
rebentará a vasilha, e tanto o vinho quanto a vasilha se estragarão. Ao
contrário, põe-se vinho novo em vasilha de couro nova” (Mrc2.22). Como
seu relacionamento com Deus é novo, diariamente você está livre para expressar
amor e adoração a ele de modo que reflita o que sente.
Se você estiver preso a métodos tradicionais, sua adoração
se tornará rançosa. Mas, se procura honrar e glorificar a Deus em tudo o que
faz, sua mente e seu coração concentram-se nele e o Espírito de Deus lhe
ensinará como adorar com espontaneidade e liberdade.
Adore regularmente com seu discípulo. Vocês podem ler,
citar ou cantar as Escrituras. Podem tomar refeições com outros cristãos com
alegria. Podem orar, meditar, compor canções ou poemas que falem de seu
regozijo, bater palmas, tocar um instrumento ou simplesmente inclinar a cabeça
em humilde adoração.
Katie e eu esperávamos apenas um filho quando nasceram
Joshua e Paul. Ainda que eu louvasse a Deus com palavras por meus filhos, acho
que a maior expressão de adoração foi meu sorriso. Dizem que ficou estampado em
meu rosto por dias. Em apreciação a Deus, por quem ele é e pelo que ele fez por
você, a alegria deve transpirar de sua vida como o perfume de uma flor.
Deus está muito mais interessado na sinceridade de seu
culto a ele que na forma com que o faz. Não existe mágica no simples dizer
“louvado seja Deus”. Se seu espírito e estilo de vida não estiverem
sintonizados com suas palavras, “Deus seja louvado” toma-se apenas
conversa-fiada ou até mesmo blasfêmia, tomar
o nome de Deus em vão. Não caia na armadilha farisaica de
obedecer à letra da lei enquanto despreza o espírito dela.
Quando sua adoração for guiada pelo Espírito, ela será uma
resposta que glorifica a Deus (ICo 10.31), fortalece o corpo de Cristo
(ICo 14.3,12) e edifica você e seu discípulo (ICo
10.23).
MINISTÉRIO- Ministrem um ao outro. Animem um ao
outro com as Escrituras. Regozijem-se com suas vitórias. Compartilhem fardos e
confessem pecados um ao outro. Depois, orem especificamente sobre essas coisas,
pedindo a Deus a cura e o perdão. Orar um pelo outro deve tornar-se parte
normal da vida de ambos. Jesus rogou ao Pai em favor de seus discípulos: “Não
rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do
mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a
verdade” (Jo 17.15,17). Paulo disse a Timóteo:
“[...] [lembro-me] constantemente de você, noite e dia, em minhas orações” (2Tm
1.3) e implorou aos efésios que orassem “também por [ele]” (Ef
6.19).
A vitalidade de seu relacionamento depende das orações que
vocês façam um pelo outro. Orem pela proteção de cada um (ICo
13.7) e pelo crescimento (Cl 1.9,10). Peça a Deus direção enquanto
você aconselha seu discípulo e procura identificar suas necessidades. Tiago nos
anima: “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá
livremente, de boa vontade; e lhe será concedida” (Tg 1.5).
O tempo para ministrar um ao outro é indispensável. Quando
estávamos iniciando nosso trabalho, eu frequentemente cumprimentava minha
equipe com uma série de perguntas sobre o ministério. Minha obsessão em atingir
os outros e suprir as necessidades de um mundo sofrido ofuscava minha
preocupação pelo bem-estar espiritual dos meus discípulos. Eu simplesmente
presumia que eles estivessem sendo vitoriosos em sua vida pessoal.
Infelizmente, se eles estivessem lutando com uma fraqueza
ou um pecado que ainda não tivesse sido enfrentado, as horas que passávamos
juntos eram improdutivas. É muito fácil sucumbir à ideia de fazer antes
de ser. O caráter e as necessidades de meus discípulos são agora
prioridade muito maior do que seu ministério. Os momentos que vocês passarem
juntos devem servir para consolidar e edificar a ambos.
MEMORIZAÇÃO
A memorização das Escrituras está tornando-se uma prática
esquecida entre os cristãos. Contudo, a Bíblia insiste frequentemente em que os
cristãos tenham a Palavra de Deus neles (Pv 7.1).
Moisés insistiu com o povo de Israel para que guardasse a Palavra de Deus no
coração (Dt 6.6). A memorização das Escrituras é
nossa melhor defesa contra o pecado (SL 119.11).
Quando Jesus foi tentado por Satanás, o Espírito de Deus trouxe-lhe à memória
sua Palavra e proporcionou poder imediato e sustentador (Lc
4.4-12).
A memorização das Escrituras é um aliado valiosíssimo para
moldar de um caráter semelhante ao de Cristo. É a base para o conselho sábio e
para a correção. Uma discípula estava incapacitada pela insegurança e
imaturidade provenientes da rejeição e zombaria sofridas durante a infância. De
todo o coração, ela queria que Deus a libertasse do ódio de si mesma, mas
parecia não conseguir paz interior e auto aceitação. Então sua instrutora
começou a memorizar com ela os versículos bíblicos que falam dos atributos de
Deus. Semana após semana, recapitulavam essas passagens. Em alguns meses, a
Palavra de Deus produziu nela uma nova profundidade de santidade, maturidade e
segurança.
A memorização de passagens bíblicas gravará a vontade de
Deus no coração do discípulo (SL 37.31). Facilitará a adoração e a
comunhão (Ef 5.19). Memorize um ou dois versículos com
seu discípulo cada semana e recapitule outros que vocês já tenham aprendido.
Orem um pelo outro repetindo um dos versículos memorizados. Você e seu
discípulo devem atentar para Colossenses 3.16:
“Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo [...]”.
MEDITAÇÃO- Meditação é o esforço para
conscientizar-se de Deus, uma percepção constante a respeito dele por
intermédio da reflexão e devoção (SL 1.2). É consequência natural do
nosso amor à Palavra de Deus (SL 119.47). A meditação coloca-nos na
presença de Deus, produzindo paz, confiança e calma que só podem ser
encontradas nele.
Certa noite, quando eu estava em Midwest, Mary Thiessen
telefonou-me de Los Angeles. Alguns membros de uma quadrilha tinham-na ameaçado
de estupro e morte. Eu queria voltar imediatamente para confortá-la e
assegurar-lhe proteção, mas era impossível. Disse-lhe então que por meditar na
palavra Emanuel, “Deus conosco”, eu havia encontrado paz em muitas
ocasiões, e ela poderia fazer o mesmo.
Mary conta que nos dias que se seguiram ela pensou
constantemente no fato de que Deus está conosco e, finalmente, experimentou o
que era paz. Mesmo agora, quando enfrentamos perigo, meditar em “Deus conosco”
traz calma e confiança.
Ao refletir na Palavra de Deus, Jeremias transformou sua
amargura e solidão em alegria (Lm 3.18-23).
Meditamos na Palavra de Deus para que possamos “compreender a largura, o
comprimento, a altura e a profundidade, conhecer o amor de Cristo que excede
todo conhecimento” (Ef 3.18,19).
Ensine a seu discípulo que, se ficar pensando nos seus
temores e nas circunstâncias, ele terá preocupação e ansiedade, ao passo que,
se meditar, estará focalizando sua mente em Deus, que é sua força (SL 4.1).
Como somos profundamente influenciados pelo que pensamos, a meditação produzirá
obediência (SL 119.15) e alegria (Jr
15.16).
Medite num versículo que você tenha
memorizado. Sugiro dois modos que o auxiliarão a começar a meditar com seu
discípulo.
1. Pergunte sobre aplicações do versículo: O que este
versículo me diz sobre Deus? Que outra verdade este versículo me ensina?
Existe um hábito que eu tenha de interromper ou uma prática
que eu deva iniciar, baseado nele?
2. Repita em voz alta, várias vezes, um versículo que você
tenha memorizado. A cada vez, destaque uma palavra ou frase diferente. Por
exemplo, em João 15.16:
Eu os escolhi para irem e darem frutos Eu os escolhi para
irem e darem frutos Eu os escolhi para irem e darem frutos Eu os escolhi para
irem e darem frutos Eu os escolhi para irem e darem frutos Eu os escolhi para
irem e darem frutos
Desfrute a verdade e a nova compreensão que cada leitura
traz ao versículo. Troquem ideias.
ENSINO- Cristo instruiu seus discípulos para
que ensinassem as pessoas “a observar tudo”que ele tinha ordenado. Paulo
ensinou “toda a vontade de Deus” (Ats 20.27). Ele escreveu: “Nós o
proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para que
apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1.28).
Ensine a Bíblia a seu discípulo. Depois que Jesus “lhes abriu o
entendimento, para que pudessem compreender as Escrituras” (Lc
24.45), ele instruiu os discípulos a apascentarem as ovelhas dele (Jo
21.15-17). O que poderá alimentar mais do que a Palavra “viva e
eficaz” de Deus? (Veja Hb 4.12.) Nela, Deus se revela e
revela sua vontade ao homem (Pv 2.1- 5). Aproxime-se da Palavra com a
mesma atitude do salmista: “Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas
da tua lei” (SL 119.18)
Suas lições devem ser práticas e exatas. Ensine sistematicamente
princípios e doutrina das Escrituras que auxiliem seu discípulo a chegar à
maturidade em Cristo. Ele deve ter um conhecimento atuante das
Escrituras para que possa aplicar a verdade bíblica de modo coerente.
Jesus era um comunicador por excelência. Ele ensinou com
autoridade (Mt 7.29), e as pessoas ouviam-no “com prazer”
(Mrc 12.37). Alguns exclamaram: “[...] Não estava queimando o nosso
coração, enquanto ele nos falava no caminho e nos expunha as Escrituras?” (Lc
24.32).
Para estimular o aprendizado do seu discípulo, você tem de
estar bem preparado e deve observar os seguintes princípios de ensino.
Seja criativo. Jesus combinou de modo muito
habilidoso mensagens formais com conversas informais. Ele fez palestras e
propôs debates usando exemplos da vida real, como moedas, lírios, sementes,
terra, para ilustrar profundas verdades. Como os discípulos poderiam esquecer a
lição de Cristo a respeito do poder e da fé quando ele amaldiçoou a figueira (Mt
21.19)?
A variedade ajuda a manter o interesse. Alterne
entre estudar um livro e um tema. Mude periodicamente o lugar em que vocês se
encontram. De vez em quando, permita que seu discípulo lhe ensine. Isso o
ajudará a compreender os princípios mais completamente e o equipará para
ensinar outros. Também permitirá que você avalie a compreensão dele acerca do
assunto.
Envolva seu discípulo naquilo que vocês estão
estudando. Ele aprenderá melhor como estudar se o fizer com você, em vez de
simplesmente escutar uma palestra ou tentar aprender sozinho. Ressalte os princípios
bíblicos e as aplicações práticas que vocês fazem juntos. Ele precisa ver que
você tem tanta fome das coisas que está ensinando quanto espera que ele tenha.
Repita lições ou princípios importantes.
Paulo disse: “[...] Escrever-lhes de novo as mesmas coisas não é cansativo para
mim e é uma segurança para vocês” (Fp 3.1). Pedro declarou: “Por isso,
sempre terei o cuidado de lembrar-lhes estas coisas, se bem que vocês já as
sabem e estão solidamente firmados na verdade que receberam” (2Pe
1.12).
Seja flexível. Você tem de manter um
equilíbrio delicado entre suprir as necessidades imediatas do seu discípulo e
ter uma estratégia fixa de ensino. Isso pode ser feito mediante a aplicação das
lições do dia às necessidades do seu discípulo.
Ensine seu discípulo a pensar.
Quando seu discípulo se tornou nova criação em Cristo, Deus renovou-lhe a mente
(ICo 2.12). Agora, Deus requer que ele empregue suas faculdades
regeneradas. Paulo exorta: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas
transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de
experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm
12.2).
Cristo ensinou seus discípulos a pensar forçando-os a
chegar às suas próprias conclusões. Ele fazia perguntas que estimulavam a descoberta
por si mesmos. Muitas vezes, ele respondia às perguntas com outras perguntas. O
ensino dele por meio de parábolas levava-os a ponderar o significado das
palavras do Mestre.
Ensine seu discípulo a pensar, encorajando-o a empregar
métodos de descoberta no estudo bíblico. Dirija-o a um trecho bíblico e deixe
que ele procure avidamente as verdades ali contidas. Faça perguntas ou dê
sugestões que apontem o caminho. Parafraseie as perguntas que ele faz e
pergunte o que ele acha. Nunca responda a uma pergunta a que ele mesmo não
tenha tentado responder. Ele aprenderá princípios bíblicos muito melhor se os
descobrir por si mesmo do que se lhe for dada uma resposta padronizada ou uma
fórmula provada por você.
Por exemplo, se Fred Stoesz, nosso diretor de homens em Los
Angeles, me perguntasse se Thuan ou Charles deve dirigir um relacionamento de
discipulado com um novo membro de equipe, eu lhe diria que estudasse 1
Timóteo 3. Depois, faria várias perguntas: Quem está mais bem
equipado para treinar esse moço? Quem tem mais tempo disponível? Existem outras
pessoas que poderiam ajudar mais a esse novo membro da equipe? Quem você acha
que seria a melhor escolha? Por quê? Em geral, Fred chega à solução correta por
si mesmo.
Anime o seu discípulo a escrever-lhe tanto quanto ele
quiser. A comunicação escrita promove exatidão e clareza, capacitando-o a
pensar por meio de suas perguntas e necessidades. Pouco a pouco, ele encontrará
exatamente sua área de necessidade ou descobrirá por si mesmo as respostas
enquanto escreve.
Ensine seu discípulo a tomar decisões.
Jesus insistiu para que as decisões de seus discípulos fossem baseadas na
vontade de Deus. Quando os discípulos receberam a vontade de Deus por meio de
suas palavras (Jo 14.24), estavam preparados para tomar
decisões (Jo 17.8).
Como o processo de tomar decisões do discípulo é baseado na
vontade e na Palavra de Deus, difere essencialmente do método egoísta e
mundano. Ensine a seu discípulo que, para evitar decisões erradas que possam
prejudicar a causa de Cristo, ele deve responder a quatro perguntas:
1. Quais são as alternativas? Seu
discípulo deve avaliar objetivamente todas as opções possíveis conversando com
aqueles que conhecem os fatos e com os que serão afetados pela decisão. Ele
precisa de dados suficientes para decidir com sabedoria. Provérbios
15.28 diz: “O justo pensa bem antes de responder [...]”. Decisões de
última hora, feitas sob pressão, em geral nada mais são que conjecturas.
2. Quais são os princípios aplicáveis? Como
seu discípulo tem o compromisso de fazer a vontade de Deus, nenhuma decisão
deve contradizer um princípio bíblico. Um pensamento maduro baseado na Palavra
de Deus levará a decisões tomadas de forma confiante e a ações que exaltem
Cristo.
3. Quais são as implicações? Seu
discípulo deve examinar os possíveis efeitos de longo alcance que essa decisão
acarretará. Um pouco de prevenção e prudência pode evitar muitos erros e
tristezas.
4. Qual o conselho de seus líderes? Uma
vez que seu discípulo tenha pensado nas alternativas, nos princípios e nas
implicações, ele deve apresentá-los a você. Orem e estudem juntos a Palavra de
Deus procurando sua direção. Seu discípulo deve “[fazer] todo o esforço para
conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4.3).
Como a cooperação no corpo é o que preserva a unidade, as melhores decisões são
tomadas em conjunto com aqueles que exercem autoridade sobre a pessoa. Ao
buscar conselho, ele será ajudado a evitar tomar decisões que pareçam
construtivas, mas que possam ferir outros por desconhecer alguns fatores
importantes. Cada situação é diferente e exige oração específica e direção.
Deixe-me ilustrar como isso funciona. Suponhamos que você
faça parte de nossa equipe e acabou de ter um mês de ministério particularmente
exaustivo. Seus líderes planejaram um retiro para a equipe descansar. Então,
quando estão prestes a sair, você recebe um telefonema dizendo que a casa de um
dos membros do seu grupo de estudo bíblico pegou fogo e foi destruída.
Sua reação imediata pode ser perder o retiro a fim de
ajudar a família. Mas, como cristão, você tem de tomar a decisão à luz daquilo
que é mais edificante para o Reino e o corpo. Decisões importantes como esta
exigem pensamento e ação bem delineados, e não apenas uma resposta emotiva.
Vamos aplicar nosso processo de quatro passos para se tomar uma decisão quanto
a esta situação:
1. Quais são as alternativas? (a)
Faltar ao retiro e ajudar a família; (b) Ajudar a família e procurar uma folga
mais tarde; (c) Ignorar, adiar ou delegar a responsabilidade de ir ao encontro
da necessidade da família do grupo.
2. Quais os princípios bíblicos aplicáveis? (a) Salmos
46.1 nos ensina que a força do cristão se encontra em Deus; (b) Marcos
6.31 reconhece que os cristãos precisam ter suas forças renovadas pelo
descanso; (c) Tiago 2.15,16 nos instrui a nos dispormos a
suprir as necessidades do nosso próximo.
3. Quais são as implicações? (a) Se
faltar ao retiro, você pode impedir sua efetividade por desprezar uma profunda
necessidade de pensar em Deus e ter refrigério; (b) Se. você tentar uma folga
mais tarde, talvez tenha de cancelar muitas atividades do ministério que já
estejam planejadas. Isso poderia ferir outras pessoas ou negar o que você
ensina sobre fidelidade; (c) Se você ignorar a necessidade dessa família, pode
ferir seu relacionamento com eles e perder uma imensa oportunidade de demonstrar
o amor cristão.
4. Qual o conselho de meus líderes? Se
minha direção fosse procurada numa situação dessas, em que há duas prioridades
conflitantes, eu reveria as alternativas e consideraria as implicações de cada
uma delas à luz de nossas prioridades: primeiro Deus, o corpo de Cristo em
segundo lugar, o ministério em terceiro. Quanto, realmente, você precisa agora
dessa folga? Você poderia sair depois com alguns outros membros da equipe sem
colocar em risco seu ministério? Existe outra pessoa que poderia atender a essa
necessidade tão bem quanto você e que sofreria menos por perder o retiro nessa
ocasião?
Depois de fazer essas considerações e quaisquer outras
perguntas aplicáveis, entregaríamos a decisão ao Senhor em oração e creríamos
que o Espírito de Deus revelaria sua vontade perfeita, confirmando-a a nós. Ao
buscar conselho para se tomar uma decisão, obtém-se sabedoria e unidade.
Quando seu discípulo toma decisões à luz do bem do Reino e
do Corpo, ele não apenas está respeitando a saúde de toda a comunidade, como
também pode ter confiança de que terá a melhor direção para sua vida.
Quando Cristo deixou este mundo, seus discípulos conheciam
a Palavra de Deus e sabiam pensar e tomar decisões. Certifique-se de que seu
discípulo tenha aprendido essas lições essenciais.
CORRIJA FRAQUEZAS - Uma das coisas mais difíceis
para mim, no início do meu ministério, era corrigir outra pessoa. Eu temia a
rejeição e tinha medo de que pudesse estar errado. Um antigo pregador mudou
minha perspectiva, dizendo: a Você é apenas uma boca. Não dê suas
opiniões ou sugestões. Se você não puder dizer Assim diz o Senhor’, então não o
diga. Mas, se a Bíblia declara uma coisa e você tem medo de dizê-la, então você
não ama a pessoa”. Inevitavelmente, haverá áreas na vida de seu discípulo que
ainda não estarão conformes à imagem de Cristo. Você é responsável por expor
essas fraquezas e lidar com elas (G1 4.19). Você será tentado a racionalizar:
“Ele teve uma vida difícil” ou “Isso é apenas parte de sua personalidade”.
Entretanto, você deve amar seu discípulo suficientemente para tentar corrigir
suas fraquezas. Sugerimos o seguinte processo com esse propósito: Identifique
suas fraquezas. Observe cuidadosamente seu discípulo e escute o que ele
diz. Ele é a maior fonte de informação quanto às necessidades que tenha ou
quanto ao seu bem-estar espiritual.
Faça perguntas que o auxiliem a expressar como está indo e
quais são suas necessidades. Concentre-se em sua vida, no tempo que ele dedica
à Palavra e no seu relacionamento com as outras pessoas. Observe como ele se
relaciona com as pessoas que exercem autoridade sobre ele, com sua família, com
os estranhos, com o sexo oposto e com seus amigos.
Observe como os outros veem seu discípulo. Escute os
comentários feitos a seu respeito. Ele é respeitado? Confiável? Amável?
Verifique se ele tem feito as tarefas de escrita e de memorização. Tudo isso
deve ser feito em amor, mas com um olhar cuidadoso para as áreas carentes.
Confronte seu discípulo. Uma vez que tenha identificado uma
fraqueza, converse com ele a respeito dela. Ame-o o bastante para confrontá-lo.
Deus diz: “Repreendo e disciplino aqueles que eu amo [...]” (Ap
3.19). Se seu discípulo estiver se afastando da vontade de Deus, tenha
coragem para chamá-lo de volta ao caminho correto. Paulo exortava, consolava e
admoestava “como um pai trata seus filhos” (ITs 2.11). Se
você for fraco ou estiver intimidado pela rebeldia de seu discípulo, o
treinamento dele será deficiente.
Seu discípulo reagirá positivamente ao confronto se você
for firme, mas amoroso. Paulo disse a Timóteo: “Pregue a palavra, esteja
preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a
paciência e doutrina” (2Tm 4.2). Mas disse também a Tito:
“[...] repreenda-os severamente, para que sejam sadios na fé.” (Tt
1.13).
Paulo foi manso, mas direto quando desafiou Timóteo quanto
à sua timidez (2Tm 1). Paulo começa afirmando seu amor a
Timóteo (2Tm1.1-4) e recordando detalhes de seu
relacionamento (2Tm1.5,6). Então, baseado nessa
intimidade, ele exorta ousadamente Timóteo em sua falta: “Pois Deus nao nos deu
espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio. Portanto, não se
envergonhe de testemunhar do Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro [...]” (2Tm1.
7,8).
Sempre tenha como base do seu confronto a Palavra de Deus e
a autoridade de Jesus Cristo. Então, você pode ter a ousadia e a confiança de
Cristo quando confrontou Pedro: “[...] Para trás de mim, Satanás! Você não
pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens” (Mrc 8.33).
Paulo escreveu: “[...] Agora lhes pedimos e exortamos no Senhor Jesus [...]” (ITs
4.1)
Mostre a seu discípulo os princípios bíblicos que expõem
atos e hábitos pecaminosos. Isso estabelecerá que é a Palavra de Deus, e não
sua opinião ou experiência, a base para a correção.
Contudo, não confronte seu discípulo toda vez que você se
encontrar com ele. Faz algum tempo, notei essa minha tendência. Em razão da
amplitude de nosso ministério, havia alguns membros de nossa equipe a quem eu
pouco via. Quando os via, era porque tinham um problema sério que exigia minha
atenção pessoal. Depois de certo tempo, uma coisa muito natural acontecia.
Quando alguém lhes dizia que Keith queria falar com eles, ficavam ansiosos e
cheios de culpa. Esse temor era semelhante ao do cristão romano que recebesse um
convite para se apresentar no Coliseu, em vez de se encontrar com um irmão
amado que se preocupava com ele. Ninguém deseja ter um relacionamento baseado
em confrontos.
Mantenha equilíbrio entre confronto e encorajamento. Elogie
o discípulo pelo crescimento que tem tido e pela aplicação dos princípios de
Deus. Mostre-lhe como você tem sido abençoado com sua ministração. Ele precisa
desse tipo de afirmação.
Uma vez que tenha confrontado o discípulo, estudem juntos a
Bíblia para encontrar a qualidade que precisa ser desenvolvida na vida dele ou
ajude-o a descobrir por si mesmo o padrão.
Orem juntos. Só Deus pode transformar uma
vida (ICo 3.6). Paulo rogou a seus amigos: “[...] se unam a mim em minha
luta, orando a Deus em meu favor” (Rm 15.30). Jesus prometeu: “Também lhes
digo que se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual
pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus” (Mt
18.19). Em oração, façam um compromisso de transformar essa fraqueza em
força.
Desenvolva uma estratégia. Uma estratégia é uma série de
passos que levarão seu discípulo a atingir o alvo. Esses passos devem ser
específicos, claramente definidos e factíveis. Sugiro três elementos vitais que
precisam ser incluídos em toda estratégia para eliminar a fraqueza.
1. Estudo bíblico. Muitos
não estudam a Bíblia porque ela os repreende. Mas a mudança vem “pela
consolação das Escrituras” (Rm 15.4). Deus abençoa ricamente
aqueles que a ele obedecem.
George era um membro de nossa equipe que frequentemente entregava
com atraso seus relatórios. Seu líder explicou os atropelos que isso causava,
mas George nada fez acerca dessa fraqueza até que estudou a respeito da
fidelidade nas pequenas coisas. Isso mudou sua atitude. O estudo de trechos que
falem diretamente ao problema tem de ser incluído na estratégia.
2. Modelos positivos .Seu
discípulo aprenderá a seguir a Cristo observando você e outros líderes cristãos
que sejam exemplos para o rebanho (1 Pe 5.1 -3).
Paulo exorta os filipenses a imitá-lo: “Irmãos, sigam unidos o meu exemplo e
observem os que vivem de acordo com o padrão que lhes apresentamos” (Fp
3.17). Bons exemplos de vida cristã demonstrarão que é possível ao
discípulo obedecer a Deus na área de sua fraqueza. Ele precisa ser exposto
à característica de que necessita. O exemplo é
poderosíssimo agente de transformação.
3. Aplicação prática. Tiago
1.22 nos exorta: “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes
Seu discípulo crescerá mediante a aplicação prática e específica. Envolva-o em
atividades que o ajudem a corrigir-se em sua fraqueza. Por exemplo, ele
aprenderá a qualidade de servir fazendo a limpeza após uma reunião. Ele não
deverá participar de atividades que impeçam que ele amadureça e vença a área de
fraqueza. Dirigir um estudo bíblico, por exemplo, pode alimentar seu orgulho e
ser contraproducente. Seu discípulo tem de ver essa estratégia como dele, e não
algo imposto sobre ele. Incorpore suas ideias sempre que possível. Afirme que
você o auxiliará e animará a seguir esse plano.
Considere-o responsável. Mesmo que esse seja um
processo longo, é um excelente investimento de tempo. Se seu discípulo entende
os princípios e sabe aplicá-los, estará bem equipado para lidar com futuras
fraquezas na sua vida e na daqueles a quem ele conduzirá. Igualmente
importante, esse processo comprovará seu amor por ele e reforçará a confiança
dele em você como alguém que busca a vontade de Deus em toda decisão que toma.
Como a confiança é fundamental para a submissão, desta forma ao lidar com as
fraquezas de seu discípulo, você o ajudará a submeter-se em alegria à
autoridade de Deus.
DESENVOLVA SEUS PONTOS FORTES-
Você é responsável por cultivar os pontos fortes de seu discípulo para promover
seu crescimento e desenvolver os talentos dados por Deus. Primeiro, certifique-se
de que as aparentes qualidades de seu discípulo não são fontes de orgulho. Se
forem motivos de orgulho, enfrente-as como fraquezas. Depois, desenvolva uma
estratégia para aprimorar seus pontos fortes. Essa estratégia precisa incluir
estudo bíblico, modelos positivos e aplicação prática, como já falamos. Será
ideal se você puder planejar algo que corrija uma fraqueza e desenvolva um
ponto forte simultaneamente.
Ruth era fraca em organização, mas forte em serviço. Assim,
demos a ela a responsabilidade de supervisionar as refeições para nossa equipe
de Los Angeles. Isso incluía o planejamento das refeições, a organização das
compras e a atribuição dos cozinheiros. Sua atitude de serva motivava os outros
a fazerem as tarefas. Isso a fortaleceu. Ruth tornou-se boa organizadora,
corrigindo sua falha. Em resposta à sua oração, Deus lhe dará discernimento
para que você perceba pontos fortes que precisam de desenvolvimento no seu
discípulo.
Ao terminar qualquer plano, avalie a eficácia do seu
discípulo. Pergunte-lhe o que foi que deu certo. Por que deu certo?
O que não deu certo? Por quê? Como melhorar? O que foi
realizado?
Além da avaliação do plano, examine novamente e discuta
seus alvos de discipulado. Seu discípulo foi meticuloso? Pontual? Organizado? Criativo?
Sabe delegar bem? Foi sensível e edificante aos demais? Tomou iniciativas? O
que ele aprendeu? Finalmente, encoraje e elogie seu discípulo. Então, quando
outra tarefa mais difícil surgir, faça-lhe o elogio máximo
— delegue-a a ele.
Lista de verificação do discipulador — A
dinâmica do discipulado
Asseguro-me de que o ambiente espiritual do meu discípulo
inclua:
□ Adoração — atitude que expresse nosso amor, temor e
respeito pelo Deus todo- -poderoso.
□ Ministério — construir e edificar um ao outro.
□ Memorização — guardar a Palavra de Deus no coração.
□ Meditação — procurar conscientizar-se de Deus.
□ Ensino:
□ da Bíblia;
□ como pensar;
□ como tomar decisões.
□ Correção de fraquezas.
□ Desenvolvimento dos pontos fortes.
12-O padrão do
discípulo: excelência
Os ensinamentos de Cristo têm sido interpretados de modos
variados — da ética idealista às ordens legalistas. Mas não importa como os
outros entendam o ensino dele, ao estudar a vida de nosso Senhor, vemos
claramente que ele esperava que seus discípulos praticassem aquilo que
lhes ensinou.
Jesus exigiu excelência em tudo o que seus discípulos
faziam. Sua ênfase principal no Sermão do Monte, como em todas as suas
instruções, estava sobre a justiça ou retidão — essa característica interior
que fornece a base para toda a conduta exterior. Ele ensinou a seus discípulos:
“Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mt
5.48). Na parábola do semeador, Jesus revelou seu desígnio de que o
fruto chegasse à perfeição (Lc 8.4-15). A avaliação que a multidão
fez de sua vida e ministério confirmou a própria dedicação de Cristo à
excelência: “[...] Ele faz tudo muito bem [...]” (Mrc
7.37).
Deus é excelente, e tudo o que ele faz é esplêndido (SL
119.68). Seu discípulo precisa entender que, como filho de Deus, tem de
refletir em todo o seu ser a excelência do Pai. Deus exige que sejamos
aperfeiçoados em todo bem (Hb 13.21).
Uma pessoa pode ficar desanimada se acreditar que esse
nível de desempenho que se espera está muito acima de suas capacidades. Contudo,
os dons divinos de graça e poder acompanham as exigências de Deus. Porque
Cristo está em você (Cl 1.27), a santidade é atingível.
Certa manhã de inverno, levei uma xícara de café quente
comigo enquanto eu dirigia meu carro até o escritório. Tinha conseguido
manobrar até a estrada de rodagem sem derramar uma gota. De repente, o
motorista à minha frente freou. Eu desviei para evitar um acidente. O café
escaldou-me a mão e redecorou o interior do carro.
Por que o café derramou? Porque o homem à minha frente
freou de repente? Não, o café derramou da xícara porque estava nela. Aquilo que
estivesse na xícara teria de cair quando sacudido.
O mesmo acontece com o nosso comportamento. Quando somos
sacudidos, a verdadeira pessoa surge. Se outro motorista toma seu lugar no
estacionamento e sua reação é xingar, você racionaliza: “Se aquele motorista
não tivesse tomado o meu lugar, eu não xingaria’? O discípulo sabe que, se a
hostilidade e a linguagem profana não estivessem lá dentro, não sairiam.
Se uma moça vestida de modo provocante passa na sua frente
e você tem desejos lascivos, você diria: “Se ela não estivesse ali, eu não
teria cobiçado”? Um discípulo sabe que, se não houvesse a lascívia lá dentro,
ele não a teria cobiçado. Se Cristo estiver em você quando for sacudido, a
justiça sobressairá(Rm 8.10).
Discipulado é reproduzir no outro sua experiência do
envolvimento com Cristo em sua vida. Para transmitir fielmente um caráter
espiritual a outras pessoas, seu discípulo terá de entender e almejar o padrão
de excelência de Deus.
Paulo demarcou para Timóteo as cinco áreas que revelam se o
discípulo está refletindo acertadamente seu Deus e Pai. Ele escreveu: “Ninguém
o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um exemplo para os fiéis na
palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza” (ITm
4.12).
PALAVRA- A maneira de seu discípulo falar é um
instrumento preciso para medir sua saúde espiritual porque reflete seu caráter.
“Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si
mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (Tg 1.26).Certa
manhã, eu estava conversando com um pastor na intimidade do seu escritório.
Para minha surpresa, ele contou uma piada suja, cheia de linguagem impura. Sem
refletir por um instante sequer, minha admiração por esse homem afundou por
completo. Instintivamente, eu sabia que suas palavras refletiam seu coração e
que esse homem estava lutando contra a impureza e a imaturidade. Lucas
6.45 nos ensina que “a boca fala do que está cheio o coração”. Um
coração puro produz pensamentos corretos que nos capacitam a falar de modo que
agrada a Deus. Deus espera que seu discípulo controle a língua. “[...] Se
alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito, sendo também capaz de
dominar todo o seu corpo” (Tg 3.2).Tiago usa a ilustração de
andar a cavalo para mostrar que ao falharmos em uma parte pequena,
aparentemente insignificante, perdemos o controle do todo. O cavaleiro bem
treinado sabe exatamente como e quando frear aplicando a pressão certa ao
freio. Mas um cavaleiro que solta as rédeas fica totalmente sem controle. O
cristão que não controla a língua corre sério risco: a língua “contamina a
pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma
incendiada pelo inferno” (Tg 3.6). Uma língua sem controle
expressa o orgulho pela vangloria; instiga ao mal moral por meio de histórias
picantes, humor negativo ou insinuações racistas; hipocritamente, ela bendiz a
Deus enquanto amaldiçoa o homem, criação divina. O Salmos
34.13 nos aconselha: “Guarde a sua língua do mal e os seus lábios da
falsidade”.
No entanto, Tiago 3.8 alerta que nenhum homem consegue
controlar sua língua. Contudo, o Espírito Santo pode domar a língua do seu
discípulo para que toda palavra que ele diga glorifique a Deus e edifique os
outros. Romanos 14.19 nos encoraja a promover “tudo quanto
conduz à paz e à edificação mútua”.
Nem sempre a sinceridade é edificante. A verdade pode ser
terrivelmente destrutiva. Seu discípulo terá de depender totalmente da direção
do Espírito para edificar os outros sem comprometer a verdade. Ele precisará
corrigir outros sem diminuir a disposição deles de aprender. Ele será chamado a
estimular um padrão de excelência sem frustrar a motivação de se esforçar.
Espera-se dele que carregue os fardos de outros, em simpatia, sem fomentar a
auto piedade. A efetividade de seu investimento nos outros será fortemente
determinada por sua capacidade de dizer a verdade em amor. “[...] o amor
edifica” (ICo 8.1).
Você e seu discípulo devem orar: “Que as palavras da minha
boca e a meditação do meu coração sejam agradáveis a ti, Senhor, minha Rocha e
meu Resgatador”(Sl 19.14)
CONDUTA- O comportamento de seu discípulo
deve produzir respeito ao Cristo que habita nele. Ele deve “se [abster] dos
desejos” (1 Pe 2.11,12). Seu amor interessado nas
pessoas e sua sensibilidade pelos outros atrairão pessoas a Cristo (ICo
9.19- 23). Isso só pode acontecer à medida que ele se revestir do
seu novo ser, “criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade
provenientes da verdade” (Ef 4.24).
Para desenvolver a excelência no seu discípulo, você
precisa ajudá-lo a viver segundo as prioridades. Ele terá de dizer “não” a
certas coisas aparentemente boas que não se encaixam no seu propósito e
objetivo, que não o ajudam a atingir seu alvo de fazer discípulos. Satanás usa
com frequência uma abundância de oportunidades para desviar-nos, sabendo que,
se seu discípulo tentar fazer coisas demais, a mediocridade caracterizará todas
elas. Manter os olhos no alvo permitirá que ele se concentre em desempenhar
tudo bem.
Depois de seu relacionamento com Deus, vem a obrigação para
com a família. Um querido amigo meu era constantemente envergonhado pela filha
adolescente. Ela insistia em fazer exatamente o oposto de tudo o que ele
ensinava. Um dia, ele me confessou que o comportamento da filha era resultado
direto de sua negligência. Enquanto ele atendia às necessidades urgentes de
vizinhos e amigos, que era o seu ministério, negligenciava a primeira e mais
importante responsabilidade. Paulo insiste que o discípulo “deve governar bem
sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade.
Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da
igreja de Deus?” (ITm 3.4,5). A excelência de seu
discípulo na conduta tem de começar em casa.
Seu discípulo terá também de servir à igreja com
excelência. Por exemplo, não basta que o discípulo dirija um estudo bíblico.
Ele tem de estar bem preparado para tanto e fazê-lo em altíssimo padrão.
Quando nossa equipe masculina levou suas equipes de
adolescentes para um retiro de Páscoa, passou mais de uma hora construindo uma
cruz em tamanho padrão, de madeira rude, para demonstrar a agonia da
crucificação. Aqueles homens poderiam ter pintado um quadro com palavras, em
vez de transportar aquela cruz desajeitada até o acampamento. Mas sabiam que o
evangelho merece uma apresentação excelente. E a resposta positiva dos
adolescentes comprovou a bênção de Deus sobre seus esforços.
Paulo instruiu a Tito que se empenhasse pela qualidade de
conduta que Deus exige: “Em tudo seja você mesmo um exemplo para eles, fazendo
boas obras. Em seu ensino, mostre integridade e seriedade; use linguagem sadia,
contra a qual nada se possa dizer [...]” (Tt 2.7,8).
Finalmente, a conduta de seu discípulo aqui no mundo deve
refletir corretamente o seu Senhor. “Tudo o que fizerem, façam de todo o
coração, como para o Senhor, e nao para os homens” (Cl
3.23). Se o comportamento do seu discípulo for modelado no de Cristo,
ele é sal (Mt 5.13). E o “cristão salgado” faz que os
homens tenham sede de Deus. Contudo, se o sal for insípido, não serve para
nada.
Conheço um contador judeu que é bem cético quanto aos
cristãos. Um dia, ele me contou a razão do seu preconceito: estava enraizado
nos negócios de um cristão que, contra a ética, ludibriava o governo.
Parece que o líder de uma igreja local procurou a ajuda
desse meu amigo judeu para defraudar o serviço de arrecadação de imposto de
renda. Embora esse incidente tivesse ocorrido dez anos antes, o contador jamais
esquecera. Seu discípulo precisa ter “boa reputação perante os de fora, para
que não caia em descrédito nem na cilada do Diabo” (ITm
3.7).
AMOR- O amor é o resumo total da lei de
Cristo (Mrc 12.30,31). O perfeito amor de Cristo a
Deus transbordava em amor incondicional aos homens. O texto de Mateus
8.2-4 relata a história de um leproso que procurou Jesus para ser
curado. O Senhor teve profunda compaixão desse homem a quem tinha sido negado
o toque humano ou o amor físico durante a maior parte de
sua vida. Jesus sabia que a família e os vizinhos desse homem o abandonaram
temendo também ficar doentes. Jesus poderia ter curado esse leproso ficando a
uns 50 metros de distância e simplesmente proferindo a palavra. Mas o leproso
precisava muito mais do que a restauração física; ele precisava da cura
emocional. Movido por compaixão, Jesus tocou o leproso. Imagine a forte emoção
que deve ter passado pelo seu corpo
— ele foi tocado, foi amado.
Ao ser tocado pelo Filho de Deus, a encarnação do perfeito
amor, seu discípulo está capacitado e é compelido a estender as mãos a um mundo
necessitado. Seu profundo afeto e compaixão pelos outros devem fazê-lo ansioso
por falar-lhes de Cristo (Rm 11.14).
Trabalhando nos guetos, temos oportunidades ilimitadas de
compartilhar nosso amor. Alguns de nossa equipe seguram no colo crianças
infestadas de piolhos. Ninguém mais as amaria nem cuidaria delas. Eles as lavam
— e às vezes pegam piolhos. Alguns têm limpado alcoólatras cobertos do próprio
vômito. Outros têm dado banho em crianças cuja criação nunca incluiu higiene
pessoal ou ensino quanto ao uso de vaso sanitário. Amamos os esquecidos e
negligenciados para dar glória a Deus. Em Lucas 9.48 está
escrito: “Quem recebe esta criança em meu nome, está me recebendo; e quem me
recebe, está recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre vocês for o
menor, este será o maior”. O cuidado que você tem pelos outros é a medida da
sua grandeza.
FÉ- Seu discípulo tem de ser uma pessoa
de fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6). A
fé é baseada em fatos, é agir sobre algo que sabemos ser verdade. É diferente
de esperança, que é aguardar que algo aconteça. A fé crê que Deus fará ou já
fez alguma coisa, e não que ele apenas possa fazê-la. Fé é tomar Deus em sua
Palavra. Cristo comissionou seus discípulos a pregar o evangelho e a fazer
discípulos de todas as nações (Mrc 16.15; Mt
28.19). Eles poderiam ter gastado o resto da vida debatendo a
improbabilidade de realizar a tarefa. Como atingiriam o mundo todo? Não tinham
aviões nem ferrovias — tampouco carros. Como atingir as massas sem televisão,
rádio, plano de salvação impresso? Eles não tinham nem o Novo Testamento.
Cristo, porém, prometeu-lhes autoridade, o poder do Espírito Santo e sua
presença contínua. Os discípulos criam nele e agiram por fé na sua Palavra. O
resultado está na História. Sua fé foi proclamada pelo mundo todo (Rm 1.8) e o
evangelho foi constantemente “produzindo fruto e crescendo” (Cl 1.6).Norm
Boswell demonstrou fé quando se mudou com sua mulher e filhos, quatro pequenos,
para o gueto de Newark a fim de fazer discípulos. Eles saíram do Kansas antes
mesmo que tivéssemos arrumado uma casa para eles morarem. Norm não tinha curso
superior nem experiência de trabalho no gueto. As pessoas julgavam que ele
estivesse agindo contra a razão. Mas Norm sabia uma coisa: Deus o chamara para
pregar o evangelho aos pobres. E o Senhor promete abençoar seus filhos fiéis,
muito além de todas as expectativas. Hoje, centenas de novos cristãos em Newark
estudam regularmente a Bíblia, discípulos são formados e a glória é dada a Deus
por causa da fé de um discípulo.
“Consequentemente a fé vem por se ouvir a mensagem, e a
mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” (Rm 10.17). Ao
estudar e aplicar a Palavra de Deus, aprendemos que ela funciona. Aqui está a
parte mais importante da armadura do seu discípulo (Ef
6.16), “Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos” (2Co
5.7).
Sem fé, seu discípulo terá dificuldade em crer que Cristo o
usará para fazer discípulos. Sem fé, o caminho de Deus parece loucura (ICo
2.14). Mas com fé “tudo o que pedirem em oração, se crerem, vocês
receberão” (Mt 21.22).
A fé é imprescindível para uma vida de excelência porque só
ela capacita o discípulo a andar em confiança e maturidade. A fé permanece em
oposição completa a uma vida controlada por emoções. A fé olha além das
circunstâncias para um Deus que não muda.
PUREZA- A utilidade de seu discípulo para
Deus depende totalmente do compromisso dele com a pureza. “Se alguém se
purificar dessas coisas, será vaso para honra, santificado, útil para o Senhor
e preparado para toda boa obra” (2Tm 2.21). Como Deus é puro, ele
insiste que seus filhos sejam puros: “Mas, assim como é santo aquele que os
chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, pois está escrito:
‘Sejam santos, porque eu sou santo’ ” (IPe 1.15,16).
Santidade é sinônimo de pureza.Pureza é a separação da poluição e do pecado
deste mundo pelo poder purificador do sangue de Cristo. Deus odeia o pecado e
não pode se relacionar com seres impuros sem comprometer seu caráter. Tudo o
que Deus faz está em perfeita harmonia com sua santidade (SL
145.17).
A primeira epístola aos Coríntios ICo
6.18 explica por que a pureza é tão importante: “Fujam da imoralidade
sexual. Todos os outros pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas
quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo”. O pecado sexual afeta
tudo a respeito do seu discípulo. Afeta o modo de encarar a si mesmo,
resultando em insegurança e imaturidade. Afeta negativamente suas relações com
a família e com outros cristãos, fazendo-o desconfiar e criticar. Paralisa o
seu ministério, diminuindo a confiança em Cristo, apagando a motivação por
fazer a vontade de Deus e roubando-lhe o poder de Deus. Não conheço outro
pecado que o Diabo tenha usado com maior sucesso para destruir ministérios.
Como a eficácia do discípulo e sua liberdade no Espírito
para ser fortalecido são diretamente afetadas pela santidade, é necessário
certificar-se de que ele é puro. Infelizmente, muitos de nós somos tão “santos”
que nem queremos saber se nossos discípulos estão batalhando em sua vida
espiritual contra a impureza. Mas deixe-me ser franco: se você não tiver amor
suficiente por seu discípulo para perguntar-lhe se ele está lutando contra a
lascívia, vocês têm um relacionamento muito superficial.
É doloroso reconhecer a impureza. É humilhante confessar a
necessidade de receber apoio contínuo por causa de uma batalha que se trava
constantemente. Nada exige maior desnudamento de alma. É improvável que o
discípulo admita tal problema, a não ser que ele tenha certeza de que você será
compassivo e compreensivo e continuará a aceitá-lo.
É muito fácil responder à impureza com horror, vergonha e
condenação. Tal atitude, no entanto, poderia ferir fatalmente seu
relacionamento. Você tem de atender ao grito de socorro do seu discípulo
gastando toda a força necessária para orar, encorajar e prover-lhe suporte. A
Bíblia fala de três elementos que criam no discípulo a vontade de ser puro e
que dão a ele condições de andar em pureza.
Primeiro, ele precisa conformar sua mente à mente de Deus.
Em Filipenses 2.5 lemos: “Seja a atitude de vocês a
mesma de Cristo Jesus”. Paulo nos ensina:
Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que
for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável,
tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor,
pensem nessas coisas (Fp 4.8).
A mente de seu discípulo é de suma importância na luta dele
pela pureza, pois seus pensamentos determinam em grande parte seu
comportamento.
Quando instalamos nosso computador, fiquei familiarizado
com a sigla GIGO, que significa “entra lixo, sai lixo” [em inglês, garbage in —
garbage out]. Aquilo que colocamos no computador determina o que o computador
imprimirá e dará como resultado. O computador só é capaz de usar aquilo que foi
colocado nele.
De modo semelhante, funciona a nossa mente. Se a saturarmos
com “lixo”, nossas ações refletirão isso mesmo. Mas, se a enchermos da Palavra
de Deus, pensamentos limpos dirigirão nossa boca, nossas mãos e nossos pés em
palavras e atos de pureza. “Cada palavra de Deus é comprovadamente pura [...]”
(Pv 30.5).
Em segundo lugar, ele tem de fazer parte de um corpo
cristão sadio e que funciona. Isso é importantíssimo, pois nenhum discípulo pode
manter a pureza sozinho. Ele precisa do exemplo de cristãos maduros no
corpo e da proteção, do cuidado e do suporte que somente o corpo de
Cristo pode providenciar.
Terceiro, ele precisa confessar voluntariamente sua
impureza e aceitar o perdão de Deus. Deus promete que, se confessarmos nossos
pecados, concordando com ele que desobedecemos, ele nos perdoará e purificará,
baseado na sua fidelidade e justiça (Ijo 1.9). A
pureza é impossível sem receber a purificação e o perdão de Deus mediante a
confissão.
Entretanto, 1 João 1.9 não
dá licença para continuarmos no pecado. Ao contrário, Provérbios
28.13 explica que aquele que confessa seus pecados e os deixa alcançará
misericórdia. A confissão do discípulo deve ser estimulada por uma atitude
sincera de arrependimento. Isso se evidenciará por sua consagração em fazer
tudo que lhe estiver ao alcance para evitar a impureza.
Certa noite fria, um árabe amarrou o camelo ao lado de sua
tenda. Perto da meia-noite, o ancião sentiu a tenda mover-se e acordou com o
focinho do animal dentro da tenda. O árabe pegou uma vara, bateu firme no
focinho do animal, e o camelo saiu. Um pouco mais tarde, o camelo enfiou
novamente o focinho na tenda e disse ao árabe: “Está tão frio aqui e você tem
esta tenda grande e quente. Não faz mal se eu deixar apenas o focinho aqui
dentro, faz?”. Depois de pensar por um momento, o árabe concordou.
Cerca de uma hora depois, o árabe acordou e encontrou a
cabeça inteira do camelo dentro da tenda. Rapidamente, o animal explicou:
“Tomei um pouquinho mais de espaço e agora minha cabeça está tão confortável.
Não faz mal, não é?”. Mais uma vez, o árabe concordou. Depois, mais três vezes
o árabe acordou, e a cada vez um pouco mais do corpo do camelo estava dentro da
tenda. Em todas as vezes, o homem cedeu aos pedidos convincentes do animal.
Finalmente, o árabe acordou do lado de fora da tenda e o camelo dormindo
comodamente dentro dela, recusando-se a sair.
É óbvia a moral da história: ao primeiro sinal de impureza
a entrar sorrateiramente em sua vida, você tem de fazer o ritual de bater no
focinho do camelo, senão ficará totalmente cativo da imoralidade e incapaz de
controlá-la.
Seu discípulo deve lutar para atingir o padrão de
excelência de Deus na fala, na conduta, no amor, na fé e na pureza. Embora esse
ideal só será atingido perfeitamente no futuro Reino de Cristo, a graça e o
poder de Deus nos capacitam a realizar uma nova medida de retidão e santidade
agora.
Lista de verificação do discipulador — O
padrão
do discípulo: excelência
Meu discípulo compreende o padrão da excelência e está
buscando obtê-la em:
□ Suas palavras.
□ Sua conduta.
□ Seu amor.
□ Sua fé.
□ Sua pureza.
13-O modelo do
Mestre
Uma das minhas primeiras tentativas de entrar no mundo dos
negócios foi como vendedor de assinaturas de jornal. O jornal promovia com
frequência concursos para aumentar a circulação. Lembro-me claramente de uma
conversa encorajadora com meu gerente: “Não me importo como você consegue
angariar assinaturas; consiga-as”. O mundo tem pouco interesse em como o
trabalho é feito, desde que seja feito. Como é diferente na economia de
Deus!
No discipulado, o método é a mensagem. Todas as semanas,
milhares de crianças dos guetos assistem às nossas aulas bíblicas por todo o
país. Descobrimos que as crianças aprendem mais observando seus professores no
amor e cuidado aos outros do que aquilo que aprendem nas histórias bíblicas.
É por isso que o método de Cristo de treinar as pessoas tem
importância máxima. A observação cuidadosa de sua estratégia revela que o
treinamento de uma pessoa para se tornar discípulo atuante exige tratamento
duplo: primeiro, o método e a mensagem de Cristo eram: “Seja como eu sou”.
Segundo, ele deu treinamento prático por um longo período de tempo. Se qualquer
destes estiver faltando, o discipulado não ocorrerá.
“SEJA COMO EU SOU” Nunca deixo de ficar surpreso
ao observar como meus filhos tentam imitar tudo o que faço. Eles me veem
fazendo a barba e querem se barbear. Observam-me correndo e querem correr pela
rua comigo. Acredito que a pergunta de que mais gostam sempre começa com as
palavras: “Quando eu crescer, posso... dirigir seu carro? [...] ir ao
escritório? [...] usar aquela serra grande e barulhenta?”. A intenção é sempre
a mesma: “Quando eu ficar grande, posso [...] ser como você?”. Quando Joshua e
Paul tinham 3 anos, eles observavam enquanto um vizinho e eu cortávamos um
eucalipto de 15 metros de altura em nosso quintal. Primeiro, cortamos os galhos
mais baixos para evitar que fizessem estragos em um prédio que havia por perto.
Depois, cortamos a árvore com uma serra elétrica. Os meninos ficaram
entusiasmadíssimos quando o eucalipto caiu ao chão. Na manhã seguinte, viajei.
Ao voltar, notei que a copa de outra árvore tinha perdido todos os seus galhos
de um lado. Os meninos estavam no processo de sistematicamente arrancar cada
galho preparando-se para derrubar a árvore. A maior parte do que somos hoje é
resultado de observar e escutar outros. Aprendemos a falar imitando nossos pais
e outras crianças na escola. Formamos preferências pessoais quanto a vestuário,
recreação, música e divertimentos, copiando os gostos de nossa família e de
nossos semelhantes. Mesmo nossos pensamentos e nossa filosofia de vida foram
grandemente influenciados por aqueles que nos cercam.
Fazer discípulos é um processo que começa com ser modelo. O
caráter é transmitido, e não ensinado. E por isso que os discípulos de Cristo
abandonaram suas profissões para estarem com ele (Mrc
3.14). Primeiro, tinham de seguir Jesus. Só então ele poderia
treiná-los para ser “pescadores de homens”.
Os discípulos acompanharam Cristo quando ele transformou
água em vinho. Observaram-no quando ele expulsou os cambistas do templo.
Escutaram-no quando ele ministrou à mulher samaritana, violando um tabu racial.
Viram Cristo curar o filho do nobre e o coxo em Betesda. Maravilharam-se quando
ele expulsou demônios de um homem em Gerasa. Por meses, observaram-no curar
cegos, coxos e surdos. Viram-no ministrar a crianças, mulheres, homens e até
mesmo a seus inimigos. Ouviram discursos extraordinários, parábolas
surpreendentes e a mensagem mais singular que já foi transmitida — o Sermão do
Monte.
Jesus explicou cuidadosamente os seus ensinos e seus atos
aos discípulos para que eles compreendessem a razão e os princípios que o
motivavam. Ele gastou tempo a sós com eles, explicando-lhes por que falava em
parábolas (Mt 13.10-15) e revelando os segredos do Reino de
Deus (Mrc 4.11). Marcos diz que “quando, porém, estava a sós com seus
discípulos, explicava-lhes” (Mrc 4.34). Enquanto Jesus ensinava a
seus discípulos os princípios que deveriam seguir em seu ministério,
concentrou-se em moldar-lhes o caráter, e não apenas em transmitir informações.
Não houve outros homens que se assentaram aos pés de um mestre mais profundo e
relevante.
O que os discípulos viram e ouviram afetou-os de modo
radical. Nunca se esqueceram da perfeita integração entre o ensino e a ação de
Jesus (Ats 1.1). Fielmente, eles retrataram Jesus como alguém que “andou
por toda parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo Diabo” (Ats
10.38). Eles baseavam sua autoridade e buscavam credenciais para sua
mensagem nas palavras: “Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos [...]” (Ijo
1.3). Ao observar e ouvir a Cristo, esses discípulos incultos foram
transformados em ministros atuantes, homens cheios da graça e do poder de Deus
(Ats 6.8). Se eles tivessem copiado um modelo menor, seu ministério
teria sido muito menos significativo. Mais tarde, antagonistas atribuíram o
sucesso dos discípulos ao fato de que “eles haviam estado com Jesus” (Ats
4.13).
Jesus proporcionou a seus discípulos um modelo perfeito (Jo
13.15). Eles então podiam fazer discípulos, não apenas porque conheciam
Cristo, mas porque se tornaram como ele. Podiam ser modelo daquilo que outros
deveriam ser.
Semelhantemente a Cristo, sua tarefa mais importante é
oferecer um modelo de excelência a seu discípulo. É a lei da natureza
reproduzirmos conforme a nossa espécie. Colhemos aquilo que semeamos (GL 6.7,8). O
fazendeiro que planta batatas não espera colher pepinos. Jesus disse: “Toda
árvore é reconhecida por seus frutos. Ninguém colhe figos de espinheiros, nem
uvas de ervas daninhas” (Lc 6.44).
Esse mesmo princípio é verdade espiritual. Só o discípulo
(morto para si mesmo) pode fazer discípulos (reproduzir). Note que a comissão
de Cristo de fazer discípulos foi dada a seus discípulos. É por isso que nosso
caráter tem de ser como o de Cristo antes que possamos reproduzir em outras pessoas
aquilo que somos. Nós reproduzimos, segundo a nossa espécie, o bem ou o mal. Se o cristão carnal treina outra
pessoa, a carnalidade será o fruto de seu relacionamento. Lucas diz: “O
discípulo não está acima do seu mestre, mas todo aquele que for bem preparado
será como o seu mestre” (Lc 6.40).
Quando comecei este ministério, hesitava muito em
confrontar os voluntários despreparados quanto à sua falta de excelência. Eu
sempre deixava passar, esperando que o Espírito de Deus os convencesse. Até me
esforçava por agradecer-lhes os esforços em tentar ou mesmo se apresentar.
Dentro de pouco tempo, percebi a mesma relutância em Al
Ewert. O mesmo medo que eu tinha de ofender e talvez perder um voluntário
reproduzia-se em Al. Eu estava convicto; sabia que Al nunca mudaria, a não ser
que eu mudasse e ele percebesse essa mudança em mim. À medida que fui crescendo
no exercício do confronto honesto baseado no padrão de excelência de Deus, Al
também crescia. Uma vez que somente Deus pode produzir o caráter do verdadeiro
discípulo, é muito mais fácil seu discípulo tornar-se algo que ele pode ver do
que algo de que ele apenas ouviu dizer ou sobre o que leu. Tive um colega na
faculdade que sonhava ser jogador profissional de futebol americano. Uma tarde,
eu estava no campo observando-o treinar. Muitas vezes, ele recebeu passes
espetaculares. Infelizmente, não havia nenhum “olheiro” profissional
observando-o ali. Sua capacidade teria de ser observada para ser apreciada.
O seu caráter pode ser impecável, mas não adianta quase
nada para seu discípulo se ele não estiver com você para ver o modelo. Paulo
levou Timóteo com ele e usou as experiências que tiveram para ressaltar
verdades bíblicas (2Tm 3.10,11). Deixe seu discípulo observar
sua vida, seu ministério e seu amor a Deus e aos outros. Descansem juntos.
Quanto mais tempo passarem juntos, mais eficaz será a
preparação de seu discípulo. “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o
seu companheiro” (Pv 27.17).
Um dos métodos mais efetivos de ser modelo é fazer as coisas
com seu discípulo. Você tem de estar ativamente preocupado com o trabalho dele,
com suas finanças, com suas relações familiares e tudo o mais que o afeta.
Ensine-lhe que, como nova criação em Cristo, tudo o que ele faz é espiritual.
Se ele for relaxado quanto ao uso do tempo, faça um horário para a semana com
ele. Se ele for fraco como servo, façam um projeto voluntário. Se faltar a ele
disciplina física, corra com ele todas as manhãs. Se ele precisa aprender a
trabalhar diligentemente, dê-lhe uma responsabilidade que exija esforço e
determinação dos dois, sua e dele. Deus usará sua vida para ilustrar as
aplicações práticas da sua Palavra.
Paulo se ofereceu como modelo para que seus discípulos
pudessem traçar sua vida em confiança. “Ponham em prática tudo o que vocês
aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim. E o Deus da paz estará com
vocês” (Fp 4.9). Paulo não tinha medo de investir a
vida em seus discípulos. Ele não tinha medo de influenciá-los porque Paulo não
pregava a si mesmo. Ele declarou: “Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de
Cristo” (ICo 11.1).
Porque o seu caráter se assemelha ao do Mestre, você deve
ser imitado — vale a pena. O Espírito impele e capacita os discípulos a imitar
o Cristo que vive em você.
TREINAMENTO PRÁTICO
A primeira vez que os meninos viram Katie e eu nadar,
queriam pular imediatamente na água e experimentar conosco. É claro que não
iríamos deixar meninos de 2 anos experimentar a natação sem o treinamento
correto. Primeiro, nós os levamos conosco à água segurando-os a todo instante.
Depois explicamos como prender a respiração, como fechar a boca debaixo d’água,
bater os pés, estender e puxar os braços, e eles começaram a nadar curtas
distâncias sozinhos, enquanto nós estávamos por perto. Agora, já podem
atravessar a piscina sozinhos a nado. Mas nós ainda os vigiamos atentamente. Um
dia, eles estarão capacitados a nadar sem a vigilância dos pais.
Não existe verdadeiro treinamento sem participação. As
habilidades são desenvolvidas pela aplicação prática do conhecimento. Jesus foi
o maior mestre que o mundo conheceu porque ele equilibrava perfeitamente
teologia e participação prática no que dava a seus discípulos. Ele declarou: “
‘Considerem atentamente o que vocês estão ouvindo. [...] “Com a medida com que
medirem, vocês serão medidos; e ainda mais lhes acrescentarão’ ” (Mrc
4.24).
O treinamento prático exige que você permita que seu
discípulo participe de sua vida e ministério. Isso se faz delegando. Delegar é
confiar responsabilidade e autoridade a outros, estabelecendo prestação
de contas dos resultados. Esses três componentes trabalham juntos como um
tripé. Cada um deles é tão importante para a delegação bem-sucedida que, se um
estiver faltando, o processo todo pode cair por terra.
Jesus foi mestre de treinamento mediante a delegação de
responsabilidade. Vamos examinar como ele fazia os discípulos participarem ao
treiná-los nas habilidades do ministério.
Jesus delegava responsabilidade.
Depois que os discípulos observaram de perto a vida e o ministério de Cristo e
aprenderam os princípios por trás de seus atos, ele deu-lhes oportunidades de
pôr em prática aquilo que tinham aprendido.
Sua participação começou com tarefas pequenas como procurar
comida, distribuir pães e peixes e arranjar um barco. À medida que cresceu o
compromisso, ele os instruiu a batizar outros. Em seguida, ele os levou para
uma tarefa experimental
— uma viagem missionária muito bem supervisionada através
da Galileia. Eles tornaram-se seus parceiros no ministério.
Logo Jesus passou a lhes dar tarefas a serem desempenhadas
com supervisão limitada (Mt 10.7,8). Ele os comissionou a pregar
o evangelho e curar os enfermos. Para ajudá-los a cumprir essa tarefa, deu-lhes
diretrizes pelas quais podiam decidir como agir em diversas situações: o que
pregar, como ministrar aos necessitados, aonde ir, o que levar, como financiar
a viagem e como agir ao enfrentar oposição. Jesus planejou a formação de seus
discípulos não apenas para suprir as necessidades físicas e espirituais do
próximo, mas também visando a aumentar a confiança e a maturidade deles.
São quatro as diretrizes que o auxiliarão a delegar
efetivamente responsabilidade a seu discípulo:
1. Nunca delegue prematuramente. A
delegação prematura alimenta o orgulho e reforça o pensamento terreno de que
habilidades e talentos é que produzem frutos. Dá a ideia de que “fazer” é mais
importante que “ser” e reflete a mentalidade de que servir e fazer discípulo
são obra do homem, e não do Espírito. Delegue a responsabilidade com base na
morte do seu discípulo para o ego, na disposição de servo, na maturidade, não
nas capacidades dele.
Não suponha que seu discípulo saiba levar a cabo a tarefa
que você está lhe confiando, a não ser que você já a tenha feito com ele ou o
tenha visto desempenhá-la. Um bom professor treina seu aluno pelo exemplo. Seu
discípulo aprende a ministrar observando você no ministério e ministrando com
você. Certifique-se de que ele está capacitado e sabe como realizar a
responsabilidade que você lhe está delegando.
2. Delegue com clareza. Defina
especificamente a responsabilidade que seu discípulo terá de assumir. Verifique
se ele entende perfeitamente o que se espera dele.
3. Delegue aos poucos.
Inicialmente, vocês farão tudo juntos. Deve começar a delegar responsabilidades
devagar. Comece solicitando pequenas tarefas que tenham alta probabilidade de
sucesso.
Fracassos criam insegurança. Ajude-o a evitar erros
desnecessários que prejudiquem sua confiança. À medida que ele ganha
experiência e amadurece espiritualmente, dê-lhe tarefas maiores. Lucas
16.10 diz: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito [...]”. Embora
existam certas responsabilidades e decisões que você não pode deixar de
cumprir, é seu dever delegar tanto quanto possível. Os homens a quem Cristo
treinou delegaram liberalmente a responsabilidade (IPe
5.1-4; Tt 3.8).
4. Inspire confiança. Seu
discípulo tem de saber que você tem confiança nele e na capacidade dele de
cumprir a tarefa que lhe foi dada. Fale do crescimento que você observa em sua
vida. Paulo se deleitava no crescimento daqueles a quem servia:
Irmãos, devemos sempre dar graças a Deus por vocês; e
isso é justo, porque a fé que vocês têm cresce cada vez mais, e muito aumenta o
amor de todos vocês uns pelos outros. Por esta causa nos gloriamos em vocês
entre as igrejas de Deus pela perseverança e fé demonstradas por vocês em todas
as perseguições e tribulações que estão suportando (2Ts 1.3,4).
Ele elogiou Filemom por seu amor e sua fé (FL 4,5).
Elogie e cumprimente seu discípulo pelas tarefas
bem-feitas. Ofereça críticas construtivas que levem a melhoras, em vez de
concentrar-se em falhas temporárias. Sua atitude, mais que suas palavras,
aumentará a confiança dele. Certifique-se de que ele sinta que está dando uma
contribuição significativa e tem um ministério importante. Demonstre sua
confiança nele pedindo sua opinião sobre problemas específicos e siga seu
conselho sempre que possível.
Jesus delegou autoridade. Cristo deu a seus discípulos
autoridade para cumprir as responsabilidades de curar os enfermos e proclamar o
Reino. “[...] deu-lhes autoridade para expulsar espíritos imundos e curar todas
as doenças e enfermidades” (Mt 10.1).
Responsabilidade e autoridade têm de ser delegadas
igualmente. É injusto pedir que seu discípulo aceite uma responsabilidade para
a qual você não está disposto a lhe dar autoridade suficiente. A autoridade
insuficiente leva a frustração e ineficiência. Por que confiar uma tarefa a seu
discípulo se ele tem de pedir continuamente sua opinião a fim de receber
autorização para tomar decisões? Uma vez delegada uma responsabilidade a ele,
deixe que ele lidere.
Baseado em sua experiência pregressa e naquilo que você tem
recebido de seus líderes, decida quanta autoridade será necessária para seu
discípulo cumprir a responsabilidade que lhe foi designada. Então, defina
especificamente a amplitude dessa autoridade. Certifique-se de que seu
discípulo entende esses limites. Por exemplo, você pode estabelecer limites
financeiros. Se você lhe deu a tarefa de levar 45 crianças em um passeio ao
campo, pode solicitar que ele não gaste mais que uma quantia específica. Embora
ele tenha liberdade para decidir como transportar as crianças e o que lhes dar
de comer, sabe que as despesas com combustível e alimentação não devem exceder
a quantia estipulada, a não ser que obtenha autorização adicional.
Aliado à delegação de responsabilidade e à autoridade, vem
o “direito” de errar. Seu discípulo cometerá erros e tomará decisões falhas.
Todos nós o fazemos. Descubra onde foi que ele errou. Então, ajude-o a ver em
que ponto seu pensamento falhou. Encoraje o discípulo a usar os fracassos como
lições para crescimento futuro e, desse modo, você o auxiliará a concentrar-se
no desenvolvimento do ministério, e não na autodefesa.
Jesus exercitou a prestação de contas. Cristo
amou seus discípulos de tal forma que lhes avaliava e corrigia os atos para que
pudessem crescer na vida cristã. Ele lhes dava suporte. Depois da primeira
viagem missionária que fizeram sozinhos, “Os apóstolos reuniram-se a Jesus e
lhe relataram tudo o que tinham feito e ensinado” (Mrc
6.30). Sem dúvida, Jesus avaliou o trabalho que fizeram e revisou os
alvos que lhes tinha designado. Esse momento de compartilhar afiou suas
habilidades no ministério.
A tragédia na Igreja de hoje é que tão poucas pessoas estão
dispostas a usar o tempo necessário e investir emocionalmente em outra pessoa
como se requer na prestação de contas. Antes de começar seu relacionamento de
discipulado, você se comprometeu a ajudar o discípulo a crescer por meio da
prestação de contas. Não falhe com ele.
Para isso, verifique cada aspecto da vida de seu discípulo
e do ministério que ele exerce. Encoraje-o no estudo regular da Bíblia, na
memorização das Escrituras, na meditação, na oração e na adoração. Quando seu
comportamento e atitudes não forem marcados pela excelência, você deve ajudá-lo
a corrigir as fraquezas e a desenvolver os pontos fortes.
RETIRADA
Ao ter certeza de que seus homens estavam treinados, Jesus
lhes entregou a liderança da obra de Deus aqui e comissionou— -os a fazer
discípulos por toda parte. Antes de ser crucificado, Cristo orou ao Pai:
“Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer” (Jo
17.4). A obra de Cristo foi treinar homens, e não apenas realizar
milagres ou pregar o evangelho. Tendo preparado seus discípulos, ele podia
pedir confiantemente sua volta ao Pai (Jo 17.5).
A retirada é o passo final no treinamento de seu discípulo
para o ministério. A retirada começa quando seu discípulo está equipado para
começar a fazer discípulos. Você repete o mesmo processo pelo qual já passou de
orar pela escolha de um discípulo e cuidadosamente escolher aquele no qual
investir. No entanto, dessa vez, tanto você como seu discípulo estarão prontos
para reproduzir. Consequentemente, vocês estarão orando por mais duas pessoas.
Quando seu discípulo começar a fazer discípulos, o seu
relacionamento continuará, mas o foco irá mudar, assim como o relacionamento
que Cristo teve com os discípulos dele mudou depois de sua ascensão. Agora você
concentra-se em ajudá-lo a treinar outra pessoa a tornar-se um discípulo
atuante.
O método do Mestre era “Seja como eu sou” paralelamente ao
treinamento prático que o levou a se retirar. Somos sábios se seguirmos seu
exemplo.
Estou convencido de que o treinamento de outros para que
treinem outros é uma das maiores alegrias que Cristo nos permite experimentar.
Mas exige enorme esforço e grande concentração de energia e vontade. Meu
desafio é que você seja a pessoa de Deus, homem ou mulher de Deus, descanse na
sua soberania e deixe que ele atue livremente por meio de você nessa tarefa que
é a mais empolgante da edificação do seu Reino.
Lista de verificação do discipulador — O
modelo do Mestre
□ Ofereço excelente modelo para o meu discípulo.
□ Ofereço treinamento prático:
□ Delego responsabilidade.
□ Delego autoridade.
□ Dou suporte.